domingo, 9 de dezembro de 2012

Mais da arte interna do livro. Créditos também para Danilo Medeiros.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

terça-feira, 20 de novembro de 2012

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

À noite, com o olhar perdido na abóbada celeste, compôs para os astros distantes versos idílicos de rara beleza, entoou para a lua doces e bucólicas melodias, e quando já se masturbava para as estrelas como um puto, foi subitamente atropelado por uma frota de caminhões. Se eu ao menos tivesse visto o semáforo fechado, disse a uma das funcionárias do necrotério, com a qual conversava sobre amenidades enquanto era por ela autopsiado. Sentiram faiscar entre suas almas uma conexão especial, algo mágico na química daquela relação nascente; algo que desabrochava e expandia com o odor de formol. Havia, é certo, um quelque chose de especial na forma como o suco bilial era secretado pelo seu pâncreas em jatos quando ela o seccionava cirurgicamente com um bisturi; na forma como ela removia seu pulmão, abria nele alguns buracos e o vestia na cabeça, fingindo ser um ninja, antes de embalar o órgão dentro de um saco plástico para ser conservado no freezer. Foi então que ele tomou a decisão. “Não”, sussurrou, retendo a mão dela. “Não remova minha próstata ainda, minha doce Estagiária do Setor de Necrópsias. Ela pode ser útil. Sim. Sim, minha amada Estagiária do Setor de Necrópsias, eu quero pedi-la em casamento. Eu quero dar-lhe filhos com essa próstata, dentre outras partes do meu sistema reprodutor. Quero dar-lhe uma bela casa, um belo jardim, um depósito de suplementos alimentares com nova fórmula bioavailable que ofereçam mais proteínas utilizáveis por unidade que os produtos aquém deste padrão-referência, eu quero controlar minhas taxas de colesterol com você, comprar com você revistas trazendo 100 dicas para adicionar variedade à nossa rotina – em geral implicando danos anais – e assim reacender o fogo inicial do nosso relacionamento, quero escolher com você um creme de barbear que produza mais espuma com menos esforço; que seja menos agressivo à pele sensível de um professor universitário. Que proporcione um maior frescor pós-barba. Sim, meu pequeno rouxinol necrômano do amor, eu quero aderir com você ao programa de reciclagem e tentar postergar o colapso ecológico global e a completa aniquilação da humanidade via manufatura de bibelôs com lixo industrial, eu quero induzir com você a formação de tumores cerebrais – além de distúrbios nervosos menores – por exposição prolongada a campos eletromagnéticos de eletrodomésticos, e quero planejar com você uma viagem a algum paraíso natural intocado pelo homem, onde possamos descobrir em nós mesmos uma inesperada e profunda compreensão holística da Natureza e revela-lá aos nossos amigos no clube dos engenheiros agrônomos. Eu quero acumular com você por conseqüência de uma dieta demasiado farta, variada e inadequada aos hábitos alimentares humanos uma placa de resquícios alimentícios em putrefação no duodeno, lentamente liberando toxinas na corrente sangüínea pelo transcurso de nossas vidas. Eu quero que você esteja segurando a minha mão na sala de cirurgia quando meu câncer de testículos decorrente do hábito de deixar o controle remoto próximo às gônadas estiver prestes a ser removido após semanas de quimioterapia inútil, e eu quero ouvir com você os profissionais explicando como instalarão máquinas de glicerina para produzir nuvens etéreas quando nossa filha entrar no palco ao som de “Sail away” de Enya [parte censurada]. Eu quero ver com você na TV a terapeuta explicar que a delinqüência juvenil deve ser encarada como uma patologia, a ser tratada clinicamente. Eu quero esconder de você, dos nossos filhos e dos nossos amigos a minha coleção de DVDs desviantes que constituem um mecanismo de compensação para as baixas mas estáveis taxas de endorfina, dopamina e adrenalina resultantes de doses saturadas de entretenimento insuficiente e de emoções homeopáticas. Eu quero me tornar, com você, dependente de fontes de emoções diluídas e ideais dissolvidos em gotas anestésicas incapazes de sedar o tédio e a consciência da solidão da morte; músicas, filmes, livros, tarô, cientologia, cristianismo, Herbalife, frisbee, ginástica aquática, bungee jump, bonsais, iluminação ambiente, pubs, coquetéis, obesidade, documentários, fibras para prevenir hemorróidas, momentos mágicos, divertidos e inesquecíveis, graus moderados de radioatividade - síndrome do túbulo carpal, atuações aclamadas, dependência toxicológica de barbitúricos, suplementos alimentares - resíduos nocivos à saúde - decorações sutis doenças cardíacas diabetes e fatores de risco (como colesterol alto e hipertensão), vernissages escritores acadêmicos hashis pequenas epifanias comoções nacionais novas bactérias que adquirem tolerância a antibióticos – um novo espírito empreendedor um espírito cosmopolita de compreensão mútua – congressos internacionais fichas cadastrais, alimentos industrialmente processados formas de combater os radicais livres e prevenir o câncer de mama – acepipes; uma preocupação sincera com os problemas globais uma segurança renovada sobre seu valor pessoal, um novo espírito de equipe um novo espírito competitivo novas iniciativas novas amizades inconturbadas – um contato user-friendly com a morte plugs anais home theater rohypnol valium nicotina álcool tryptanol tianeptina, stablon, trazodona, cocaína – sexo casual, perversão, assassinato, suicídio autopromoção novos canais uma vida social ativa problemas domésticos sublimados em vendedores de telemarketing e crianças, programas de recliclagem, consciência política, anti-romantismo mas não pessimismo, efexor, rivotril, olcadil, carbolítio, viagra, anfepramona, desipramina, hormônios tireoidianos, abusos sexuais incestuosos autoamputação impulsos de violência e vandalismo reprimidos cafés literários galerias de arte museus restaurantes refinados momentos de descontração em ambientes acadêmicos formas de prevenir a menopausa – odorizadores de ambiente – cooper, animal de estimação, bebendo moderadamente – fotos no álbum de família tentativas de se manter atualizado sobre os valores da juventude, pontes de safena, autocompensação sexual, turismo, uma nova e mais sofisticada forma de encarar a vida programas sobre pesca prostitutas os velhos tempos nunca morrem festivais anuais coletâneas sutis momentos de intimidade entre amigos ou amantes mahjong camping praças de alimentação, posturas morais socialmente aceitáveis (não mais os suínos genocidas de antigamente) ufologia nostalgia xamanismo budismo pacifismo sushi bactericidas, espermicidas, parricidas. Sim, eu quero tudo isso, com você; ao seu lado. Case comigo, Estagiária do Setor de Necrópsias”. “Mas meu amor você não se está precipitando? Você nem mesmo leu o resultado do meu checkup bimestral indicando minhas taxas de colesterol glóbulos brancos cálcio e-”. “Você tem razão. Assim que você receber os exames”. Beijaram-se ardentemente. Com um sorriso cúmplice ele acenou, despedindo-se, enquanto ela fechava o zíper de sua mortalha negra polietilênica e guardava seu cadáver numa gaveta refrigerada do necrotério, a fim de desacelerar o processo de putrefação.

