“Sempre me senti mais confortável submerso em líquido amniótico”, disse a Vannini, que vinha comigo no carro pela rua escura. “Realmente foi uma decisão ótima instalar essa piscina com líquido amniótico, Vannini. E eu achei super barato e prático... Você precisa comprar uma. Juro que não consigo viver sem desde que comecei a usar”. Vannini estava comendo um exemplar da Vogue com barbecue, tencionando assimilar a edição por via estomacal e não ocular – decidira transubstanciar-se numa mônada abstrata e infinita de puro fashion. A bebida acabara no banquete de inauguração da nova agência do Itaú Personality, Vannini era o gerente, eu e ele fomos então pegar mais no meu estoque particular, Pink Flag do Wire tocando no LCD – não tendo conseguido abrir a porta da minha casa, atirei a chave no asfalto gelado, por sorte Vannini trouxera uma “bebida chilena” que utilizamos para explodir a porta (basicamente atiramos a garrafa contra ela e voamos alguns metros para trás com a explosão).
“QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ BEBE?”, perquiri, mas Vannini estava obstinado em introduzir o plug dos fones de ouvido do meu Ipod no slot de saída de um cachorro, aparentemente para auscutar suas atividades gastrointestinais com fins clínicos ou – seria possível? – recreacionais. Entrei em casa e um cara saiu de trás do sofá atirando e gritando “saia daqui, seu filho de uma puta”. Balas vindo de todo lado repletas de vibrações severamente macabras – corri até Vannini, que agora estava agachado auscutando o asfalto, e expliquei que um mass murderer psicótico invadira minha casa e não poderíamos pegar portanto as bebidas até que ele fosse embora, a menos que ainda tivéssemos uma garrafa da “bebida chilena” – a qual Vannini atirou pelo buraco da explosão anterior; ótimo, Vannini, você matou uma família – disse-lhe, vendo algumas pessoas mortas na sala. Logo percebi que havia confundido aquela casa com a minha – “por isso a porta não estava abrindo”, comentei, enquanto estávamos no carro indo para a minha verdadeira casa, Vannini no celular orientando um de seus subgerentes a pesquisar tudo o que pudesse sobre técnicas de hidroponia, segundo me disse pretendia aplicá-las ao cultivo de costeletas – o Vannini é mesmo impagável, ha ha, sempre obrigando seus empregados a executar essas tarefas totalmente absurdas e colossais às 3 da madrugada, e tinha agora um outro cara em minha casa, um limpador de telefones hermafrodita que advogava um approach terrorista do ramo. Astrid Stilberg exibiu a lingerie com dinamites sob a blusa da coleção de verão da Huis Clos – ficamos maravilhados ao perceber o toque incomparável de silk organza sintético com franjas indianas e bordados de índios cherokees, com uma pitada irreverente de gabardine – e ameaçou explodir a vizinhança se o(a) impedíssemos de limpar o telefone, então pegamos as bebidas e demos no pé.
“A identidade sexual está morta”, disse Marianne Barradas, esposa de Vaninni, dentista e colunista de uma revista de culinária. A mansão deles tinha um estilo bem minimalista, tudo branco e móveis pretos com um design simples mas sofisticado, meio less is more – um charme fronzoniano, quase poético, que só podia me deixar seriamente apaixonado. Enquanto bebia uma taça de Benedictine e conversava com Marianne sobre aquela gestalt superflat que ela tinha alcançado na decoração, uma bela e elegante senhorita loira sorria para mim o tempo todo. Comentei com Marianne Barradas:
– O padrão crômico dela parece ser o apocematismo – referindo-me ao padrão de cores que alguns animais usam para denotar que são venenosos – Mas acho que não pôde resistir e foi infectada pelo meu retrovírus pandêmico da sensualidade. Uma infecção que... – fitei seriamente seus olhos – pode ser letal.
Na verdade, explicou Barradas, o sorriso constante da supramencionada senhorita decorria das imoderadas doses de botox que consumia, não sem histérica voracidade. Com efeito, determinado momento da fiesta, enquanto conversávamos ao lado da piscina sobre a taxa de testosterona necessária para fazer brotar um pênis na testa, vi minha misteriosa e sedutora loira usando uma enorme seringa para inocular alguns mililitros de botox nas têmporas, e ao longo da noite algumas gotas da substância às vezes esguichavam pelo furo epidérmico que a seringa deixara – e para não desperdiçar nada Lady Botox aparava-as com o cálice de champagne, realizando manobras extremamente ágeis. Então lá para as tantas o irreverente teatrólogo Paulo Hoepker apareceu às escondidas e tentou pregar uma peça em Vannini, seu amigo de infância (agora desmaiado numa jangada que havia comprado recentemente, com o propósito de “encontrar um novo caminho para a outra margem da piscina”, conforme esclarecera naquele seu tom impagável) e a brincadeira consistia basicamente em injetar uma neurotoxina seletiva no complexo B-Bötzinger – uma pequena região do tronco cerebral de ratos, essencial à respiração – do cérebro de Vannini, destruindo neurônios específicos e acelerando o desenvolvimento de problemas respiratórios – primeiro no sono REM, em seguida no sono não-REM e posteriormente na vigília – e é claro que todos rimos um bocado com aquela idéia mirabolante do Paulo; ele é mesmo a alma de qualquer festa – e de fato alguns dias depois o Vannini começou a reclamar de problemas respiratórios, sem entender por que todo mundo ria quando ele mencionava o assunto, ha ha; uma comédia.
