sexta-feira, 21 de maio de 2010

Evidenciando um mecanismo quaternário



A vida pode ser examinada conforme quatro categorias: o jogo, os interesses, o grau de organização e o valor da vida. (Estão, é claro, relacionadas).

O grau de organização diz respeito à compreensão, ou mais precisamente estetização, do mundo. A estetização pode ser do presente ou do futuro (a qual denominamos projeção), ou ambos.

Há dois tipos de jogo, o institucional e o natural (geralmente subsumido à atração), nunca separados. O jogo é então definido como a relação emergente entre ambos: por um lado, como emergência coletiva – histórica e geográfica – de instituições oficiais ou tácitas, motivadas bottom-top pelo jogo natural das turbas; por outro lado, como “submergência” coletiva de instituições no comportamento animal humano (os jogos naturais), motivando top-bottom o jogo da turba.

Os interesses são (i) pessoais ou sociais (critério qualitativo). Ambos os casos dividem-se, um a um, em (ii) entusiásticos ou coercivos (critério motivacional)*. O entusiasmo é proporcional à estetização, e maior na estetização do presente.

O interesse pessoal motivado por entusiasmo é aquele da infância.
O interesse social motivado por entusiasmo é aquele da adolescência.
Nos interesses sociais e pessoais motivados por coerção enquadram-se aqueles da vida adulta. A coerção é definida como o imperativo do jogo.

Assim, infância, adolescência e maturidade devem ser definidos em termos de interesse.

O valor da vida é proporcional ao entusiasmo (pessoal ou social) e à compreensão/ estetização. Neste último caso, é maior na estetização do presente, e menor na estetização do futuro.

Examinemos em minúcia a relação entre as categorias básicas acima, suas subcategorias e suas implicações.

Inicialmente, na infância, em virtude do entusiasmo natural e da ignorância respectiva ao mecanismo do jogo social, o interesse pessoal predomina, manifestando-se como um amor pelo mundo (entusiasmo).

Na adolescência, o instinto social – alimentado por necessidade de afeto e aceitação (isto é, por temor aos efeitos brutais do isolar-se da turba) – impulsiona o homem a um novo tipo de entusiasmo: o entusiasmo social, que se expande pelas novas situações surgidas das novas necessidades. O interesse pessoal é reinterpretado, passando a existir como um modo do interesse social; assim, como um tipo de interesse social.

Os dois casos acima – infância e adolescência – podem apresentar os graus máximos de estetização, ou compreensão, e portanto são incompatíveis com o jogo, cujas regras, embora passíveis de alguma sistematização – conquanto apenas vagos pontos familiares na névoa –, são existencialmente, ou humanamente, a-estéticas e incompreensíveis. Entretanto, o segundo modo de estetização, o da adolescência, é progressivamente menos relacionado ao presente, e mais relacionado à projeção de um futuro brilhante. Aqui, o entusiasmo já tende a diminuir com a inverossimilhança da estética ao presente.

Na maturidade, o entusiasmo pessoal e o entusiasmo social fenecem ante as proporções do jogo, tanto geográficas quanto históricas, tanto naturais quanto institucionais; tal dimensão, não menos que monstruosa, implica a prioridade colossal e inelutável do jogo, em prejuízo de qualquer pequeno entusiasmo, pessoal ou social. O interesse, portanto, passa a ser meramente coercivo, na idade adulta. A aceitação do jogo implica uma série de submissões a regras institucionais e naturais da turba, isto é, um distanciamento das motivações do entusiasmo pessoal e social (positivos), e o recrudescimento das motivações coercivas. O quadro geral se desdobra na forma de um espectro que vai do tédio às pequenas irritações e desapontamentos diários, decorrentes da ausência de interesse positivo, e do aumento de interesses negativos/coercivos. Tal quadro, de pequenos desapontamentos e pequenos desconfortos, é distribuído aleatoriamente, e não obedece à organização da natureza humana (estética), senão a uma ordem artificial (o “vazio”, ou a “morte”; o “inumano”). É claro, também o jogo subjacente a tal (digamos assim) “quadro a-estético de reações humanas ao vazio” é a-estético. Portanto, o quadro geral – que combina o jogo inumano e as reações humanas ao jogo – é incompreensível**. Donde que o valor da vida, medido em compreensão/estética e entusiasmo, tende ao zero.

Todavia, a continuidade da vida quase independe de seu valor, e o homem quase sempre persiste. Para tanto contribuem os resíduos de projeções adolescentes; a inércia ou momentum próprio da vida entre instituições e jogos naturais; a falsa impressão de estética ou organização de uma rotina artificial, que substitui porcamente a estética natural; e a própria constituição do homem, forjada para resistir a um ambiente atroz.

É verdade que, em épocas mais hostis, ainda se recorria ao bálsamo da organização mitológica do mundo, o que não é possível hoje; mas, conforme dito anteriormente, embora o homem não seja talhado para resistir à vida a-estética, pode encontrar substitutos, paliativos para esse vazio de organização; tal como pode encontrar paliativos para a ausência geral de entusiasmo ou humanidade.


* Faça-se notar que, no caso (ii), o interesse é divido conforme as motivações se apresentem positivas ou negativas. Note-se outrossim que os critérios motivacionais são de segunda ordem, isto é, são motivações de motivações; interesses do interesse.
** Parte da ininteligibilidade advém do paradoxo da inumanidade do jogo vis-à-vis humanidade dos jogadores. Tal se deve, em parte, ao paradoxo mais fundamental da coletividade e individualidade simultâneas no homem: a aparente ordem do jogo coletivo (i.e. institucional ou natural) é sempre inverossímil do ponto de vista individual**', e apenas faz sentido (ou seja, é estética) partindo de um referencial externo ao jogo - logo, um referencial inacessível ao homem. Pois este jamais está fora do jogo, senão muito parcialmente, uma vez que apresenta a natureza inescapável do jogo (dos interesses coletivos coercivos) imbricada nos genes. Assim, a aparência ordenada do jogo é forjada hipoteticamente, a partir desse referencial externo imaginário e artificial.
**' Essa ordem é inverossímil - e portanto a-estética - deste ponto de vista porque não condiz com os interesses/necessidades pessoais e sociais do indivíduo. Por exemplo, o interesse e necessidade de um satiríaco é foder sem parar todas as mulheres com as quais venha a tomar contato; a estética artificial do jogo, por seu turno, age em direção oposta a essa realidade individual, sendo desse modo inverossímil, nula de conteúdo; pouco mais que um construto formal. Há um senso geral de frustração, induzido pela heterogeneidade entre o mundo coletivo irreal e a realidade das necessidades humanas individuais (i.e. pessoais ou sociais); pela obrigação de viver a maturidade num mundo irreal.