domingo, 11 de novembro de 2012

Essa espécie de artrópode [i.e. formigas imaginárias/histéricas] compartilha a natureza das pequenas irritações e obstáculos diários, os quais, ao longo dos anos, se acumulam na forma de um ressentimento inconfessável, que a tudo absorve. Nos casos mais recidivos, o acossado pode considerar oportuno o serviço de um dedetizador histérico. Esses também devem ser acessados por um lapso de juízo. Pessoas cujo contato com formigas histéricas e dedetizadores histéricos é prolongado, eventualmente passam a levar uma vida histérica, com esposas histéricas, carros histéricos, empregos histéricos, filhos histéricos, taxas histéricas. Se tornam pessoas histéricas, mais tênues que o vácuo. Em nada diferentes de formigas histéricas. Convertidos em formigas histéricas, sua existência também se direcionará ao prover de pequenos importunos a outros indivíduos. Talvez, solteiros de baixa renda com câncer.
(...) observo que Jairo Spindola está cada vez mais musculoso, ao longo dos últimos meses; o body building está dando resultados. Imagina-se que deva usar como halter o Grundlagen der Arithmetik de Frege. Um outro palestrante sobe ao palco; dois outros abrem no Power Point o arquivo de slides, assistidos por um clipe de papel animado na tela. O clipe ri e dança, repleto de pleno júbilo filantrópico e entusiasmo servil; seus movimentos são algoritmos em C. Essa devoção humanitária, mesmo redutível a um sistema fechado de obstruções e desobstruções de corrente no hardware, é ainda assim bastante para constituir uma conexão animal; é inegável que sinto alguma identificação humana essencial com esse clipe de papel, constato, não sem certa auto-repulsa. Estou certo de que, a despeito da hostilidade universalmente despertada por ele, fez alguns muito menos solitários, talvez evitando suicídios, em madrugadas de clareza excessiva. Isto porque, mesmo experimentando viva indignação ante traços de caráter viciosos, como os do clipe do Microsoft Office, logo tomamos o hábito de indulgenciar em nossos iguais essa sorte de falhas morais, sob a premissa de que somos ainda mais desprezíveis e ilegítimos. Eis a benignidade do remorso, essa goma adesiva das relações humanas, tornando-as mais duradouras e resistentes, como o ilustram as relações familiares.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Meu livro ("Corpúsculo num Plano") está indo para a gráfica por esses dias; fiquem de olho.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Rosemary" (tradução livre)

