quinta-feira, 20 de março de 2008

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Pintando o apartamento com meus filhos e minha esposa, espalhando pela parede a tinta branca com asbestos que emitiam graus moderados de radioatividade, matando-nos lentamente, eu sentia uma conexão especial e autêntica entre nós. Eu compreendi a importância de uma visita turística à Ilha de Páscoa, onde fomos então passar as férias. Júlia ficou apaixonada pelos monolitos e queria levar um para casa como souvenir, mas eu e as crianças queríamos um aborígine. Acabamos vencendo, e levamos o aborígine de estimação, que comeu sushi junto com todos nós numa praça de alimentação em Montreal – um dos nossos filhos morreu intoxicado pelo peixe, mas por acaso tínhamos dois (e dois filhos, também).
Tivemos momentos divertidos e inesquecíveis. Por exemplo na Disneylândia, quando o aborígine da Ilha de Páscoa comeu uma criança viva e matou o Pateta com uma lança envenenada. Mediante pictogramas rústicos, nos disse que aquele era um demônio milenar enviado pelo Deus Vulcão para modificar permanentemente a playlist do seu iPod – viu-se assim obrigado a matá-lo, contou, mas nós explicamos que era apenas um homem fantasiado, então voltamos para casa e assamos numa fogueira o aborígine da Ilha de Páscoa, realizando um estranho ritual canibalístico para esconjurar os espíritos satânicos do microondas, e isso fez com que compreendêssemos a importância de manter acesos os sonhos e a fantasia em nossas vidas. "Vamos, me mostre as crianças”, disse a minha Orientadora em Diplomacia Solipsista, “Onde estão as minhas crianças? Eu trouxe um produto novo”, disse, batendo no equipamento de dedetização e descendo uma escadaria, que conduzia ao porão da minha casa. “Abandonei o lança-chamas”, confessou, afetando profunda e pungente melancolia nostálgica no olhar. “Onde estão as minhas crianças?”, perguntou, ansiosa.

Seu ramo de especialização: baratas.
Seu método: o terror.
A tortura psicológica.

Ela moía mentes num moedor de carne. Num apontador automático de lápis.
Ela era uma guilhotina de mentes.
Ela as triturava.

Nas horas seguintes, a minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista confinou as baratas da minha casa em celas claustrofóbicas; aprisionou-as em pequenos instrumentos medievais de tortura, enquanto abusava sexualmente de suas esposas e filhas e ao mesmo tempo recitava trechos do Mundo como Vontade e Representação de Schoppenhauer.
Minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista descrevia-lhes o modo como suas existências repulsivas eram grãos de poeira vagando cega e gratuitamente por um tubo endoscópico de tédio e dor, até serem succionadas num vórtex de dejetos autobiográficos para o vácuo, então apagadas. Anuladas. Evacuadas.

Minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista as consolava, às suas crianças, até que começassem a crer que podiam encontrar nela uma verdadeira amiga. Confessavam seus segredos mais íntimos, apenas para ser escarradas em seguida. Após 10 horas, seus egos implodiam num estado de catatonia hebefrênica irreversível. As baratas tornavam-se incapacitadas para qualquer tipo de convivência em sociedade, portanto nem tantas se matavam, percebendo as grandes melhorias em qualidade de vida implicadas; a maioria se tornava assistente social, para quem a morte seria redundante. Eu disse adeus e entrei no meu caça Stealth, estacionado na garagem desde que acidentalmente explodi meu hovercraft quando tentava detonar o cachorro do vizinho com um lança-mísseis que costumo usar para regar as plantas. Decolei verticalmente. Eu havia sido premiado com tickets para o Congresso Internacional de Delirium Tremens por responder corretamente a uma dentre as três seguintes perguntas:
“Quantas adenóides são necessárias para construir uma reprodução exata do Titanic em adenóides?”,
“Quantos átomos tinha o universo quando Bruce Lee atuou em ‘Operação Dragão’?” e “Coisas grandes são maiores que coisas pequenas?”.
Realizando o experimento empiricamente, comprovei que são necessárias tantas adenóides quantos são os casos de morte no Japão por tentativas frustradas de enlarguecimento de pênis, e assim ganhei o ticket. O misterioso agente da Fear Co. que entregou-me os tickets numa rua úmida e escura de Leeds, sob o amarelo opaco do poste de luz, havia feito uma cirurgia plástica que o deixara perfeitamente idêntico a James Stewart, contudo incapaz de movimentos faciais – o que lhe conferia a constante expressão de estar vendo Kim Novak cair da torre em “Um Corpo que Cai”. Um misto de pasmo e terror súbito, mas não excessivo. Um terror educado. Jovial. Um terror carismático.
“Agora eu tenho que partir e seguir com minha vida, meu amigo”, disse-me, pousando a mão em meu ombro. Flagrei em seu rosto uma lágrima – uma lágrima de terror, ao ver Kim Novak cair da torre.
O agente secreto da Fear Co. entregador de tickets saiu andando, calmamente, dissolvendo-se nas sombras da cidade, como uma misteriosa pastilha efervescente para gripe. Lembro que voltou-se uma vez, e talvez eu esteja enganado, mas estimo ter visto em seu rosto uma expressão de terror. Então entrou em combustão espontânea e alguns ursinhos gummie apareceram para chutar seu cadáver carbonizado.
A discordante massa ressoa, num vibrar morno e confuso.
Aterrissei o meu caça Stealth na vaga para portadores de distúrbios mentais caracterizados por depressão em grau variável, sensação de incapacidade, perda de interesse pela vida e possibilidade de evolução para um quadro de ansiedade, insônia, tendência ao suicídio e, eventualmente, delírio de auto-acusação. A cerimônia de abertura do Congresso Internacional de Delirium Tremens iniciou-se com as cheerleaders. Um clima de amizade e profunda satisfação pessoal permeava o auditório enquanto as galinhas trazidas por um imigrante mexicano as devoravam – às cheerleaders – e depois a si próprias.
Todos ficamos apaixonados pelas galinhas assassinas autofágicas do México, apesar de não mais existirem – um preço ínfimo pelo charme irresistível da autofagia. “Yo no supe que ellos eran los pollos carnívoros”, disse o imigrante mexicano, com um sorriso, esquivando-se dos tiros disparados por uma guerrilha de traficantes. “Puxa! Nunca me divirto tanto quanto no Congresso Internacional de Delirium Tremens”, pensei comigo; velhinhos espasmódicos catatônicos sentados ao meu redor na platéia, inebriados no selvagem, excitante, louco afã do Parkinson. Os custos para organizar o Congresso foram extremamente baixos, dado que todos os palestrantes eram alucinações e assim nada cobraram pelas palestras - nem mesmo precisaram ser acomodados no Copacabana Palace com vista para a célebre praia de Copacabana. Logo de início fiz amizade com um grupo de homúnculos delusórios de 10 cm que decidiram não bombear minha medula para fora da coluna vertebral à noite enquanto eu estivesse dormindo, visto que houvessem julgado - ipsissima verba - 'pertinente e deliciosamente descontraída' uma das observações que fiz durante a fala de um palestrante – ele, um distúrbio dissociativo da identidade, personificado num multiprocessador de alimentos que ministrou uma palestra intitulada "O Rationale do Niilismo", consistindo nos seguintes murmúrios randômicos:

Burritos. Burritos. Burritos calientes.

