terça-feira, 18 de março de 2008

Ruído branco



Eu me masturbava para o meu portfólio, no Iraque, quando entendi o significado de compromisso. Eu caminhei sobre cadáveres nas ruas de um subúrbio americano, quando o sol era um holofote; prossegui até a unidade Panzer, abandonada em sua frugalidade outonal. Eu entrei na unidade Panzer. Enquanto detonava o maior Monumento à Cultura Olmeca do mundo, senti nascer outra vez em mim a humanidade há tanto esquecida – e ainda assim, tão acionisticamente regulamentável. Eu era uma consciência dissolvida nas ondas de fantasmagoria satélica.
As garantias explícitas dessas obrigações contratuais me extasiavam. Minha mente foi inundada por ruído branco.

Certo dia de primavera, após levar a cabo meu experimento de ouvir 1000 vezes seguidas toda a discografia de Barbra Streissand, um estranho fenômeno instanciou-se em meu mesencéfalo: um padrão anômalo de ondas cerebrais, registradas pelo encefalograma que ganhei da minha mãe no meu quinto aniversário. O padrão formava uma imagem; a efígie realisticamente exata de Sean Connery com um cachimbo, repousando numa rede. Logo percebi que meu cérebro era agora capaz de sintonizar todas as freqüências satélicas ao mesmo tempo, de modo que minha cabeça foi subitamente inundada por essa brutal avalanche de informações; todos os programas de tv, todas as transmissões terrestres convergiam a um só turno para dentro da minha cabeça, que era agora uma pequena lâmpada sobrecarregada; recebendo, num átimo, toda a descarga de todas as usinas elétricas. Me aproximei do espelho, e um grave déficit de atenção impedia que eu reconhecesse minha imagem refletida. “Quem é você?!”, gritei. “Saia do meu apartamento! Eu vou chamar a polícia!”.
Deambulei esquizoidemente pelas ruas vazias da vizinhança, lambendo vitrines, esbarrando em paredes, fugindo apavorado de agentes secretos em cada esquina, sonhando com estilos de vida; minha mente esgazeada num nevoeiro lúbrico; minha personalidade derretendo como um fuzível sob alta tensão. “Uau. Isso é fantástico”, disse com meus botões. Nos dias seguintes cometi vários homicídios randômicos, e compreendi que se não tomasse uma atitude, seria preso. “Merda, eu terei que extrair o meu cérebro”.
“Pronto”, disse o Dr. Ciência, submergindo meu encéfalo num líquido amarelado dentro de um frasco. “Obrigado, Dr. Ciência. Agora sem o meu cérebro me sinto bem melhor”. “Excelente. Sorvamos na fonte do Lete o olvido das misérias desta vida. O próximo passo é ver o que acontece ao seu cérebro se atirado de um avião – embora, honestamente, eu preferisse utilizá-lo para fins canibalísticos”. “Eu entendo, e quero que saiba que você tem o meu total consentimento; você sabe o quanto-”. “Excelente. Há algo, entretanto, que lhe preciso confessar. Nunca antes confiei isso a alguém. Você sabe que sou um zumbi, não é?”, disse o Dr. Ciência. “Por isso preciso me alimentar de cérebros”. “Mesmo? Oh, isso... Isso é sensacional. Seria indiscrição perguntar como veio a falecer?”. “Não, claro que não. Foi uma infecção urinária. Eu segurei a urina por um período excessivo, durante uma reunião acadêmica”. Na TV, um senhor com suspensórios surgia num jardim vicejante, num clima de terna felicidade doméstica. “Cercado de objetos desintegrados e hostis?”, dizia, “Cansado de agressões verbais da família? De ser molestado pelo seu pai ou irmão? É hora de dar um trato nesses desgraçados. Com o novo Family Crusher 5000, da Fear Co., seus problemas pessoais e familiares estão resolvidos. Muito mais que um machado, o Family Crusher 5000 é a última palavra em terapia familiar”, clic; na outra emissora, um garoto corria com seu cachorro num prado outonal; brincavam alegremente. “Benji, vem! Vem garoto!”, dizia o menino, rindo. Um jump-cut, e estavam sentados sob uma árvore. “Espécime macho do homo sapiens”, disse o cachorro, “você gostaria de saber como a distrofia muscular pode melhorar seu estilo de vida?”. “Sim! Diga-me, por favor, Benji!”, demandou o menino, beijando seu fiel amigo. “Direi. Há um agente infeccioso em minha saliva. Quando eu o lambi, seu sangue foi contaminado; em pouco tempo, a infecção migrará para as suas meninges, iniciando o efeito degenerativo, e metastaseando para a medula. Isso bloqueará a nutrição muscular”. Uma leve brisa moveu as folhas caducas. “Em breve, você estará incapacitado de se mover”. “Yippie! Benji, você sabe o que isso quer dizer? Se não puder me movimentar, terei muito mais tempo para mim mesmo! E... e... Poderei me livrar do trabalho escravo na fazenda do meu pai... e...”. “Sim”. “Rapaz! Eu mal posso esperar!”. “Tem uma outra coisa que não contei. Eu sou uma máquina”, disse Benji, desfazendo-se de sua pele, e revelando um corpo mecatrônico repleto de chips, feixes e painéis digitais. Seus terríveis olhos vermelhos brilharam, no idílio da tarde. Clic. Estou mirando as lâmpadas fluorescentes no teto; parecem vibrar com o ruído grave de fundo – mistifório de motores, vozes, risadas, talvez rádio. Vejo a luz dos postes fragmentando dentro das gotas de chuva no pára-brisas. O semáforo está vermelho. O carro está silencioso, e é possível ouvir com clareza o som das gotas de chuva contra o vidro, e o ruído produzido pela fricção da borracha dos limpadores de pára-brisa, indo e vindo, tediosamente. Em minha alma, o fogo dança contraposto ao sol – que se entrevê, vagamente, através das chamas. Clic – “carbonização: a nova tendência nas boates de Gaza, e uma ótima forma de liberar os líquidos e tensões”, disse o personal trainer do Dalai Lama, enquanto tomava comigo um delicioso banho turco. “Fascinante”, falei. Um eunuco corria e chutava minha coluna vertebral. “Esse é o verdadeiro banho turco”, comentei; “Digno de um sultão”.

A incrível hospitalidade turca era uma experiência inesquecível. [continua...]

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