sábado, 27 de setembro de 2008

Juventude - I





Possuídos pelo espírito de Kropotkin bebês hipervitaminados dizimam suas famílias na sala-de-estar. Chore pelos Budas hipertensos, suas próstatas hipertrofiadas na placidez bovino-inseminativa da costa, cutucam as glândulas mutuamente para refrear o recrudescimento contínuo numa aceleração vertiginosa alcançando massa transfinita - a próstata universal leibniziana, causa sui ocupando a totalidade do espaço-tempo, colapsando por fim a realidade em um único buraco negro, nos bastidores o carismático entertainer Bozo espanca alcoolizado a célebre atriz da golden era Judy Garland – hit me baby one more time [risos e aplausos], estava então no auge da velhice quando aos 23 entrou intoxicada e sórdida procurando por emprego, o performancer lhe faz promessas de produtor aperta aquele traseirinho clássico como uma bela e abençoada sonata pontificial, tem planos para a eterna Dorothy; mais tarde interrompe o número de malabarismo descendo do palco devorando as cabeças histericamente entretidas de 74 crianças – "Eu tive uma mãe castradora", grita o showman imerso em sangue inocente; é surpreendido por uma chuva de dardos tranquilizantes disparados pela equipe da Taiwan Thunder Squad descendo de helicópteros reluzentes, soldados dependurados do teto desenvolvendo graus extremos de cumplicidade filantrópica genuína, etc. – realmente aborrecido, chega a noite e estou relaxando untado em loções corporais coletadas nos picos vulcânicos do Ararat detentoras de raras propriedades terapêuticas, ponho a cabeça da minha avó no microondas que explode disparando o apêndice vão da meretriz ignominiosa como uma bala atravessando continentes pulverizando o Empire State Building boom, a grande tragédia do século; não pôde ser evitada; o dia fatídico oprime nossas almas, o apêndice apocalíptico trouxe consigo uma era de insegurança e terror – ainda brincávamos no jardim então, veneno espalhado pelos C.E.M., atrofiando a capacidade de conexões interpessoais autênticas num raio de 1000 parsecs, cansa-nos rapidamente a mesquinhez dos néscios em procissão agora equacionada num horizonte previsível de eventos e risco controlável; fatura-se alto sobre a nanometria do dia, belo dia cheio de sol, os mais íntegros como eu acabam se lambuzando também. Tudo pelo que se viveria termina por definhar em presença da peste sutil. O lastro da infâmia conquistara minha atenção, le petit déjeuner dominical nulificado, um carisma infinito; desvelo as nádegas encantado.
Spock, deixe o garçom ineficiente de um famoso restaurante grã-fino viver, escrevi no bilhete - coloque os cintos, o caminhão cargueiro marca daquele vulcaniano irresistível creme de la creme tocado pelo destino atravessou célere a ponte levadiça e cortou o ar em slow motion como uma estranha bailarina Kirov a diesel, pousando exatamente sobre Pierre o garçom ineficiente. De repente, eu estava curado de toda miséria interior. O sol morria como um cristo hiperplásico diluindo na broncodilatação do ocaso, a quietude litorânea reprocessada. “Não se envergonham de ir à sua vida como a um concerto deplorável”, disse Spock acendendo um Malboro, seus poros brilhantes ao poente. Um projeto assinado e 99% das vezes arquivado. Veja essas hordas de almas definhadas, sucumbidas sobre si mesmas, olhe bem garoto. A solidão é um problema maior para os estúpidos. A amargura é quase sempre reduto da estupidez. Somos hordas estúpidas. Tal como no teatro somente aplaudimos nos momentos errados; os insetos são esmagados na multidão. Oh, o tempo não espera por ninguém whew! take it to the limit, cante como o pássaro, o pássaro gastrítico da vida, buscando na selva pequenas provisões de bicarbonato, como o filatelista enternecedor livre na floresta correndo coletando frutas; em sua simplicidade neo-marxista cante como o filatelista, sua ereção matinal interrompida, incorpore traços evidentes de materialismo dialético, não morda mais do que pode mastigar oh granny granny show me the money!, socando-lhe o estômago, chutando os testículos do maldito filatelista que faminto a exumava, à minha avó gorila, seu inviolável kit de limpeza de baço consumido pelo devir. Eu não sabia ainda que o negócio dos selos era pouco rentável, eram tempos osbcuros; sua relação com a falecida era estritamente nutricional. Enfiei-lhe o revólver entre as têmporas vacilantes. “Você exumou o sangue do meu sangue”. Ele tremia. Como alguém que ia morrer. Era um dom premonitório divino. “Você não está propriamente vestido para uma bala na testa”. Guardei o revólver. Então retirei de volta a arma e disparei. Eu matei um filatelista, eu fui amaldiçoado por trilhar um caminho profano, meus selos jamais colarão nas cartas com saliva novamente. Eu olho no espelho e sinto que estou diminuindo a cada dia, ficando menor e menor em todos os sentidos. E à noite quando saio nessas ruas, microscópico, impelido pela sensação reincidente de que falta algo ao dia, losers insones espectrais em postos e rodoviárias superpopulando o mundo trancados nos claustros espermáticos usuais, hotéis a 20 paus a diária, lendo uma Bíblia mórmon com garrafinha de água Indaiá sobre a TV em mute. Sua impassibilidade e afinal sua indiferença regulam a digestão dia após dia, aumentando a expectativa de vida. Há tempos não dou palavra com velhos conhecidos, embora ainda lembre das velhas canções; é natural, me sinto uma parte homogênea do lugar; claro e acessível como o resto, procura-se sem muito interesse por velhos formatos tornados mais simples, transparência de procedimento etc. O café está sempre uma merda no posto. Jogo na lixeira o sucedâneo da colher - um palito plástico – e fico ali com as lâmpadas clínicas vibrando tacitamente no meio do deserto secreto que invade a cidade após as 2 am., um Saara de sachês rasgados, máquinas de café expresso, beirutes industriais e heinekens – a árida, precisa ontologia das 2 am nas lojas de conveniência, para perdedores desenganados. São as próprias sombras desinteressantes petrificando as faces, amarelas em sonho farmacológico, e ali estou eu entre eles. Oh posto de gasolina, limbo dos frustrados; pregos que não conseguiram se