segunda-feira, 16 de junho de 2014

Acerca da minha esposa


Ana Foucaultiana ouve Tiê no smart. A. Foucaultiana, minha amada esposa, que foi diarista nos Estados Unidos aos 18, discursa sobre gentrificação e a desterritorialização do corpo, e eu como biscoito de polvilho. Limpo minha boca e digo, A. Foucaultiana, você está ouvindo Tiê, eu, por outro lado, como biscoito de polvilho; é uma tarde invernal, minha amada esposa A. F., e sempre que o tempo está úmido, meu polvilho perde em frescor. A. F. ouve Tiê, e, enquanto ouve Tiê, sorri compadecida, e atualiza-me ainda mais sobre gentrificação e desterritorialização do corpo, enquanto observo que outros no ônibus, dormindo, não ouvem Tiê. Você gostaria de ouvir Tiê no seu smart, pergunta-me Ana Foucaultiana, minha amada esposa. Digo a A. F., se isso tornar meu polvilho mais fresco. Eu poderia, é certo, ouvir Tiê; não há qualquer limitação lógica, digo-lhe, que renda a priori inconcebível ouvir Tiê, e em particular, ouvir Tiê no meu smart, como você por seu turno ouve, no seu próprio smart, Tiê, A. F., minha amada esposa, insto-lhe porém, em que isso afetaria positivamente meu polvilho, cujo frescor encontra-se ora tolhido pela manhã invernal? Eu gostaria de ouvir Tiê, bem como a qualquer compatrício que se assim intitule, digo-lhe, assim como você, sempre, ouve Tiê, embora não no mesmo smart, A. F., minha amada esposa; deparo-me, não obstante isso, com o seguinte cul-de-sac: tão logo se me aparte do polvilho o frescor, só consigo focalizar meus pensamentos em te foder pelos ouvidos. Em te foder pelos ouvidos. A. Foucaultiana, minha esposa. Isto é, lá por onde ora entra Tiê, A. F. minha esposa, e outrossim amada, injetar bem antes, uma ampola de bife pulsante; um quilograma de salame pagão, a socar-lhe de modo reiterado o tímpano, é no que penso. A. F., minha esposa, minha, outrossim, amada, temo contudo que você ouvirá um paf paf paf ensurdecedor, mas agora, enquanto você ouve Tiê, confesso que é nisto o que penso, c'est a dire, em desterritorializar meu mastruço, apenas para reterritorializá-lo em seu canal auricular, A. F. minha amada e esposa, gentrificando-o. Ora, não é suco de rola senão Tiê, o que preenche-lhe, agora, os orifícios, obtempero; ao menos, aqueles presentemente em consideração. A. F. compreende as articulações da minha sexualidade, suas relações estreitas com o polvinho e, inter alia, com Tiê, concedendo que é natural sonhar em preenchê-los, dentre seus orifícios aqueles sob escrutínio, com coisa outra, qual a ordenha do meu terceiro antebraço, ainda se quanto exclui, momentaneamente, a possibilidade de os preencher com, e.g., Tiê. Colidindo, de frente, com um carro, o ônibus derrapa na pista, formando trajetórias circulares; capota, no declive além do acostamento. Meu corpo e, também, o corpo de A. F., é estraçalhado nas ferragens; morremos um pouco como rãs pisoteadas.

Um comentário:

fochesatto disse...

a vida como ela é: anfíbia.