sábado, 24 de maio de 2014


Dois excertos de "Ficando longe do fato de já estar meio longe de tudo", de Foster Wallace, que dia desses decidiu se balançar sem as mãos da forma mais popular na Coréia do Norte. Lembram às vezes como a ironia e em particular a auto-ironia, por tabela o senso de ridículo, eram as últimas barreiras impedindo um pentelho standard de resvalar como um poodle eufórico on meth no grande oceano excrementício do narcisismo moral. O fim da ironia libertou do ridículo não só o selfie, simpliciter, como também o selfie moral, atual justificativa a priapus- digo, a priori e universal para qualquer interferência prática na integridade retal alheia, consoante o ilustra a parábola do post anterior. Tradução do nosso grande escritor brasileiro, Daniel Galera, tão perfeitamente intercambiável com Graciliano, João Cabral de Melo, Machado e Campos de Carvalho que, se efetivamente substituído por um deles, nem sua mãe notaria a diferença (deixo para o Luís Fernando, outro monstro sagrado, o desenvolvimento dessa cena repleta de deliciosas ressonâncias absurdas).

I

"O som é ao mesmo tempo humano e desumano o bastante para eriçar os pelos. Dá para ouvir esse suíno em apuros de uma ponta a outra do Pavilhão. Os suinocultores profissionais ignoram o porco, mas nós vamos correndo ver e Acompanhante Nativa começa a falar com uma vozinha aflita de bebê até que eu a mando ficar quieta. Os flancos do porco estão arfando; ele está sentado como um cão, com as patas da frente tremendo, berrando horrendamente. Nem sinal do tratador do porco. Uma pequena placa na gaiola informa que se trata de um suíno da raça Hampshire. Está com problemas respiratórios, é evidente: minha suspeita é que tenha engolido serragem ou excremento. Ou vai ver que simplesmente não atura mais o fedor aqui dentro. Agora as patas dianteiras entortam e ele fica de lado tendo espasmos. Assim que consegue reunir fôlego suficiente, berra. É insuportável, mas nenhum dos agropecuaristas vem saltando por cima das gaiolas para prestar socorro ou algo assim. Acompanhante Nativa e eu estamos literalmente retorcendo as mãos de aflição. Ficamos fazendo barulhinhos plangentes para o porco. Acompanhante Nativa me manda sair atrás de alguém em vez de ficar ali com cara de cu. Sinto um estresse enorme — fedor nauseabundo, compaixão impotente, e além disso estamos atrasados no cronograma: estamos perdendo neste exato momento os Bodes Pigmeus Júnior, o Concurso Filatélico no Prédio de Exposições, uma Exposição de Cães da 4-H num lugar chamado Clube do Mickey D, as Semifinais do Campeonato de Queda de Braço do Meio-Oeste no Palco Lincoln, um Seminário de Acampamento para Mulheres e as primeiras etapas do Torneio de Fundição Rápida lá no misterioso Mundo da Preservação. Uma tratadora de suínos acorda sua porca a chutes para poder acrescentar serragem na gaiola; Acompanhante Nativa produz um ruído de angústia. Fica claro que há exatos dois defensores dos Direitos dos Animais nesse Pavilhão Suíno. Ambos podemos observar certa perícia carrancuda e insensível na conduta dos agropecuaristas aqui presentes. Um exemplo acabado da alienação-espiritual-da-terra-enquanto-fábrica, postulo. Mas por que se dar ao trabalho de criar e treinar e cuidar de um animal especial e trazê-lo sei lá de onde até a Feira Estadual de Illinois se você não está nem aí para ele?

Então me ocorre que comi bacon ontem e que neste exato momento estou louco pelo meu primeiro cachorro-quente empanado. Estou aqui retorcendo as mãos por causa de um porco em apuros e em seguida meterei um cachorro-quente empanado goela abaixo. Isso está ligado à minha relutância em ir correndo até um suinocultor e exigir que pratique ressuscitamento de emergência com esse Hampshire agonizante. Meio que posso prever o jeito com que o fazendeiro iria olhar para mim.

