domingo, 11 de novembro de 2012

(...) observo que Jairo Spindola está cada vez mais musculoso, ao longo dos últimos meses; o body building está dando resultados. Imagina-se que deva usar como halter o Grundlagen der Arithmetik de Frege. Um outro palestrante sobe ao palco; dois outros abrem no Power Point o arquivo de slides, assistidos por um clipe de papel animado na tela. O clipe ri e dança, repleto de pleno júbilo filantrópico e entusiasmo servil; seus movimentos são algoritmos em C. Essa devoção humanitária, mesmo redutível a um sistema fechado de obstruções e desobstruções de corrente no hardware, é ainda assim bastante para constituir uma conexão animal; é inegável que sinto alguma identificação humana essencial com esse clipe de papel, constato, não sem certa auto-repulsa. Estou certo de que, a despeito da hostilidade universalmente despertada por ele, fez alguns muito menos solitários, talvez evitando suicídios, em madrugadas de clareza excessiva. Isto porque, mesmo experimentando viva indignação ante traços de caráter viciosos, como os do clipe do Microsoft Office, logo tomamos o hábito de indulgenciar em nossos iguais essa sorte de falhas morais, sob a premissa de que somos ainda mais desprezíveis e ilegítimos. Eis a benignidade do remorso, essa goma adesiva das relações humanas, tornando-as mais duradouras e resistentes, como o ilustram as relações familiares.

Nenhum comentário: