terça-feira, 16 de março de 2010

Formigas histéricas



As formigas imaginárias – ou “formigas histéricas” – aparecem com maior renitência após as 2:14 da madrugada, às vezes transmutando em migalhas de alimento, outras desaparecendo no ar. Não é claro para onde vão, ou o que fazem, quando não há ninguém para vê-las; sua existência, tênue e vacilante como uma cintilação em águas inquietas, depende dessas almas acossadas; estatisticamente solteiros, de baixa renda e insones, propensos ao câncer e a distúrbios conjugais. A hostilidade das formigas histéricas a esse perfil humano é ainda de causa incerta.
Formigas histéricas não amanhecem mortas nos potes de mel, ou nos copos de suco, deixados lá no dia ou no mês anterior. Constituídas de devaneio e desatenção, são ontologicamente mais rarefeitas que o vácuo. Não caminham a esmo na ponta do dedo de alguém.
Essa espécie de artrópode compartilha a natureza das pequenas irritações e obstáculos diários, os quais, ao longo dos anos, se acumulam na forma de um ressentimento inconfessável, que a tudo absorve. Nos casos mais recidivos, o acossado pode considerar oportuno o serviço de um dedetizador histérico.
Esses também devem ser acessados por um lapso de juízo. Pessoas cujo contato com formigas histéricas e dedetizadores histéricos é prolongado, eventualmente passam a levar uma vida histérica, com esposas histéricas, carros histéricos, empregos histéricos, filhos histéricos, taxas histéricas. Se tornam pessoas histéricas, mais tênues que o vácuo. Em nada diferentes de formigas histéricas.
Convertidos em formigas histéricas, sua existência também se direcionará ao prover de pequenos importunos a outros indivíduos. Talvez, solteiros de baixa renda com câncer.

quinta-feira, 11 de março de 2010

;D











Shitty paint cut ups or what.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Fragmentos

Trechos de coisas que vinha escrevendo em 2009, na surdina. Nos meus sonhos autorais mais tórridos, criariam uma expectativa:

“Cristina dorme ao meu lado, na cama; deve sonhar com fragmentos do dia, flutuando na correnteza de instintos básicos. É uma esposa; que improvável. Olho para ela, satisfeito com esse fato. É mesmo um animal sobre meus lençóis, eu realmente sou parte do esquema da natureza, com suas interações entre bestas. Às vezes, me surpreende que eu seja capaz de tanto. Capaz, enfim, de realizar e experimentar fatos naturais biológicos. O corpo está imóvel na penumbra, vulnerável, nessa posição de dormir que deve ser a mesma desde a infância. Toco a bunda quente, escorregando a mão por dentro da calcinha. Os pêlos e o período fértil; as mamas e as glândulas. Sua buceta parece tão infantil, exalando calor e odor como uma confidência de fragilidade, necessidade de comunhão; sinto um desapontamento indeterminado, a intuição de um engodo. Sempre se resumiu a um exercício de futilidade, digo a mim mesmo. Enfim, outra impressão transitória, na verdade inócua. Fico ouvindo a respiração de Cristina, cujos dedos antes envolviam meu cacete; o som de buzinas e sapos pela janela, bosta sentimental tocando à distância. O que ocorre agora na cabeça dela? Medo da perda? Medo de uma alteridade hostil? Luxúria, propensões hierárquicas? O zumbido plano, de tremor constante do ventilador no canto do quarto. Nada de sono, vou acabar procurando seriados na TV a cabo. Encaixo a nádega direita de Cristina dentro da minha mão. Seria agradável desaparecer, abandonar e apagar as conexões intricadas que formam a malha da vida. A felicidade aponta para a simplificação; câncer de testículo é um excesso de complexidade. Eis o problema com tudo isso, nada mais complexo que Tetris poderia ser tolerável.”



*



“Enquanto saio, o fluxo verborréico persiste, ecoando pelas paredes brancas do banheiro. As ondas de som se sobrepõem, quicando no plástico dos calefadores, nas lâmpadas fosforescentes; embaralhando e abafando o sentido das palavras, até que soam homogeneamente vácuas. Um fluxo de signos infame e vazio, irritante, preechendo a atmosfera com um senso de decepção e baixeza. Análogo ao monóxido de carbono, espalhando devagar entre paredes de um avião. Gostaria de poder gritar alguma coisa ofensiva, batendo sua cabeça no mármore escuro, repetidamente. Pedacinhos de encéfalo espargiriam no piso reluzente. Creio que não seria mau pisar neles, misturando e desmanchando as conexões sinápticas; formando papinhas.”



