quinta-feira, 15 de novembro de 2012

À noite, com o olhar perdido na abóbada celeste, compôs para os astros distantes versos idílicos de rara beleza, entoou para a lua doces e bucólicas melodias, e quando já se masturbava para as estrelas como um puto, foi subitamente atropelado por uma frota de caminhões. Se eu ao menos tivesse visto o semáforo fechado, disse a uma das funcionárias do necrotério, com a qual conversava sobre amenidades enquanto era por ela autopsiado. Sentiram faiscar entre suas almas uma conexão especial, algo mágico na química daquela relação nascente; algo que desabrochava e expandia com o odor de formol. Havia, é certo, um quelque chose de especial na forma como o suco bilial era secretado pelo seu pâncreas em jatos quando ela o seccionava cirurgicamente com um bisturi; na forma como ela removia seu pulmão, abria nele alguns buracos e o vestia na cabeça, fingindo ser um ninja, antes de embalar o órgão dentro de um saco plástico para ser conservado no freezer. Foi então que ele tomou a decisão. “Não”, sussurrou, retendo a mão dela. “Não remova minha próstata ainda, minha doce Estagiária do Setor de Necrópsias. Ela pode ser útil. Sim. Sim, minha amada Estagiária do Setor de Necrópsias, eu quero pedi-la em casamento. Eu quero dar-lhe filhos com essa próstata, dentre outras partes do meu sistema reprodutor. Quero dar-lhe uma bela casa, um belo jardim, um depósito de suplementos alimentares com nova fórmula bioavailable que ofereçam mais proteínas utilizáveis por unidade que os produtos aquém deste padrão-referência, eu quero controlar minhas taxas de colesterol com você, comprar com você revistas trazendo 100 dicas para adicionar variedade à nossa rotina – em geral implicando danos anais – e assim reacender o fogo inicial do nosso relacionamento, quero escolher com você um creme de barbear que produza mais espuma com menos esforço; que seja menos agressivo à pele sensível de um professor universitário. Que proporcione um maior frescor pós-barba. Sim, meu pequeno rouxinol necrômano do amor, eu quero aderir com você ao programa de reciclagem e tentar postergar o colapso ecológico global e a completa aniquilação da humanidade via manufatura de bibelôs com lixo industrial, eu quero induzir com você a formação de tumores cerebrais – além de distúrbios nervosos menores – por exposição prolongada a campos eletromagnéticos de eletrodomésticos, e quero planejar com você uma viagem a algum paraíso natural intocado pelo homem, onde possamos descobrir em nós mesmos uma inesperada e profunda compreensão holística da Natureza e revela-lá aos nossos amigos no clube dos engenheiros agrônomos. Eu quero acumular com você por conseqüência de uma dieta demasiado farta, variada e inadequada aos hábitos alimentares humanos uma placa de resquícios alimentícios em putrefação no duodeno, lentamente liberando toxinas na corrente sangüínea pelo transcurso de nossas vidas. Eu quero que você esteja segurando a minha mão na sala de cirurgia quando meu câncer de testículos decorrente do hábito de deixar o controle remoto próximo às gônadas estiver prestes a ser removido após semanas de quimioterapia inútil, e eu quero ouvir com você os profissionais explicando como instalarão máquinas de glicerina para produzir nuvens etéreas quando nossa filha entrar no palco ao som de “Sail away” de Enya [parte censurada]. Eu quero ver com você na TV a terapeuta explicar que a delinqüência juvenil deve ser encarada como uma patologia, a ser tratada clinicamente. Eu quero esconder de você, dos nossos filhos e dos nossos amigos a minha coleção de DVDs desviantes que constituem um mecanismo de compensação para as baixas mas estáveis taxas de endorfina, dopamina e adrenalina resultantes de doses saturadas de entretenimento insuficiente e de emoções homeopáticas. Eu quero me tornar, com você, dependente de fontes de emoções diluídas e ideais dissolvidos em gotas anestésicas incapazes de sedar o tédio e a consciência da solidão da morte; músicas, filmes, livros, tarô, cientologia, cristianismo, Herbalife, frisbee, ginástica aquática, bungee jump, bonsais, iluminação ambiente, pubs, coquetéis, obesidade, documentários, fibras para prevenir hemorróidas, momentos mágicos, divertidos e inesquecíveis, graus moderados de radioatividade - síndrome do túbulo carpal, atuações aclamadas, dependência toxicológica de barbitúricos, suplementos alimentares - resíduos nocivos à saúde - decorações sutis doenças cardíacas diabetes e fatores de risco (como colesterol alto e hipertensão), vernissages escritores acadêmicos hashis pequenas epifanias comoções nacionais novas bactérias que adquirem tolerância a antibióticos – um novo espírito empreendedor um espírito cosmopolita de compreensão mútua – congressos internacionais fichas cadastrais, alimentos industrialmente processados formas de combater os radicais livres e prevenir o câncer de mama – acepipes; uma preocupação sincera com os problemas globais uma segurança renovada sobre seu valor pessoal, um novo espírito de equipe um novo espírito competitivo novas iniciativas novas amizades inconturbadas – um contato user-friendly com a morte plugs anais home theater rohypnol valium nicotina álcool tryptanol tianeptina, stablon, trazodona, cocaína – sexo casual, perversão, assassinato, suicídio autopromoção novos canais uma vida social ativa problemas domésticos sublimados em vendedores de telemarketing e crianças, programas de recliclagem, consciência política, anti-romantismo mas não pessimismo, efexor, rivotril, olcadil, carbolítio, viagra, anfepramona, desipramina, hormônios tireoidianos, abusos sexuais incestuosos autoamputação impulsos de violência e vandalismo reprimidos cafés literários galerias de arte museus restaurantes refinados momentos de descontração em ambientes acadêmicos formas de prevenir a menopausa – odorizadores de ambiente – cooper, animal de estimação, bebendo moderadamente – fotos no álbum de família tentativas de se manter atualizado sobre os valores da juventude, pontes de safena, autocompensação sexual, turismo, uma nova e mais sofisticada forma de encarar a vida programas sobre pesca prostitutas os velhos tempos nunca morrem festivais anuais coletâneas sutis momentos de intimidade entre amigos ou amantes mahjong camping praças de alimentação, posturas morais socialmente aceitáveis (não mais os suínos genocidas de antigamente) ufologia nostalgia xamanismo budismo pacifismo sushi bactericidas, espermicidas, parricidas. Sim, eu quero tudo isso, com você; ao seu lado. Case comigo, Estagiária do Setor de Necrópsias”. “Mas meu amor você não se está precipitando? Você nem mesmo leu o resultado do meu checkup bimestral indicando minhas taxas de colesterol glóbulos brancos cálcio e-”. “Você tem razão. Assim que você receber os exames”. Beijaram-se ardentemente. Com um sorriso cúmplice ele acenou, despedindo-se, enquanto ela fechava o zíper de sua mortalha negra polietilênica e guardava seu cadáver numa gaveta refrigerada do necrotério, a fim de desacelerar o processo de putrefação.

2 comentários:

fochesatto disse...

acho tão justo quanto belo.

Daniel Liberalino disse...

Se tem selo Foch-approved, estou tranquilo. E o quadrinho?