terça-feira, 17 de junho de 2014

Cordinha:

When routine bites hard,
and ambitions are low,
and resentment rides high,
but emotions won't grow

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Acerca da minha esposa


Ana Foucaultiana ouve Tiê no smart. A. Foucaultiana, minha amada esposa, que foi diarista nos Estados Unidos aos 18, discursa sobre gentrificação e a desterritorialização do corpo, e eu como biscoito de polvilho. Limpo minha boca e digo, A. Foucaultiana, você está ouvindo Tiê, eu, por outro lado, como biscoito de polvilho; é uma tarde invernal, minha amada esposa A. F., e sempre que o tempo está úmido, meu polvilho perde em frescor. A. F. ouve Tiê, e, enquanto ouve Tiê, sorri compadecida, e atualiza-me ainda mais sobre gentrificação e desterritorialização do corpo, enquanto observo que outros no ônibus, dormindo, não ouvem Tiê. Você gostaria de ouvir Tiê no seu smart, pergunta-me Ana Foucaultiana, minha amada esposa. Digo a A. F., se isso tornar meu polvilho mais fresco. Eu poderia, é certo, ouvir Tiê; não há qualquer limitação lógica, digo-lhe, que renda a priori inconcebível ouvir Tiê, e em particular, ouvir Tiê no meu smart, como você por seu turno ouve, no seu próprio smart, Tiê, A. F., minha amada esposa, insto-lhe porém, em que isso afetaria positivamente meu polvilho, cujo frescor encontra-se ora tolhido pela manhã invernal? Eu gostaria de ouvir Tiê, bem como a qualquer compatrício que se assim intitule, digo-lhe, assim como você, sempre, ouve Tiê, embora não no mesmo smart, A. F., minha amada esposa; deparo-me, não obstante isso, com o seguinte cul-de-sac: tão logo se me aparte do polvilho o frescor, só consigo focalizar meus pensamentos em te foder pelos ouvidos. Em te foder pelos ouvidos. A. Foucaultiana, minha esposa. Isto é, lá por onde ora entra Tiê, A. F. minha esposa, e outrossim amada, injetar bem antes, uma ampola de bife pulsante; um quilograma de salame pagão, a socar-lhe de modo reiterado o tímpano, é no que penso. A. F., minha esposa, minha, outrossim, amada, temo contudo que você ouvirá um paf paf paf ensurdecedor, mas agora, enquanto você ouve Tiê, confesso que é nisto o que penso, c'est a dire, em desterritorializar meu mastruço, apenas para reterritorializá-lo em seu canal auricular, A. F. minha amada e esposa, gentrificando-o. Ora, não é suco de rola senão Tiê, o que preenche-lhe, agora, os orifícios, obtempero; ao menos, aqueles presentemente em consideração. A. F. compreende as articulações da minha sexualidade, suas relações estreitas com o polvinho e, inter alia, com Tiê, concedendo que é natural sonhar em preenchê-los, dentre seus orifícios aqueles sob escrutínio, com coisa outra, qual a ordenha do meu terceiro antebraço, ainda se quanto exclui, momentaneamente, a possibilidade de os preencher com, e.g., Tiê. Colidindo, de frente, com um carro, o ônibus derrapa na pista, formando trajetórias circulares; capota, no declive além do acostamento. Meu corpo e, também, o corpo de A. F., é estraçalhado nas ferragens; morremos um pouco como rãs pisoteadas.
O sol retorce a savana, e o pianista está sentando ao piano. Trata-se de um Yamaha Baby Grands Série G, com a tonalidade e dinâmica ressonante abrangente dos pianos de cauda clássicos, uma excelente opção para salas e orçamentos pequenos. O pianista veste um casaco preto cortado na frente, com lapelas em cetim, com longas e finas abas traseiras, com calças pretas com duas faixas laterais, no mesmo material da lapela, com terminação traseira em "v", camisa branca gomada com frente lisa, um colarinho alto e gomado com botões de punho e laço branco, além de um colete branco de corte baixo, do mesmo material da camisa e laço, cortado por cima da linha de cintura do casaco, meias pretas de seda, e um sapato clássico preto de verniz. O sol causa-lhe desconforto. Entendiado há vários dias, vê quando macacos se aproximam e de pronto lembra de uma velha composição, registrada em notação pendereckiana, num papelote, bastante fudidaço, perdido no bolso da lapela, executando assim a canção. Os macacos batem punheta. Longe dali, o restante da população terrestre, ademais, bate punheta. Sob inspeção atenta, a inesperada sincronia revela-se banal e fortuita: aquela era a inauguração do Dia da Punheta no mundo, tão-somente. Anoitece e as estrelas sopram seu hálito frio no deserto. Foda-se.