quarta-feira, 19 de março de 2008

Travessuras exóticas com o pequeno Lama



A incrível hospitalidade turca era uma experiência inesquecível; assim que entrei na mansão dos Lama, um dos criados ofereceu-se para transferir o conteúdo digestivo do meu estômago para o seu, de modo que eu não tivesse qualquer esforço desnecessário digerindo minha comida. “Quando eu terminar de digerir, devolvo para que o senhor absorva os nutrientes”, disse, e abriu a boca, como um pequeno e ávido pintassilgo australiano, num documentário do Discovery Channel.
“A Patagônia foi uma experiência traumatizante para mim”, disse o Dalai Lama, superstar do Dharma, rebatendo a bola de ping-pong. “Nunca tive muito saco pra essa bobagem de diferenças culturais”, continuou. Errei a tacada. “Eu não sabia, mas todos os habitantes da Patagônia são peixes terrestres. Você sabia? Eu não sabia. Certo, até aí tudo bem. Mas eles continuavam insistindo que eu os pescasse. ‘Ei, atire uma isca! Haha’, diziam, ‘Cara, isso vai ser o máximo! OK, vai. Pode mandar!’, diziam, e você pode vir aqui e me dizer que isso é uma pequena diferença cultural, querido, mas eu digo que isso é uma completa falta de tato; de senso do ridículo”. Fiz meu décimo ponto. “Espere. Espere um momento, Dalai Lama”, disse-lhe, fechando sua boca com o indicador. “Você sabe que eu o respeito. Não só enquanto instanciação terrena da Unicidade Absoluta... mas também como um parceiro sexual passivo imunizado contra diversas enfermidades venéreas, e com uma estranha compulsão para a lavagem anal. Mas antes de continuar esse jogo, vamos estabelecer uma coisa. A mim cabe o ping. A você cabe o pong”. Embora seu talento para o pompoarismo anal tivesse cativado o mundo e mimado seu ego, Dalai, a contragosto, aceitou minhas condições estritas, e concentrou seus poderes cósmicos para controlar a propagação do som de nossas raquetes, de modo que a minha apenas fizesse ‘ping’ – e a sua, ‘pong’. Suas tentativas malograram lamentavelmente; desde que interrompera seu tratamento com a nova tecnologia da bioestimulação, aderindo à homeopatia, seus poderes vinham minguando a olhos vistos; sua unicidade com o Todo, degenerando. Há três semanas o Todo não dava um telefonema, confidenciou-me ontem aquele mundialmente renomado monge; da última vez que se viram, foi tratado como um trapo. “Quando eu esquecia de fazer o jantar, ele me batia”, confessou, incapaz de conter as lágrimas. “Calma, meu doce e travesso missionário do Dharma”, eu disse, “Não chore. Tome essa solução de botox. Irá atrofiar suas glândulas lacrimais”. Agora, seus poderes sequer bastavam para modificar a propagação sonora produzida pelo impacto da bola em nossas raquetes. Com o tempo, a cadeia de recorrência dessas pequenas desilusões induziu em sua psyché um nivelamento de expectativas a respeito do mundo, implicando uma trivialização da realidade, um ressecamento da derme e banimento em certos clubes de camping. Sua imagem pública fora irreversivelmente danificada; seu ego, completamente anulado – a nova tendência de inverno em Las Vegas.
O que ouvi meses depois foi que ele havia sido raptado pela insigne estrela do mundo simiiforme, King Kong, e levado para o topo de um sky-scraper, onde teria dito ao grande símio: “Eu concordo em iniciarmos esse relacionamento, mas apenas se você usar lubrificante”. A julgar pelo boato, vinham desfrutando uma relação estável, sem solavancos; como a iluminação difusa em um ambiente perfeitamente branco; como musak preenchendo a atmosfera – um ectoplasma distante. Spray odorizador, envenenando lentamente.
"Até que seus cartões coorporativos sejam apreendidos", disse o padre no casamento.
Quando voltei da turquia, meu traseiro internacionalmente premiado estava em todos os outdoors; os sorvetes dietéticos eram ainda melhores que os não-dietéticos; meus filhos correram em câmera lenta para me abraçar, numa nuvem branca sedativa, que fagocitava a Terra.

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