Continuamos conversando sobre o último lançamento de Deus, o Novo Testamento, e eu notei que um certo jovem – Luciano Romero, crítico de música alternativa, disseram – passou a noite inteira numa mesma posição, como se estivesse em pause, e o que de início pareceu uma invejável tranqüilidade decorrente de sua extrema confiança em meios sociais foi a posteriori esclarecido como resultado da ingestão acidental da champagne na taça de Lady Botox, minha misteriosa senhorita de sorriso perpétuo. Eu tive essa visão; o fim do universo, galáxias em colapso – mas aquele sorriso sobrevivendo intacto, implacável como uma muralha de titânio. Uma equipe da SWAT invadiu a casa e começou a fuzilar os convidados; eu utilizei o corpo de Luciano Romero como escudo, no qual as balas ricocheteavam zunindo. Após o incidente, entrei numa fase de depressão que durou meses, e meu cabelo não foi mais o mesmo. A fibra e o colágeno estavam lá, mas o brilho, a maciez; o tônus; eram agora para mim como propriedades capilares de um estranho. Certa noite então, peguei o metrô e desci num lugar ermo. Fugia de uma multidão histérica de crianças hidrofóbicas e cachorros hidrofóbicos pelas ruas do bairro de classe média em São Paulo, sob a pupila opressiva de um holofote central – um sol tão desconhecido para mim. Desci a escadaria escura do velho edifício-motel-pousada Jardim do Éden nos arredores da rodoviária; Adão e Eva, parece, eram as duas ratazanas que dividiam o aposento comigo – e as quais não haviam apenas sucumbido à fruta proibida, como também a vários outros gêneros alimentícios proibidos no meu armário (ainda assim não foram banidas). Só posso supor que Deus era a barata que aparecia por lá quando em vez para menear a cabeça em desaprovação à minha existência. Eu tentara repelir o síndico mediante um crucifixo e esguichos de água-benta-gaseificada com Tang silvestre (colhido por camponesas suíças), se bem que não fosse ele um vampiro, como depois constatei decepcionado, e apenas porque disse-mo explicitamente; de todo modo o Tang silvestre com água benta gaseificada estava divino – evacuei assim o dormitório, que era um cubículo sufocante com paredes cinza-esverdeadas constituídas de bolor gelatinoso; havia um edredon petrificado sob uma crosta de esperma, um aquecedor (para intensificar o calor já suficientemente implausível), uma Bíblia mórmon e uma TV 14 polegadas para sintonizar bolhas amorfas de chuvisco e bestas deformadas vagamente humanas, que falavam alguma língua grotesca e supersaturada de ruídos tóxicos cloacal-tartamudeantes, entrecortados, cuspidos pelo que a mim pareciam válvulas supuradas protagonizando algum romance truffautiano. A máquina de caça-níqueis tocou uma musiquinha analógica e eu perdi minha moeda. Comprei uma cerveja – uns bêbados conversando numa mesa. Os bares nas proximidades da rodoviária. Neón de motéis vagabundos telefones públicos, desfigurados por abscessos (sob um poste flácido na esquina) – constatei uma rede de nervos saindo do orelhão pela calçada até um par de sapatos, de onde brotou uma cabeça bêbada que tentava disfarçar angústia [amarelo sintético] com uma gargalhada – um buraco negro na esquina. Digito os números no telefone, fazendo uma musiquinha com os tons de cada tecla. Eu sou o Kraftwerk.
“Só entendo uma língua, meu amigo. E essa língua só tem uma palavra. Começa com 10”, diz o cara da espelunca, “termina com 000”. “Qual o seu problema? Eu só quero esse mini-game, cara. Eu não sei o que você tá falando”. “A nova palavra começa com 0,00 e termina com 1”, “Eu não tenho nenhuma moeda menor que 1 centavo”. Cambaleio por uma ruas de bolor esverdeado, sempre absorto no mini-game. Injeto uma ampola de penicilina num cachorro morto no asfalto – a reação antibiótica em cadeia desfaz as paredes de um motel ao lado. Vejo contaminar algumas estruturas etílicas – risadas anônimas. Coisas dissolvem lentamente ao redor da rodoviária, ouço a buzina distante de um ônibus – um uivo na selva pré-cenozóica –, prossigo desviando de algumas peças de tetris que se empilham à frente num beco pulsando macabras e indecifráveis freqüências extraterrenas subsônicas de até 4.500 c.p.s. Mais tarde àquela noite, de volta ao Jardim do Éden, escrevi no diário: “Suspeito estar numa placa de pétri. Podem as bactérias delirar?”.
Dia seguinte à tarde, caminhando por um rua deserta, à sombra dos edifícios, avistei pelo vão entre dois prédios um focinho gigante de rato pairando sobre a cidade e me ocultei atrás da parede, assombrado. Outra vez olhei, discretamente – o focinho continuava lá, contraposto ao céu vazio. Fungava perversamente.

1 comentários:
Quáquáquá.. lágrimas... os olhos ardem.. quáquáquá... mais lágrimas.... os olhos ardem mais... tiro os óculos... enxugo... leio adiante... quáquáquáquáquá... alma lavada... agora vou tentar decifrar mais hieroglifos (preguiça de consultar o houaiss online pra confirmar se é proparoxítono, como tanta gente gosta) sob o reboco despencado das paredes literárias magiares. enchanté, Landelino (nome também do meu bisavô, aquele carteador inveterado, que Liberalina, minha bisa, ia buscar arrastado pra casa). Valeu, Márcio pelo link, e o autor pelas gargalhadas Chico G.
Postar um comentário