Ela ouve os barcos, rio abaixo
Um cão lutando para se livrar da corrente
O relógio seguir como um martelo,
Batendo os dias como pregos no esquife da juventude.

Tardinhas com amigas da sua mãe
Olhos grávidos, bochechas flácidas
Dedos túrgidos derramando o chá
Nas xícaras de antiquário

Quem é você?
Onde esteve?
Suspensa na brisa,
Assistindo ao ir e vir dos trens
De plataformas na chuva

Olhe a foto;
Sonhe com o verão passado, com os lábios
Daquele vendedor itinerante, Mr. Jim.

Ele cheirava a milagres,
A vitrais e suspiros
Você amava sua risada
Você tremeu sob o corpo dele outra vez.

Eis o que queria
Uma nova cartada na vida
Mas meu tecido é fino,
Meus pés estão no chão
E eu vejo o vento soprar outro sonho

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Harry Harlow e seus macacos.

Guia para sintetizadores analógicos de Devarahi em pdf.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Stockhausen commented: I heard the piece Aphex Twin of Richard James (sic) carefully: I think it would be very helpful if he listens to my work "Song of the Youth," which is electronic music, and a young boy's voice singing with himself. Because he would then immediately stop with all these post-African repetitions, and he would look for changing tempi and changing rhythms, and he would not allow to repeat any rhythm if it varied to some extent and if it did not have a direction in its sequence of variations.
Aphex Twin, a fan of Stockhausen, responded: "I thought he should listen to a couple of tracks of mine: 'Digeridoo', then he'd stop making abstract, random patterns you can't dance to".

Via The Wire, Karlheinz Stockhausen: Advice To Clever Children.

Fiquem com Pixies para lógicos. Aquele abs.

H(x) = x is gone to heaven
M(x) = x is a monkey
Teorema: |- (Devil = 6) -> (M(x) -> H(x))
Demonstração:
1. Devil = 6 [Hipótese]
2. God = Devil + 1 [Axioma da Aritmética Deísta]
3. God = 7 [1,2, modus ponens]
4. M(x) [Hipótese]
5. H(x) [3, 4, por Rima]
6. (Devil = 6) -> (M(x) -> H(x)) [1, 4, 5, Introdução da Implicação]

quinta-feira, 19 de julho de 2012

     Aos que tentaram baixar meu livro e não conseguiram, minhas desculpas; o link está inválido. A razão majoritária para o desleixo é que eu não me importo, mas além disso, estou editando alguns textos, e adicionando outros; postarei a nova edição do livro tão logo, ou não revoltantemente depois, que concluir o serviço.
Não desista, fiel leitor; minhas impressões inconfessáveis, congeladas em frios caracteres digitais, precisam sequiosamente dos seus encéfalos como habitat para se proliferar e fingir ludibriar a finitude. Não as deixe definhar naquele lugar frio. Tão frio.