Ocuparam toda uma hora, mas creio ter compreendido a essência. O Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, interrompeu a primeira sessão de palestras e convidou-nos a todos para o coffee break. Saltando em seu pescoço, derrubando-a, abrindo-lhe o ventre com os dentes e arrancando-lhe os intestinos, o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sacrificou a vaca que estava perambulando pelo auditório desde a cerimônia de abertura - quando do trágico incidente envolvendo as cheerleaders. “Você não acha que ela pode acabar se ferindo?”, perguntei. Ele jogou a vaca sobre a mesa dos acepipes. Esquivei-me habilmente do jato de sangue que jorrava do ventre do animal. “Meu lado clássico-romântico. STURM UND DRANG, BITCH! Vamos, sirvam-se, senhores”, disse o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sorrindo de forma amigável. “Nada como um bom e suculento pedaço de entranhas bovinas ensanguentadas com chá... Oh, espero que os senhores perdoem-nos a falta de salgados e cubos de queijo com salame hoje”, acrescentou, mastigando um pedaço de fígado. Era útil ter um lugar como aquele, pensei, que era ao mesmo tempo um auditóro e um pasto, onde se praticava a pecuária extensiva. Um velho senhor mirava assombrado o cadáver do animal sobre a mesa. “Acho que está dormindo”, confidenciou-me, furtivamente. “Acho que sim”, disse-lhe.
“Eu emprestaria o meu despertador, mas o comi”, disse ele. Aquiesci com a cabeça.
“Eu estava com muita fome e tive que fervê-lo”, disse. “De todo modo, ele veio quebrado. Marcava 12 horas, das 24, você me entende? Acredita nisso? Realmente um pedaço de merda inútil...”, desabafou. “Eu levei pro conserto, mas o relojoeiro disse que não tinha jeito. ‘Não tem jeito mesmo’, ele disse. Ele é um jovem direito... Falou pra eu diminuir meus dias pela metade, acredita?, que esse era o único jeito. Ele é um bom menino, apesar de ser homossexual”, disse, recordando os idos de antanho. “Ele é também um molestador foragido. Eu fiz o que o ele me falou, mas minha rotina ficou corrida demais com esses dias mais estreitos – sabe o que eu estou lhe dizendo, não é? Ou eu faço tudo duas vezes mais rápido, ou eu faço tudo pela metade. Você está me acompanhando? Na minha idade isso é muito difícil... não tenho mais o vigor da juventude. Me canso muito rápido agora... Assim é a vida. Realmente uma época difícil... Realmente difícil... Sempre resfolegando como um cachorro ou... como um piolho puxando uma carroça”.
Concordei, terminando de comer meu pedaço de carne bovina ensanguentada com chá, guardando os restos na bolsa.
Aceitei um copo d’água oferecido pelo Sr. Pasolini, numa garrafa térmica vermelha.
“Soube que o senhor tem realizado pesquisas fascinantes na área do delirium tremens, Sr...?”, perguntou-me. “Oh. Não. Por que acha isso?”, “Muito interessante. Realmente. Veja”, disse, atirando um pedaço de carne ensanguentada na parede. “Haha, não é curioso? Não é curioso como fica colado? Você deveria pesquisar isso”, disse-me. “Bem, creio que todos estejamos saciados”, disse aos convidados. “Agora, senhores, vamos explodir essa merda toda aqui”. Riu simpaticamente e atirou uma taça com champagne no rosto de um homem velho e coxo. “Você já conheceu o nosso banheiro?”, perguntou-me. “Sylvia, você não apresentou o banheiro ao nosso convidado? Oh, você vai ficar encantado. Vamos, venha. Permita-me conduzi-lo, senhor”.

