domingo, 26 de setembro de 2010

Num trecho do Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, o superior de Montag atira livros numa pilha, enquanto diz algo nessa linha: "Claro que eles (os autores) começam a escrever com boas intenções. Mas após as primeiras experiências, é vaidade". É difícil não simpatizar com o chefe de Montag e suas razões, claras como ouro, para extinguir a cultura e a memória humana. Entretanto, me ocorre, são os autores, não o leitores, os verdadeiros otários na barganha artística; os verdadeiros tapeados. Um autor aprende a contornar certas indulgências, na medida em que estas o impedem de registrar, em seu livrinho, aquelas sarnas secretas e cumulativas, socialmente incomunicáveis, que não cessarão de coçar. Nesse sentido, a literatura é como um supositório para o alívio sintomático da oxiurose; serve, em essência, para calar pequenos vermes solipsistas germinados na ambivalência do espírito do homem, o proverbial misantropo semi-sincero que, alas, precisa se enturmar ou trumbicar, consoante o estabelecido por Chacrinha. Nesse cenário, a vaidade ordinária dos autores, embora em geral hiperbólica à dimensão do grotesco, não costuma interferir na ambição estética maior de uma obra - resultante de uma vaidade proporcionalmente maior -, infligindo, em consequência, um mal menor ao leitor, que deve receber apenas o produto final, limpo e justo. Um fátuo advil gotas para seu próprio solipsismo, sua própria oxiurose. Por outro lado, o autor deverá lidar com a culpa, multi-espelhada, do narcisismo, não raro sendo a mesma uma encenação narcisística, alimentando ciclos mise en abyme de auto-acusação e megalomania; um chiqueiro moral é o que temos aqui, rapazes. Ver a própria alma nunca foi, é notório, para os fracos de estômago. Finalmente, esse peristaltismo de frustrações inamovíveis, auto-obcecadas e auto-depreciativas redunda inútil: para o autor, nenhuma de suas mensagens em garrafas, ardentemente expelidas, será efetivamente respondida; seu solipsismo apenas aumenta frente à futilidade da comunicação, o ridículo balbucio sisífico, tomando consciência de si mesmo, à medida em que é rigorosamente registrado, e cada vez mais clara fica sua extensão e seu inescapável.

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