terça-feira, 16 de março de 2010

Formigas histéricas



As formigas imaginárias – ou “formigas histéricas” – aparecem com maior renitência após as 2:14 da madrugada, às vezes transmutando em migalhas de alimento, outras desaparecendo no ar. Não é claro para onde vão, ou o que fazem, quando não há ninguém para vê-las; sua existência, tênue e vacilante como uma cintilação em águas inquietas, depende dessas almas acossadas; estatisticamente solteiros, de baixa renda e insones, propensos ao câncer e a distúrbios conjugais. A hostilidade das formigas histéricas a esse perfil humano é ainda de causa incerta.
Formigas histéricas não amanhecem mortas nos potes de mel, ou nos copos de suco, deixados lá no dia ou no mês anterior. Constituídas de devaneio e desatenção, são ontologicamente mais rarefeitas que o vácuo. Não caminham a esmo na ponta do dedo de alguém.
Essa espécie de artrópode compartilha a natureza das pequenas irritações e obstáculos diários, os quais, ao longo dos anos, se acumulam na forma de um ressentimento inconfessável, que a tudo absorve. Nos casos mais recidivos, o acossado pode considerar oportuno o serviço de um dedetizador histérico.
Esses também devem ser acessados por um lapso de juízo. Pessoas cujo contato com formigas histéricas e dedetizadores histéricos é prolongado, eventualmente passam a levar uma vida histérica, com esposas histéricas, carros histéricos, empregos histéricos, filhos histéricos, taxas histéricas. Se tornam pessoas histéricas, mais tênues que o vácuo. Em nada diferentes de formigas histéricas.
Convertidos em formigas histéricas, sua existência também se direcionará ao prover de pequenos importunos a outros indivíduos. Talvez, solteiros de baixa renda com câncer.

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