divertir na cidade e se bastam com o restolho de vida noturna. “Aqui jaz o detrito terminal da possibilidade”, letreiro iluminado. Você vai à loja de conveniência, encontra algum conhecido, fala alguma merda e aí cara beleza? abreviando a conversa e aquele projeto?; tal e tal. Compre suas cervejas. O senso de participar de uma comunidade global porque viu os mesmos filmes cretinos e ouviu os mesmos paus-nos-cus. Oh boy, I’m horny. Terminando o café, me abranda a curiosa vontade de quebrar semáforos em cruzamentos. Parece o mesmo dia há 3 anos, provavelmente mais, eu sei que não tenho sido bom com o meu pau, essas putas não contribuem para minha contemplação elegíaca andando por aí impunemente como entulhos semióticos, esse é o ocidente e você tem duas possibilidades: ser miserável com ele, ser miserável sem ele. Podia ouvir pelo resto da madrugada os sussurros saindo das janelas da cidade como serpentes translúcidas, brancas, cheias de segredos sórdidos, vulgares, débeis e mesquinhos, pequenas perversões, cavando buracos em si mesmos e se enterrando dentro deles; você lembra de alguns funcionários, alguns parecem familiares, vozes póstumas confusas dos velhos pastiches de intimidade despertando uma inadvertida ternura geriátrica, mas agora sou o forasteiro melífluo, porque se você já esteve lá sabe que não se ouve nada à exceção de rangidos – da cama, quando revira cafeínica na superfície áspera do sono para acordar com vagas lembranças de inquietude, como se teletransportado diariamente, até a saturação, há transparência nisso – dias escoam, não é tão mau. São como os envelopes de cobrança chegando todo dia, você não abre faz anos, se acostuma a uma felicidade modesta.
A noite seguinte chegara num micro-segundo. Nizete me perguntou se eu queria uma coisa especial, sentada no meu colo. Ela devia perguntar isso o tempo todo. Uma tática razoável. Seu público tendia a ser circunscrito a freaks sociofóbicos demais para visitar um puteiro, párias hipertensos frustrados, anos de trepadas frígidas com esposas infiéis escorregando no pepino de alpinistas sociais e enfim recorrem a profissionais para compensar, mal-disfançando os vincos tortos deixados pelo fenecimento da humanidade própria e por décadas de onanismo autoconsciente, petrificando as glandes em pequenos Atacamas tristes. A coisa começa a parecer como lamber e esfregar paredes, e eles sonham com chicotes mágicos profissionais e com línguas mágicas profissionais ressuscitando os paus exangues do Ocidente. Eu queria algo especial? Eu não sabia, o que era especial? Acaba tudo em gemidos brilhantemente encenados, não me incomodam, mas desisto logo, ela sai arrastando sua cistite, minha libido arruinada por pornografia publicitária e idealizações. Aí deixa-se a coisa para trás. Eu já estava voltando da biblioteca pela Av. 23, postes, faróis e vitrines, imaginando se Nizete pensava em alamedas, se ela gostava de pensar como eu que a 23 era uma alameda. Alameda, alameda, alameda... uma alameda sem álamos, tal como são as alamedas. Não olhei para cima, mas ali no chão tinha uma lanchonete brilhando como um satélite, e me fez lembrar a noite clara na Várzea Nova, propriedade de um amigo dos meus pais. Mudando de margem na rua quando via alguém, e logo estava passando pelo ‘córrego’, um esgoto a céu aberto que lembra um rio numa reserva natural senão pelo odor de merda e as nuvens de detergente, ou seja lá o que fosse. Parava lá quando voltava da universidade para olhar aquelas nuvens sintéticas – desde criança gosto delas – e para ouvir o arrulho da água, que me fazia pensar em regatos reais e viagens, embora eu não tivesse consciência disso na ocasião. O som do esgoto equivalia às vezes a estar com pés submersos na lagoa do acampamento onde pescávamos quando eu tinha 8 anos, um lugar com grutas e água exata, você via o leito com nitidez, os peixes comiam pedaços de pão nos dedos das pessoas. Agora eu passava pela ponte, pensando monotematicamente, olhando a espuma lá embaixo no escuro até despencar em digressões. E aí passando a pensar monotematicamente sobre as digressões. Uma das coisas que pensei é que nunca estou no presente ou no passado, mas no futuro, esperando o instante em que a vida vai começar. De modo que tenho vivido num limbo, aguardando no vestíbulo da vida; um purgatório prepóstero. Quando começa a coisa efetiva? Quando tiver feito algo capaz de redimir minha mediocridade? Quando tiver dinheiro ou reconhecimento, imagina-se. Essas coisas não acontecem, e provavelmente não são satisfatórias, e não se pode viver para sempre à sombra de um mérito passado – além disso, é mais provável que só faça sentido continuar pela expectativa de alguma coisa, um objetivo qualquer, o que inelutavelmente condenaria a humanidade ao vestíbulo - nem tão eterno, pelo menos. Me apoiei na balaustrada de concreto, ainda apreciando a rede de escoamento. Só é possível viver para suprir insatisfações e concluir na hora da morte o indesejável, que o tempo todo se esteve preterindo viver quando viver era o preterimento, congelado à frente como um redemoinho imóvel consumindo a enseada, a espera fastidiosa, mas não se pode por outro lado abandonar todos os planos – mutatis mutandis todas as insatisfações –, e portanto tudo é meio estúpido. Não tem nada de tão especial em estar vivo, dizia a mim mesmo, olhando os padrões retangulares de concreto e vidro nos prédios; é assim para toda a natureza. Eis então a melhor perspectiva possível. Senti vontade de caminhar no parapeito, como se ainda tivesse 8 anos e esses impulsos não houvessem sido sistematicamente re-ajustados, ou esvaziados de significado. Não era tão perigoso, um homem sabe se equilibrar, de fato a maior parte do que se supõe perigoso é seguro e vice-versa, portanto tudo é igualmente perigoso, ou igualmente seguro. Mas não caminhei no parapeito. Continuei o trajeto para casa e havia colegiais explodindo em hormônios dentro de roupinhas coloridas, duas delas recostadas à placa fálica na entrada de um hotel, como efemerídeos orbitando o grande oásis fálico reluzindo na noite fria e impessoal.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Lipoaspire o superego



