segunda-feira, 3 de junho de 2013

Philip e John

- Olhe ao redor, John. É abril, o mês mais cruel.
- Sim... Tergiverso, mas cuidado, Philip. Há algumas balas vindo em nossa direção.

Explosões e estilhaços.

- Apenas torna mais clara minha asserção inicial.
- Não há moralidade aqui... É o zeitgeist.
- John, há muitos corpos ao redor; é como se estivéssemos na guerra. Será difícil achar espaço nesse dormitório topologicamente irregular.
- Refere-se, sumariamente, ao mundo?

John é estapeado no rosto.

- Prepóstero. Não dormiria lá, por nada nesse mundo. Desconchavo! Insinuar que faço esse tipo configura atitude indigna de você, John, velho comparte cuja conveniência narrativa é meramente circunstancial. Há pouco ou nenhum controle de pragas lá. Ratazanas, aranhas... até leões.
- Deus não abriria um dormitório, Philip, a menos que fosse propriamente dedetizado, estou certo – retira um cigarro e, fazendo uma concha com a mão, o acende – Não vejo nenhum melhor aqui, de qualquer forma.
- Pergunto-me se indulgenciará uma breve digressão, em momento decisivo de vossa linha argumentativa, John.
- Indaga-se, com efeito? Pois bem. Felizmente, Philip, ao enunciar a si mesmo a questão que, em seu imo, o aflige, pude ouvi-la outrossim. E apenas para adicionar à felicidade anterior, julgo-me mais apto que vós a respondê-la, pois sou eu, John, e não vós, Philip, aquele sobre cujo juízo vossa proposição deriva em incertezas.
- Foi apenas um modo de dizer, John, mas exulto que o tenha ouvido. Meu ensejo outro não era, senão expressar que vossos cachos, de desirmanado rútilo, aleitam-se sobre vossa fronte numa conformação tal que, em mim, produz duradoira serenidade, em tempos de incerteza sociologicamente unânime.
- Atribui, pois, ao suave e – ouso dizê-lo? – barroco encaracolar dos meus cabelos, um antinômico peso fundacionista, em um paradigma cultural de resto niilista?
- Tomo-o com efeito, John, por um crivo kantiano; uma pedra-de-toque para a certeza. Mas veja, aviões liberando cargas explosivas.
- Poderiam danificar as árvores.

Ouve-se um assobio. Explosões. São atirados a alguns metros de distância.

- Lá, os arbustos. Estão danificados, John, conforme temia. Note, em particular, este ramo.

Philip exibe um ramo, parcialmente queimado.

- Nada garante, todavia – observa John – que os responsáveis não retornarão para o replantio.
- Já vão quase ao horizonte, John, e até o momento, não manifestaram qualquer intenção de retornar.

Philip é baleado e cai.

- Estamos na guerra, Philip; parece-me semanticamente seguro afirmá-lo.
- Morda-me se eu estiver louco, John, mas acho que está certo. Quanto independe, quer-me parecer, da orientação semântica presumida, seja correspondencialista ou contextualista.
- Bummer.

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