O banheiro do meu anfitrião era mesmo deslumbrante. Um verdadeiro luxo. Um lugar tão sui-generis que mal pude disfarçar meu pequeno grito de assombro. “Parece que os ecos de outrora ainda estão no nada imersos”, disse o Sr. Pasolini, olhando para dentro de um vaso sanitário e puxando a descarga, então submergindo no vaso a garrafa térmica vermelha para preenchê-la, tapando-a depois. “Senhores, conheçam o nosso novo banheiro. Não é maravilhoso?”, disse-nos, sorrindo. “Estou apoplético, Sr. Pasolini. É simplesmente uma sensação”, confessei. “Haha, esplêndido, esplêndido. Fiquem à vontade, por favor. Desfrutem as taxas bacterianas quase nulas e o desconsiderável nível de coliformes”, completou – e, com efeito, pude comprovar sua afirmação com o meu Medidor Digital de Bolso de Taxas Bacterianas e Coliformes Fecais, o qual sempre carrego comigo, tendo-o recebido como herança de meu avô em seu leito de morte. “As taxas de bactérias e coliformes fecais são adoráveis, Sr. Pasolini. Como você consegue mantê-las?”, perguntei. “É tudo produto do trabalho árduo dos meus Gnomos Esterilizadores de Ambientes. Os coprolimpas”, disse o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, enquanto vários coprolimpas saíam de suas tocas dançando e cantando ao nosso redor. “Haha. É um mundo cheio de magia”, exclamou o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sorrindo e dançando, e acidentalmente esmagando alguns coprolimpas. “Tudo aqui é comestível. As torneiras, as paredes, os vasos...”, disse nosso excêntrico anfitrião. Um velho e fremente senhor mordeu um vaso sanitário por algum tempo, conquanto não tenha sido capaz de degluti-lo. “Oh... então não são comestíveis”, disse o Sr. Pasolini, esmagando acidentalmente um outro coprolimpa. “Não se preocupem, esses pequenos vermes são uma praga fodida”, explicou, pisoteando brutalmente vários desses curiosos gnomos de 15 cm, que em vão corriam, desesperados. “Reproduzem-se como baratas. MORRAM! MORRAM SEUS MALDITOS VERMES! NÃO VAI SOBRAR NENHUM DE VOCÊS, SEUS MERDINHAS, EU VOU ESMAGAR TODOS! EU VOU ESMAGAR TODOS VOCÊS! DESGRAÇADOS! DESGRAÇADOS! MORRAM! MORRAM! MORRAM!”, gritava o Sr. Pasolini, pisoteando-os. “Bem, senhores... retomemos nossos afazeres”, disse, e uma pedra acertou minha cabeça. Conforme observei, a pedra havia sido atirada pela família de exilados de guerra albaneses, que estava apinhada no canto do banheiro desde que entramos. “Oh, é a minha família de exilados albaneses de estimação. Eles estão morando aqui no banheiro”, explicou o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional. “FAMÍLIA DE EXILADOS ALBANESES, PARE COM ISSO!”, gritou ele, açoitando-os com um chicote. “O QUE EU DISSE SOBRE JOGAR PEDRAS NAS VISITAS? QUEREM QUE EU MANDE VOCÊS DE VOLTA PARA A ALBÂNIA?”, completou, desferindo ainda outras chicotadas na amedrontada e suplicante família. “Merda, preciso de uma carreira”, declarou, deixando o chicote cair no chão. “Argh! O... o meu coração! Merda...”, gemeu, ofegante, a se contorcer, agarrando o peito e retirando com mãos trêmulas um frasco de pílulas do bolso. Engoliu várias. “OK, já me sinto novo em folha. Alguém conhece algum puteiro próximo daqui? OH DEUS, POR QUE FAÇO ESSAS COISAS?”, lamentou-se, caindo de joelhos no chão, em prantos. “Eu sou um cretino... eu... eu não queria ser assim...”, continuou, chorando. “Mas tenho me sentido tão sozinho... Deus, eu não consigo suportar toda essa solidão...”. O Sr. Pasolini desmoronou em soluços, engasgos e convulsões. “E-eu... eu não era assim. Eu tinha amigos... mas desde que fui acometido pela calvície, me tornei inseguro demais para fazer novas amizades, e... eu...”. Parou. “Não. Isso não importa. Eu posso ser alguém melhor. Eu sei que, no fundo, eu, e todas as almas neste planeta fantasmagórico e insano à deriva no vazio, nada sou senão essa criança triste e solitária, clamando por resgate. E a partir de agora, dedicarei minha vida a resgatar estas crianças sufocadas, asfixiadas; esses tristes fetos sepultados vivos dentro de todos nós. Dedicarei minha vida... a ajudar... pessoas”.
Contudo, quando caminhava pelas ruas sombrias da cidade àquela noite, o Sr. Pasolini foi atacado por uma selvagem horda de crianças que o estriparam e devoraram, num insólito e macabro ritual canibalístico.
(O que, de todo, modo foi tomado como um evento absolutamente irrelevante após a descoberta, divulgada por uma equipe de astrônomos àquela mesma noite, de que somos todos hologramas, e as estrelas são projetores, projetando nossas vidas na face da Terra).

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