domingo, 23 de março de 2008

Técnicas de hidroponia





“Sempre me senti mais confortável submerso em líquido amniótico”, disse a Vannini, que vinha comigo no carro pela rua escura. “Realmente foi uma decisão ótima instalar essa piscina com líquido amniótico, Vannini. E eu achei super barato e prático... Você precisa comprar uma. Juro que não consigo viver sem desde que comecei a usar”. Vannini estava comendo um exemplar da Vogue com barbecue, tencionando assimilar a edição por via estomacal e não ocular – decidira transubstanciar-se numa mônada abstrata e infinita de puro fashion. A bebida acabara no banquete de inauguração da nova agência do Itaú Personality, Vannini era o gerente, eu e ele fomos então pegar mais no meu estoque particular, Pink Flag do Wire tocando no LCD – não tendo conseguido abrir a porta da minha casa, atirei a chave no asfalto gelado, por sorte Vannini trouxera uma “bebida chilena” que utilizamos para explodir a porta (basicamente atiramos a garrafa contra ela e voamos alguns metros para trás com a explosão).
“QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ BEBE?”, perquiri, mas Vannini estava obstinado em introduzir o plug dos fones de ouvido do meu Ipod no slot de saída de um cachorro, aparentemente para auscutar suas atividades gastrointestinais com fins clínicos ou – seria possível? – recreacionais. Entrei em casa e um cara saiu de trás do sofá atirando e gritando “saia daqui, seu filho de uma puta”. Balas vindo de todo lado repletas de vibrações severamente macabras – corri até Vannini, que agora estava agachado auscutando o asfalto, e expliquei que um mass murderer psicótico invadira minha casa e não poderíamos pegar portanto as bebidas até que ele fosse embora, a menos que ainda tivéssemos uma garrafa da “bebida chilena” – a qual Vannini atirou pelo buraco da explosão anterior; ótimo, Vannini, você matou uma família – disse-lhe, vendo algumas pessoas mortas na sala. Logo percebi que havia confundido aquela casa com a minha – “por isso a porta não estava abrindo”, comentei, enquanto estávamos no carro indo para a minha verdadeira casa, Vannini no celular orientando um de seus subgerentes a pesquisar tudo o que pudesse sobre técnicas de hidroponia, segundo me disse pretendia aplicá-las ao cultivo de costeletas – o Vannini é mesmo impagável, ha ha, sempre obrigando seus empregados a executar essas tarefas totalmente absurdas e colossais às 3 da madrugada, e tinha agora um outro cara em minha casa, um limpador de telefones hermafrodita que advogava um approach terrorista do ramo. Astrid Stilberg exibiu a lingerie com dinamites sob a blusa da coleção de verão da Huis Clos – ficamos maravilhados ao perceber o toque incomparável de silk organza sintético com franjas indianas e bordados de índios cherokees, com uma pitada irreverente de gabardine – e ameaçou explodir a vizinhança se o(a) impedíssemos de limpar o telefone, então pegamos as bebidas e demos no pé.
“A identidade sexual está morta”, disse Marianne Barradas, esposa de Vaninni, dentista e colunista de uma revista de culinária. A mansão deles tinha um estilo bem minimalista, tudo branco e móveis pretos com um design simples mas sofisticado, meio less is more – um charme fronzoniano, quase poético, que só podia me deixar seriamente apaixonado. Enquanto bebia uma taça de Benedictine e conversava com Marianne sobre aquela gestalt superflat que ela tinha alcançado na decoração, uma bela e elegante senhorita loira sorria para mim o tempo todo. Comentei com Marianne Barradas:

– O padrão crômico dela parece ser o apocematismo – referindo-me ao padrão de cores que alguns animais usam para denotar que são venenosos – Mas acho que não pôde resistir e foi infectada pelo meu retrovírus pandêmico da sensualidade. Uma infecção que... – fitei seriamente seus olhos – pode ser letal.