*



De um livro que não terminei de escrever:

“Uma vez confundidos com elefantes (porque não existe diferença visível entre eles e nós), teríamos um fim trágico – são devorados ainda vivos. Mesmo que sob o efeito anestésico da dor, que os deixa indiferentes ou até vagamente felizes; os sorrisos na sopa indicam. A noite era a terra dos caçadores, dizia-se, das silhuetas bêbadas e suas putas; falavam alto e riam, espalhados ao redor de um velho Chevete, que estacionavam num bar sob um poste de luz; você ouvia o zumbido da caixa de fiação fazendo buracos espiralados no ar gelado, cheio de umidade. Nós saímos andando na penumbra do fim de tarde, que escurecia a areia, ainda morna entre os dedos do pé, os grãos encravando nas unhas; avançávamos sem falar muito. Conhecidos quase sempre nos inspiravam um desinteresse natural; começamos a nos reconhecer neles. Os gêmeos sandálias tomaram o percurso de suas respectivas casas, onde fantasiariam com colos e úberes de fêmeas anônimas, dispostas a oferecer imundície doce, que entretanto não torna menos desértica a areia, pacientemente mastigada, e eu prossegui com Belinda até ela deitar na estrada e dormir, sobre a estrada de barro. Muitas vezes tentei convencê-la a deixar de fazer isso, em vistas dos caçadores e dos estupradores, mas sabia ser inútil. Belinda só podia dormir ali, entre pedras e entre besouros, que sondavam a área com olhos escuros em busca de esterco quente, recém-processado; sonhariam com cus, ou não sonhariam nada. Alguns se aninhavam nas pernas dela, ou na superfície da buceta, entre a pelugem escura, protegidos pelo calor de um dormitório temporário. Sugavam o sangue em silêncio, sem lembrar as casas que abandonaram; suas barrigas enchiam, como algoritmos.”



“A etologia dos trens está crescendo rápido em nós, eu dizia; um dia viveremos numa sociedade de trens, com preocupações de trens, sonhos de trens e idéias de trens; assim será um dia luminoso, mas o medo de que nos descubram sob esse disfarce pode nos consumir rápido; não pense nisso agora. (...) Esses gritos atávicos dos velhos embates, precipitados em cascalho quente; é diretamente constatável e uma questão de natureza: as tribos (nossas tribos) transmutam em cascalho quente, como o movimento transmuta em calor; não há um inimigo, trata-se de ficção. A carne dos familiares pode ser repartida, os legistas rosnam e se atracam, como se posicionados ex machina, sem indicar um alvo passível de julgamento. Sim, penduramos a carne para secar no varal; registrada se for o interesse público. A maior parte não precisa ser (registrada) – e afinal, o que é carne? E o que é carne registrada? Certamente carne, mas pendure seus papéis no açougue; uma sensação morna de condolência anônima possibilita a sobrevivência. Encalhadas em nossas cabeças secas, seguindo um código; o bife balança seco no varal – estamos famintos e contamos anedotas.”



“O movimento é reencenado pelo resto da noite, os sonhos banhados na areia da costa entre as ostras. As águas-vivas e os moluscos, lentamente arrastados com eles.”



“Há pacientes sentados no hospital-creche, logo em frente; são de modo geral feios, desbotados, de expressão submissa. É o perfil dos acometidos por doenças humilhantes, penso, como câncer no cu, elefantíase escrotal etc. Ao longo da história do homem, muitos morreram de enfermidades semelhantes; é quase possível ouvir suas vozes, o coro das almas torturadas pela infecção urinária, vindo do passado, como um murmúrio, um burburinho”.

Seen and not seen

He would see faces in movies, on T.V., in magazines, and in books....
He thought that some of these faces might be right for him....And
through the years, by keeping an ideal facial structure fixed in his
mind....Or somewhere in the back of his mind...
That he might, by
force of will, cause his face to approach those of his ideal....The
change would be very subtle....It might take ten years or so....
Gradually his face would change its' shape....A more hooked nose...
Wider, thinner lips....Beady eyes....A larger forehead.

He imagined that this was an ability he shared with most other
people....They had also molded their faces according to some
ideal....Maybe they imagined that their new face would better
suit their personality....Or maybe they imagined that their
personality would be forced to change to fit the new appear-
ance....This is why first impressions are often correct...
Although some people might have made mistakes....They may have
arrived at an appearance that bears no relationship to them....
They may have picked an ideal appearance based on some childish
whim, or momentary impulse....Some may have gotten half-way
there, and then changed their minds.

He wonders if he too might have made a similar mistake.

(D. Byrne)