quinta-feira, 1 de março de 2012

Ele assentiu e tornou a ver TV.
O tsunami se aproximava, contraposto a um céu coagulado.
Sentou num banco, oculto na penumbra da caixa. Resolvi deixá-lo em paz e caminhei pela beira da praia, que retrocedera para antes do bar. Se a maré aumentasse mais, a água dissolveria a duna, pensei, bebendo um gole. Basta que um fio de água passe. A corrente aumenta e aumenta e tudo se desfaz. Engraçado como as coisas desmancham. Faz pensar que o Universo é uma espécie de pastilha efervescente.
Era bom pisar na areia morna quando o resto era frio. Isaura dançava no meu campo de visão como uma borboleta bêbada. Imaginei-a nua. Sumi na direção dela e do sol.

- Você foi embora e perdeu-se no mar - disse, sentando ao lado dela e arfando.

Ela estava bonita e um pouco molhada. Refletia os fiapos de sol e seus pêlos eriçados formavam milhares de brotoejas na pele. O vento soprava forte. Lá longe, o tsunami bem mais próximo e o bar meio imerso na água. Isaura nada disse. Ficamos ali, eu bebendo e ela se perdendo no mar, que me acalmava, apesar de revolto. Eu estava gostando das cores desmaiadas, do estertor, das pernas de Isaura e tudo o mais. O fim de tarde me desmanchava devagar. Terminei a bebida, levantei e joguei a garrafa no mar. Fui caminhar nas dunas.

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