segunda-feira, 23 de março de 2009

Nota estilística




Alguns leitores expressaram visões conflitantes, atinentes aos textos encontrados neste certame. Sempre disposto a mitigar rastros de obscurantismo, o autor se presta a esclarecer o leitmotif que dirige sua atividade criadora.

O primeiro passo compreende a desestruturação do seio familiar, visando uma personalidade fragmentária, pervertida e vil – insuficientes abusos familiares na infância não farão o trabalho. Para tanto, o autor perfez com êxito o total de complexos edipianos descritos na literatura psicanalítica, mantendo relações incestuosas brutais com as gerações vivas ou não inteiramente decompostas da família. O aspirante estará pronto para a próxima etapa quando surgirem as primeiras acusações de homicídio – neste caso, anote “OK” em sua cartela. Além deste ponto, é bastante seguir conspirando tramas doentias em porões. Recentemente, após seu florescimento artístico completo, uma sessão típica de criação com este grave homme de lettres figurará o mesmo sentado nos restos exumados de sua mãe, uma pilha de alucinógenos ao lado do laptop, digitando descontrolado enquanto grita “Fluxo de consciência” repetidamente. O texto refletirá com rigorosa acuidade a personalidade fragmentária do auteur, sobretudo seus gostos, impulsos secretos incontroláveis e dados autobiográficos repugnantes. As obras resultantes podem ser caracterizadas como descrições precisas de suas férias mais recentes, ou como planos para as próximas férias. O autor aprova moralmente todo o registrado na obra, em geral avesso ou inepto a qualquer forma de expressão indireta, como ironia, ficção ou poesia. Uma típica sessão de perguntas respectivas às motivações literárias do referido escritor obterá como resposta alguma variação de “Mim cocô calça”.

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