quinta-feira, 27 de março de 2008

Está ouvindo, híbrido de réptil e feto humano?



“Querida, você pôs um híbrido de réptil e feto humano no leite outra vez?”, perguntei. Júlia tentou disfarçar, mas estava claro. “Eu disse um milhão de vezes, amor. Não adianta. Eu posso dizer um milhão de vezes que não gosto, mas é sempre isso”. O híbrido de réptil e feto humano moveu os bracinhos dentro do leite, soltando pequenos suspiros de prazer. Seus bulbosos olhos negros abriram um pouco, então voltaram a semi-cerrar, imersos em tranqüilidade uterina.
“Híbrido de réptil e feto humano, saia do meu copo de leite agora”, ordenei eu, ríspido. Ele chacoalhou e balbuciou uma seqüência desarticulada de fonemas, como um bebê. “Agora. Está ouvindo?”, insisti.
“Está ouvindo, híbrido réptil e feto humano?”.
(Se me permitem tecer um breve comentário, meu problema com híbridos dessa natureza tornou-se pessoal desde que expeli um deles pelo reto e, anos depois, vi na TV este pequeno rebento de minhas entranhas devorar a alma de Ricky Martin, que encontrava-se então absorto em sua missão peregrina pelos Andes, mediante a qual visava descobrir, em seu interior, uma forma de induzir porcos geneticamente manipulados a defecar milkshake).
Lenta e relutantemente, ele escalou a borda do copo e saiu, engatinhando pela mesa, deixando um rastro de leite. Finalmente eu poderia voltar a beber o meu leite em paz.
“Está ouvindo, híbrido de réptil com feto humano?”.



Eu, que sempre sonhei com uma casa vazia, de cômodos brancos, e vazios; uma casa vazia com um grande copo de leite na sala de estar; uma casa na qual eu entraria, emerso da ofuscante luz branca. E caminharia até a sala de estar, e apanharia na sala de estar o copo de leite. Devagar escalaria o copo e submergiria; beberia o leite, uma pausa entre cada gole; então sairia e, ali dentro da minha nova casa vazia, vagaria; de um vão a outro.
Devagar.

Eternamente.

Sim.
Eu. Eu, meu fiel sociólogo soviético positivista. Eu, que sempre sonhei com copos de leite, alheios a estes quantos – oh, tão antiquados – híbridos de réptil e feto humano. Eu, que visito fazendas, pessoalmente, e pessoalmente seleciono as vacas que fornecerão o meu leite. Eu, que as ordenho eu mesmo, as vacas, com estas mãos que deus me deu, ou me valendo de um prático ordenhador automático de bolso – o versátil Milker 3000 –, com o qual premiaram-me pelo primeiro lugar no Campeonato Estadual de Soletração.
Eu, que sou, pessoalmente, uma vaca. Eu que... eu... eu sei... [Silêncio]. E-eu que apenas gostaria de ser uma vaca...
eu que não sou uma vaca realmente. [Silêncio]

[Cruza as pernas. Descruza. A perna treme de ansiedade. Olhos inquietos. Coça o nariz]

Deus, me desculpe, e-eu... Eu sei que não posso...
Eu sei que não posso s-ser uma vaca.

[Encolhe-se. Cruza os braços, como se tolhido por intenso frio]