Recebo uma ligação. É o Dr. Klaus. Marco com ele uma cirurgia para remoção do meu superego. "Aqui está", diz, balançando meu superego imerso num líquido conservante vermelho dentro de um tubinho. Era mesmo um simpático pedacinho de encéfalo. "Amarrei essa corrente para poder usar como chaveiro, se quiser". Pensei em doar para uma Instituição de Auxílio ao Genocida Desempregado, acabei deixando na estante como decoração. Encontrei o tubo vazio ao lado do indivíduo obeso de portentosa barba que dormia nu sobre meu sofá de camurça, ao lado de duas prostitutas, ao lado de várias coisas não identificáveis, ao lado de poças de vômito, na manhã seguinte a uma comemoração em minha casa. Fui até o mencionado indivíduo, caminhando sobre um tapete de coma alcoólico que agora adornava a minha casa como um bucólico pomar genital. Deveríamos sempre nos esquivar de contatos malsãos. Acordei o misterioso organismo e perguntei se ele lembrava de ter bebido o meu superego. Conforme explicou, encontrara o frasco entre as mini-garrafas de martini e absinto, então bebeu o líquido vermelho e cuspiu fora "aquele treco nojento que tava boiando lá dentro". "Aquele treco que estava boiando lá dentro", expliquei, "era o meu superego". "Vai se foder", disse, voltando a dormir. Então fui até a cozinha para organizar – pelo critério de pertinência cultural a etnias devastadas, em ordem crescente de sobreviventes – os meus bibelôs magnéticos na porta da geladeira, e vi um sapo que me encarava ali parado, no chão. Fitei por alguns minutos aquela protuberância anfíbia da realidade, dando tempo necessário para o input da retina ser aceito pelo cérebro, arquivado e processado, então devolvido com um carimbo de “RECUSADO” pelo córtex visual – e um post scriptum: “Estou indo tirar férias num spa em Puerto Rico”. Aí uma mosca pousou à frente do sapo. Este fascinante anfíbio anuro automaticamente disparou sua língua, a qual se deteve hesitante antes de alcançar a presa. Ficou congelada naquela posição.

