quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Estou escrevendo alguns textos para o site Outros Críticos; este abaixo é um deles. Concedam-lhes a visita: lá o texto vem com itálicos. Há também outros colaboradores, todos diplomados e jovens como eu, falando sobre literatura, cinema, música e filosofia.

Comic books

Era o interior friorento de São Paulo, durante o mestrado, e eu costumava desenhar lugares da cidade. Utilizava papéis avulsos, em geral. Esbocei o terminal rodoviário, esperando um ônibus para casa, perto da meia-noite; um semáforo no meio-fio, domigo à tarde, sentado na calçada de uma floricultura fechada; um orelhão na calçada; uma velha adiposa de mini-saia num shopping center, observando uma vitrine fechada, com bijuteria esotérica nas prateleiras, destinada a consolar, espiritualmente, o público alvo das meio-idosas na menopausa, deficitárias em fé cristã. Havia o esboço de uma alameda do bairro, margeada por um centro hospitalar, cercado por uma rede, bufonescamente, sob as janelas, para desacelerar a queda de médicos, internos e estagiários. Bosques, um posto de gasolina; coisas do tipo. É uma atividade plenamente satisfatória, substituindo uma vida amorosa, ou solitária, conquanto penhe em desafios, como a dos indie folkers não-caucasianos, clubbers agoráfobos, psicopedagogas sexualmente ativas, feministas ovulantes e tv hosts intuicionistas browerianos. Insto-o, enfaticamente, a experimentar por si, leitor divorciado.
Os traços eram quadrinescos; simplistas. Talvez o estilo me interessasse – conjeturo, agora que alguns anos transcorreram, implacáveis, somando, ao todo, um ou dois dias ordinários da vida de alguém – porque as linhas elementares e iconográficas nos comic books representem o mundo mais ordenado e, ipso facto, mais acolhedor; como o abraço de um ex-colega de trabalho, quando jazemos numa cama de hospital, contemplando a marcha da velhice, ou o gracejo paternal de um urólogo. Nesse sentido, e tal como os álbuns de fotografia, graphic novels são um rolé fundamentalmente mórbido: pois que não ensejam reagir, futilmente, ao devir; ao consumir-se das coisas, para ourivesá-las num presente imóvel – aquele da imagem? De modo ostensivo, não é esta a ambição mais resfolegante da arte: talhar; incrustar, no diamante inconstante do tempo, uma chuva imóvel?
Claro; só uma espécie obsedada com morte e degeneração poderia produzir beleza; por mera auto-negação. Os anjos tocam musak e escrevem guias de turismo. Falta-lhes a motivação candente e imperiosa; o desconforto do macaco senciente, corrupto. Falta-lhes, enfim, um cu na extremidade dos intestinos.
Havia, eu dizia, uma qualidade distinta, reconfortante no estilo quadrinesco, como a suspensão estática nos cenários de Edward Hopper, que me impelia a transpor para tal registro fragmentos desoladores da cidade. Diversamente, para a maioria (estimo), é o minimalismo que condena à vulgaridade a “nona arte”. Seria a isto que se referia Chris Ware, ao imputá-la como rasteira, a mídia quadrinística? Com efeito, imagens esmeradas demais represam o fluxo da narrativa. Em “Marvels” de Alex Ross, por instância, vemos não uma graphic novel, senão uma galeria de imagens super-trabalhadas, retratando fisioculturistas de cueca, consoante à tradição homoerótica, glandular dos gibis para adolescetes celibatários, hoje assimilada por Hollywood, conforme reclama o triste, seboso zeitgeist dos 00 e 10. Em contraponto, o minimalismo congenial inclina o comic book à caricatura; quanto o atesta a eterna popularidade dos cartuns. Mas não é, justamente, a simplicidade ockhamiana, e assim a elegância, a gramática universal da arte? A um turno, sua alma e o seu corpo?
Similarmente, anseiam os machos que o corpo da fêmea desenhe, e renda tangível, o simples, o suave, o ordenado; em última instância, ausentes na textura e estrutura assimétricas da vida e, em particular, na aridez masculina. Somos consumidores insaciáveis da ficção da ordem, o bem em torno do qual orbitam os sistemas econômicos, as angústias e as picas. Tornando ao berço de seios femininos, protegem-se, os pobres chimpanzés, da verdade e do devir; da indiferença das leis do mundo à presença do homem – um arranjo dispensável, em quanto os concerne. De modo análogo, e leva após leva, penduram-se às tetas briosas da arte; leitões famintos por estética. Quando estofados os estômagos; a febre reduzida aos 37 graus; quando, enfim, a atrocidade cessa de nos entreter, o mundo se torna banal, e algo deve rendê-lo habitável.
Há mais darwinistas em Beberibe que comics artisticamente relevantes no mundo, é notório; de resto, ainda é um formato menos viciado e autoconsciente, quando não usado para escoamento do subconsciente testicular da puberdade (Alan Moore continua meio chibata). Me interessa mais que cinema, embora não tanto pelo ineditismo de possibilidades expressivas: polarmente distante do internalismo da literatura, que nega o mundo, o cinema é sensualista e passivo; não escapa fácil ao realismo; o comic book, meio literário e meio cinematográfico, guarda genes dos dois mundos. É um formato um melancólico, afinal; pense em todos esses gibis esperançosos de super-heróis durante a guerra. Redesenhar a vida é um propósito meio deprimente. E é isso, meu rei.

4 comentários:

fochesatto disse...

quantos decibéis de espontaneidade!

Thiago Coser disse...

Obrigado Daniel, por seus textos tão intrincados. Li este ouvindo sua musica Sky was all light, muito boa também. Cheers!

Daniel Liberalino disse...

Glad you liked it, mate; são meio bitchy de ler às vezes, é verdade. Foto legal por sinal. Cheerios

Augusto disse...

O texto me lembrou desse blog de um outro amigo quadrinista:

http://gibicriticism.blogspot.com.br/

é uma pesquisa interessante que ele publica lá.