     Att.,
     D.

domingo, 1 de julho de 2012

quinta-feira, 19 de abril de 2012



Notar como, ao selecionar criteriosamente um papel que causa reflexos, o autor fode o desenho quando escaneado. Ele planeja todavia abdicar de seus princípios, comprando papéis opacos em breve.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

terça-feira, 20 de março de 2012

sábado, 17 de março de 2012

À noite, vou jantar na praça de convivência, no centro da cidade. Saindo de lá, compro algo para beber numa loja de conveniência. Sento num banco do estacionamento. Fico bebendo e assistindo ao vaivém no posto de gasolina.
Quando chego ao terminal, o lugar está quase deserto. Algumas poucas figuras espectrais aguardam os últimos ônibus da noite, sentadas em bancos de cimento, recostadas às paredes fuliginosas, sob a luz opaca das lâmpadas. Creio reconhecer vagamente um ou outro rosto – a fauna típica; logo os esquecerei. Também sou um desses rostos vagamente reconhecíveis, me ocorre. A condição endêmica de voyeur, conatural à civilização; como ser um fantasma, em certo sentido, um vagar fastidioso entre figuras incomunicáveis, sobre as quais não se tem real curiosidade. Passo um bom tempo esperando o ônibus, adormecendo às vezes. Sou acordado pelo sujeito do guichê. Passa da uma hora da madrugada; ele me informa que o terminal foi fechado. De fato, observo, não há ninguém ali. Saio, ainda bêbado, e pego um táxi.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ele assentiu e tornou a ver TV.
O tsunami se aproximava, contraposto a um céu coagulado.
Sentou num banco, oculto na penumbra da caixa. Resolvi deixá-lo em paz e caminhei pela beira da praia, que retrocedera para antes do bar. Se a maré aumentasse mais, a água dissolveria a duna, pensei, bebendo um gole. Basta que um fio de água passe. A corrente aumenta e aumenta e tudo se desfaz. Engraçado como as coisas desmancham. Faz pensar que o Universo é uma espécie de pastilha efervescente.
Era bom pisar na areia morna quando o resto era frio. Isaura dançava no meu campo de visão como uma borboleta bêbada. Imaginei-a nua. Sumi na direção dela e do sol.

- Você foi embora e perdeu-se no mar - disse, sentando ao lado dela e arfando.

Ela estava bonita e um pouco molhada. Refletia os fiapos de sol e seus pêlos eriçados formavam milhares de brotoejas na pele. O vento soprava forte. Lá longe, o tsunami bem mais próximo e o bar meio imerso na água. Isaura nada disse. Ficamos ali, eu bebendo e ela se perdendo no mar, que me acalmava, apesar de revolto. Eu estava gostando das cores desmaiadas, do estertor, das pernas de Isaura e tudo o mais. O fim de tarde me desmanchava devagar. Terminei a bebida, levantei e joguei a garrafa no mar. Fui caminhar nas dunas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Nota 4. Acerca das hienas.

A ficção coletiva é o único idioma do jogo humano; assim, a autonegação é não só parte do jogo, mas sua única linguagem. A maioria usará o idioma referido, embora poucos se encaixem ergonomicamente no jogo. Os que falam tal idioma não falam realmente - o jogo está falando. O realismo (bleakness), o rigor e a resignação* ao jogo [e não à sua negação, isto é, à sua regra fundamental interna] são a forma mais abrangente de retaliação. Não conduz à liberdade, mas é ainda um espernear; não há outras possibilidades além desta. O jogo deverá vencer necessariamente - é impossível, para uma peça, subjugar o jogo. "Vencer" só é (infimamente) possível dentro das regras do jogo; isto é, abicando da retaliação e adotando seu idioma. Dada esta possibilidade remota de vitória, todos apostarão na mesma, e quase todos perderão. Terão atravessado a existência como voyeurs, mimetizando o melhor possível, mediante caricaturas disponíveis (cômicas e grotescas), a língua e trejeitos da minoria ergonômica ao jogo - um pouco como hienas aguardando a carniça.

* Mais preciso seria dizer "meta-resignação", ou "resignação de segunda ordem".

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Da revolta do Sr. Frota, e seus motivos.

Manifesto aqui minha cumplicidade para com FROTA, A., dado que, de uns tempos para cá, algumas línguas viciosas têm revolvido sobre o eixo de seu pensamento, encabeçado e cristalizado no Axioma Frotiano (FROTA, A. 2002). Acusam-no de esposar a posição contrária à sua doutrina, vertendo-a de ponta-cabeça, ou talvez de costas, quanto é ainda incerto, mas em geral retrocedendo e indo de encontro com a mesma. A tais almas desingênuas escapa que o sólido e severo erigir-se de uma doutrina cresce dialeticamente, no vaivém dos fundamentos de um pensador, e recorrentes deslizes dos mesmos são de pouca monta, nada demonstrando senão o firme despontar da agudeza crescente de uma cabeça fresca e jovem, ainda turgescente de dúvidas hamletianas.