Na verdade, explicou Barradas, o sorriso constante da supramencionada senhorita decorria das imoderadas doses de botox que consumia, não sem histérica voracidade. Com efeito, determinado momento da fiesta, enquanto conversávamos ao lado da piscina sobre a taxa de testosterona necessária para fazer brotar um pênis na testa, vi minha misteriosa e sedutora loira usando uma enorme seringa para inocular alguns mililitros de botox nas têmporas, e ao longo da noite algumas gotas da substância às vezes esguichavam pelo furo epidérmico que a seringa deixara – e para não desperdiçar nada Lady Botox aparava-as com o cálice de champagne, realizando manobras extremamente ágeis. Então lá para as tantas o irreverente teatrólogo Paulo Hoepker apareceu às escondidas e tentou pregar uma peça em Vannini, seu amigo de infância (agora desmaiado numa jangada que havia comprado recentemente, com o propósito de “encontrar um novo caminho para a outra margem da piscina”, conforme esclarecera naquele seu tom impagável) e a brincadeira consistia basicamente em injetar uma neurotoxina seletiva no complexo B-Bötzinger – uma pequena região do tronco cerebral de ratos, essencial à respiração – do cérebro de Vannini, destruindo neurônios específicos e acelerando o desenvolvimento de problemas respiratórios – primeiro no sono REM, em seguida no sono não-REM e posteriormente na vigília – e é claro que todos rimos um bocado com aquela idéia mirabolante do Paulo; ele é mesmo a alma de qualquer festa – e de fato alguns dias depois o Vannini começou a reclamar de problemas respiratórios, sem entender por que todo mundo ria quando ele mencionava o assunto, ha ha; uma comédia.
Continuamos conversando sobre o último lançamento de Deus, o Novo Testamento, e eu notei que um certo jovem – Luciano Romero, crítico de música alternativa, disseram – passou a noite inteira numa mesma posição, como se estivesse em pause, e o que de início pareceu uma invejável tranqüilidade decorrente de sua extrema confiança em meios sociais foi a posteriori esclarecido como resultado da ingestão acidental da champagne na taça de Lady Botox, minha misteriosa senhorita de sorriso perpétuo. Eu tive essa visão; o fim do universo, galáxias em colapso – mas aquele sorriso sobrevivendo intacto, implacável como uma muralha de titânio. Uma equipe da SWAT invadiu a casa e começou a fuzilar os convidados; eu utilizei o corpo de Luciano Romero como escudo, no qual as balas ricocheteavam zunindo. Após o incidente, entrei numa fase de depressão que durou meses, e meu cabelo não foi mais o mesmo. A fibra e o colágeno estavam lá, mas o brilho, a maciez; o tônus; eram agora para mim como propriedades capilares de um estranho. Certa noite então, peguei o metrô e desci num lugar ermo. Fugia de uma multidão histérica de crianças hidrofóbicas e cachorros hidrofóbicos pelas ruas do bairro de classe média em São Paulo, sob a pupila opressiva de um holofote central – um sol tão desconhecido para mim. Desci a escadaria escura do velho edifício-motel-pousada Jardim do Éden nos arredores da rodoviária; Adão e Eva, parece, eram as duas ratazanas que dividiam o aposento comigo – e as quais não haviam apenas sucumbido à fruta proibida, como também a vários outros gêneros alimentícios proibidos no meu armário (ainda assim não foram banidas). Só posso supor que Deus era a barata que aparecia por lá quando em vez para menear a cabeça em desaprovação à minha existência. Eu tentara repelir o síndico mediante um crucifixo e esguichos de água-benta-gaseificada com Tang silvestre (colhido por camponesas suíças), se bem que não fosse ele um vampiro, como depois constatei decepcionado, e apenas porque disse-mo explicitamente; de todo modo o Tang silvestre com água benta gaseificada estava divino – evacuei assim o dormitório, que era um cubículo sufocante com paredes cinza-esverdeadas constituídas de bolor gelatinoso; havia um edredon petrificado sob uma crosta de esperma, um aquecedor (para intensificar o calor já suficientemente implausível), uma Bíblia mórmon e uma TV 14 polegadas para sintonizar bolhas amorfas de chuvisco e bestas deformadas vagamente humanas, que falavam alguma língua grotesca e supersaturada de ruídos tóxicos cloacal-tartamudeantes, entrecortados, cuspidos pelo que a mim pareciam válvulas supuradas protagonizando algum romance truffautiano. A máquina de caça-níqueis tocou uma musiquinha analógica e eu perdi minha moeda. Comprei uma cerveja – uns bêbados conversando numa mesa. Os bares nas proximidades da rodoviária. Neón de motéis vagabundos telefones públicos, desfigurados por abscessos (sob um poste flácido na esquina) – constatei uma rede de nervos saindo do orelhão pela calçada até um par de sapatos, de onde brotou uma cabeça bêbada que tentava disfarçar angústia [amarelo sintético] com uma gargalhada – um buraco negro na esquina. Digito os números no telefone, fazendo uma musiquinha com os tons de cada tecla. Eu sou o Kraftwerk.
“Só entendo uma língua, meu amigo. E essa língua só tem uma palavra. Começa com 10”, diz o cara da espelunca, “termina com 000”. “Qual o seu problema? Eu só quero esse mini-game, cara. Eu não sei o que você tá falando”. “A nova palavra começa com 0,00 e termina com 1”, “Eu não tenho nenhuma moeda menor que 1 centavo”. Cambaleio por uma ruas de bolor esverdeado, sempre absorto no mini-game. Injeto uma ampola de penicilina num cachorro morto no asfalto – a reação antibiótica em cadeia desfaz as paredes de um motel ao lado. Vejo contaminar algumas estruturas etílicas – risadas anônimas. Coisas dissolvem lentamente ao redor da rodoviária, ouço a buzina distante de um ônibus – um uivo na selva pré-cenozóica –, prossigo desviando de algumas peças de tetris que se empilham à frente num beco pulsando macabras e indecifráveis freqüências extraterrenas subsônicas de até 4.500 c.p.s. Mais tarde àquela noite, de volta ao Jardim do Éden, escrevi no diário: “Suspeito estar numa placa de pétri. Podem as bactérias delirar?”.

Dia seguinte à tarde, caminhando por um rua deserta, à sombra dos edifícios, avistei pelo vão entre dois prédios um focinho gigante de rato pairando sobre a cidade e me ocultei atrás da parede, assombrado. Outra vez olhei, discretamente – o focinho continuava lá, contraposto ao céu vazio. Fungava perversamente.

Um comentário:

Chico Gue disse...

Quáquáquá.. lágrimas... os olhos ardem.. quáquáquá... mais lágrimas.... os olhos ardem mais... tiro os óculos... enxugo... leio adiante... quáquáquáquáquá... alma lavada... agora vou tentar decifrar mais hieroglifos (preguiça de consultar o houaiss online pra confirmar se é proparoxítono, como tanta gente gosta) sob o reboco despencado das paredes literárias magiares. enchanté, Landelino (nome também do meu bisavô, aquele carteador inveterado, que Liberalina, minha bisa, ia buscar arrastado pra casa). Valeu, Márcio pelo link, e o autor pelas gargalhadas Chico G.