Não que seja profundo, mas me impressiona, em meio aos berros e resfôlegos do porco, o fato de que esses agropecuaristas não enxergam seus animais como bichos de estimação ou amigos. Apenas atuam no agronegócio do peso e da carne. Estão desconectados até mesmo aqui na Feira, nesta ocasião autoconscientemente Especial de conexão. E por que não, talvez? — mesmo na Feira, seus produtos continuam a babar, feder, ingerir os próprios excrementos e berrar, e o trabalho continua sem parar. Posso imaginar o que os agropecuaristas pensam de nós enquanto falamos carinhosamente com os suínos: nós, Visitantes da Feira, não precisamos lidar com a tarefa de criar e alimentar nossa carne; nossa carne simplesmente se materializa na banquinha de cachorro-quente empanado, permitindo que separemos nossos apetites saudáveis de pelos, berros e olhos revirados. Nós, turistas, podemos nos dar ao luxo de cultivar nossos sentimentos ternos de defensores dos Direitos dos Animais com nossas panças cheias de bacon. Não sei quão aguçado é o senso de ironia desses fazendeiros, mas o meu foi afiado na Costa Oeste e me sinto meio que um panaca no Pavilhão Suíno".

II

“Você ouviu aquele comentário que o Rei do Zíper fez?”, digo. Ela pôs a mão no meu cotovelo e está me ajudando a subir pela grama escorregadia do morro. “Detectou algo meio sexualmente assediante rolando nesse exercício perverso?”
“Ah mas que porra é essa Lesma foi divertido.” (Ignorem o apelido.) “O fiadaputa fez a cabine girar dezoito vezes.”
“Estavam olhando por baixo do seu vestido. Acho que você não podia ver. Penduraram você de cabeça pra baixo numa altura enorme, fizeram seu vestido cair e te comeram com os olhos. Protegeram a vista do sol e trocaram comentários. Vi tudo.”
“Ah, que porra é essa.”
Escorrego um pouco e ela pega no meu braço. “Então isso não te chateia? Como uma cidadã do Meio-Oeste, você não está chateada? Ou você simplesmente não teve uma percepção rigorosa do que estava acontecendo ali?”
“Independente de eu ter reparado ou não, por que tem que ser um problema meu? Então é assim, já que existem babacas no mundo eu não posso andar n’O Zíper? Nunca vou poder girar? Talvez seja melhor eu nunca ir à piscina ou nunca me arrumar pra sair por medo dos babacas?” Ela continuava corada.
“É que fico curioso pra saber, então, o que seria necessário ali pra te convencer a apresentar alguma espécie de queixa à gerência da Feira.”
“Você é inocente pra caralho, Lesma”, ela diz. (O apelido é uma longa história; ignorem.) “Babacas não passam de babacas. De que adianta eu ficar braba e aborrecida? Só vai arruinar minha diversão.” Ela fica com a mão no meu cotovelo esse tempo todo — essa ladeira é sacana.
“Isso é potencialmente relevante”, digo. “Pode ser exatamente o tipo de contraste político-sexual regional que interessa à revista classuda da Costa Leste. O valor essencial que conforma uma espécie de estoicismo político-sexual voluntário da sua parte é uma compreensão da diversão prototípica do Meio Oeste —”
“Me compra uns torresmos, seu bosta.”
“— enquanto na Costa Leste a indignação político-sexual é a diversão. Em Nova York, uma mulher que tivesse sido pendurada de cabeça para baixo e comida com os olhos reuniria um monte de outras mulheres e haveria um frenesi de indignação político-sexual. Elas confrontariam o cara que comeu a outra com os olhos. Ajuizariam uma ação. A gerência se veria envolvida num litígio custoso — violação do direito de uma mulher à diversão livre de assédio. Estou falando sério. Para as mulheres, a diversão pessoal e a diversão política se misturam em algum ponto ao leste de Cleveland.”
Acompanhante Nativa mata um mosquito sem nem olhar para o bicho. “E naquelas bandas todas tomam Prozac e enfiam o dedo na goela, também. Deviam tentar simplesmente subir, girar e ignorar os babacas, dizendo Eles que se fodam. É o máximo que se pode fazer a respeito de babacas.”
“Isso pode ser crucial.”



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