"De que ponto de vista metafísico - presumindo que uma tal premissa poderia com efeito proceder - seria eticamente justificável o reprocessamento de nutrientes deste inseto, visando meu benefício exclusivo, todavia às custas de sua vida?", disse uma voz advinda do interior do sapo. "Ora, excluindo do conjunto de 'axiomas' de um suposto sistema ontológico quaisquer imperativos categóricos ou princípios governantes universais, restaria porventura a possibilidade de alguma forma de 'igualitarismo ético imanente' para as moscas, em que a Imanência como um todo corresponderia a um unicidade estática, não-kinética; um estado de absoluta imutabilidade platônica singularista? Isto seria contraditório com a assunção inicial de ausência de princípios universais, quando não um mero artifício ex nihilo, é claro, mas-".
"Superego, é você?", interrompi.

Levei o sapo para fazer uma endoscopia, no mesmo hospital aonde levei para fazer lavagens estomacais comigo tantas garotas, mulheres que acendem a paixão platônica em minha efêmera glande; espécimes fêmeas do homo sapiens que, como uma chama ardente, um furor replicativo, despertam-me o Clark Gable darwinístico interior.

- Minha pequena flor de lótus gastricamente desapossada, vamos àquele outro endoscópio. O endoscópio do amor.

Por um golpe de sorte, meu superego havia sido apenas parcialmente digerido. O sapo retratou-se pelo vexaminoso mal entendido, e nos afiançou que, antes de ser acidentalmente transformado em anfíbio por um professor de tai chi chuan durante uma breve experiência homossexual numa piscina térmica natural do Tschyigen Grand Hotel (Alpes Suíços), era um bem-sucedido microempresário do ramo de equipamentos para auto-imolação. Eu lhe disse “Ei, por que não deixamos isso tudo pra trás e pegamos uma sauna?”. “Eu gostaria de ir com você, meu amigo, mas a minha espécie apenas sobrevive em climas temperados, e a mais leve variação de calor faria o meu pequeno corpo explodir, ou perder todos os privilégios na divisão de bens em caso de divórcio”. Lambeu os olhos com a língua, sutilmente. “Isso seria terrível”.
Assim, esquecemos a sauna e combinamos de nos encontrar na terça, para testar os limites neurofisiológicos do isolamento, privação de sono e abuso psicológico extremos. Marcamos de ficar numa prisão em Cabul, Afeganistão, para onde iríamos disfarçados de terroristas.