Mas eu continuarei tentando. [Monta um cavalo, diante de um exército medieval trajando batas cirúrgicas]. Sim, eu continuarei tentando, minha psicopatologia resultante do consumo acidental de resíduos de cádmio extrudido de crateras irrecuperáveis de sedimentos tóxicos de mineração com 2km de diâmetro e 500m de profundidade que não violaram responsabilidades acionistas.
Eu continuarei tentando. [Os soldados apóiam com um urro]. Sim... Sim. Eles podem me ferir. Eles podem me matar. Eles podem até retirar minha pele com um cortador de grama elétrico, costurá-la de volta ao avesso, então me conduzir a uma sessão prolongada de bronzeamento artificial ultravioleta. Mas ninguém pode me impedir de fiscalizar pessoalmente a proveniência – e a adequação da qualidade aos padrões de higiene – do meu leite.
Os soldados neurocirurgiões medievais da cavalaria urraram polidamente, levantando seus fórceps e bisturis, então imergindo em silêncio e em seus afazeres recreativos insatisfatórios envolvendo objetos de escritório. “Eu discordo”, disse um deles, tímido, referindo-se ainda ao discurso, mas ninguém deu-lhe atenção – estavam todos absortos em seus conjuntos de esferas metálicas que transmitem energia mecânica da primeira esfera para a última.
- É tão excitante demonstrar a correção da física newtoniana se aplicada a objetos de tamanho médio – diz um deles, sorrindo.
- O que você está dizendo? – perguntou o cavaleiro medieval neurocirurgião com Pós-Doutorado em Fisioterapia na Oxford University e que estava ao lado, fitando-o sério. - Nós fazemos isso por tédio – informou.
- É, nunca há guerra nenhuma aqui – corroborou outro.
- É tão frustrante...
Os demais concordaram.
- Não tem ninguém aqui a quem nós possamos declarar guerra. Só tem essa merda de grama, para onde se olha.
- Por que não declaramos guerra à grama?
Fizeram silêncio.
- Eles estão em maior número – alguém observou.
Os demais concordaram.
- E os caras da otorrinolaringologia?
- Estão no plantão.
Silêncio.
- E os mórmons?
- Nós já explodimos a Base Mãe Mórmon no Centro da Terra ano passado.
- É, junto com a Grande Mórmon-Rainha. Lembro de ainda ver aquela puta expelindo uma boa centena de ovos mórmons, alguns segundos antes de ser detonada por 5 toneladas de napalm.
- Merda, foi como um momento de iluminação divina. Ver todos aqueles pedacinhos de larvas e ovos mórmon voando pra todo lado. Parecia a porra de um Renoir.
Os demais concordaram.
- Ei, o meu conjunto de esferas metálicas veio com problema. As leis da física não estão funcionando com ele – disse um dos soldados neurocirurgiões medievais da cavalaria, empurrando a primeira esfera repetidamente, e em vão. – Merda, eu vou ter que comprar outro. Já é o terceiro esse mês.
- Por que não declaramos guerra contra aquele pato – sugeriu um deles.
- Mas aquilo é uma pedra.
- Nesse caso será uma vantagem para nós! – observou alguém, entusiástico.
- Não não não, é um pato. Tenho certeza. Olhe – disse o primeiro. - É um pato.
- E-eu não sei... Eu ainda acho que deve ser algum tipo de pedra móvel... – insistiu o segundo.
- Não importa. Vamos declarar guerra àquilo, soldados.
- Hã... sim, sim... ok... sim... vamos... – disseram os outros num burburinho confuso, rumando lentamente em direção ao pato, ou à pedra móvel.

O exército de cavaleiros medievais neurocirurgiões matou o pato e todos retomaram seus afazeres recreativos insatisfatórios envolvendo objetos de escritório.

- Ei, vejam. Era uma pedra disfarçada de pato – observou um deles, alguns minutos depois.

Contudo descobriu-se só em meio à desoladora vastidão montanhosa, e assim decidiu que dali em diante seria um pastor de montanhas, evitando que fugissem em rebanho. À noite, com o olhar perdido na abóbada celeste, compôs para os astros distantes versos idílicos de rara beleza, entoou para a lua doces e bucólicas melodias, e quando já se masturbava para as estrelas, foi subitamente atropelado por uma frota de caminhões. Se eu ao menos tivesse visto o semáforo fechado, disse ele a uma das funcionárias do necrotério, com a qual conversava sobre amenidades enquanto era por ela autopsiado. Sentiram faiscar entre suas almas uma conexão especial, algo mágico na química daquela relação nascente; algo que desabrochava e expandia com o odor de formol. Havia, é certo, um quelque-cheuse de especial na forma como o suco bilial era secretado pelo seu pâncreas quando ela o seccionava cirurgicamente com um bisturi; na forma como ela removia seu pulmão, abria nele alguns buracos e o vestia na cabeça, fingindo ser um ninja, antes de embalar o órgão dentro de um saco plástico para ser conservado no freezer. Foi então que ele tomou a decisão.
“Não”, sussurrou, retendo a mão dela. “Não remova minha próstata ainda, minha doce Estagiária do Setor de Necrópsias. Ela pode ser útil. Sim. Sim, minha amada Estagiária do Setor de Necrópsias, eu quero pedi-la em casamento. Eu quero dar-lhe filhos com essa próstata, dentre outras partes do meu sistema reprodutor. Quero dar-lhe uma bela casa, um belo jardim, um depósito de suplementos alimentares com nova fórmula bioavailable que ofereçam mais proteínas utilizáveis por unidade que os produtos aquém deste padrão-referência, eu quero controlar minhas taxas de colesterol com você, comprar com você revistas trazendo 100 dicas para adicionar variedade à sua rotina (em geral implicando em danos anais) e assim reacender o fogo inicial do nosso relacionamento, quero escolher com você um creme de barbear que produza mais espuma com menos esforço; que seja menos agressivo à pele sensível. Que proporcione um maior frescor pós-barba. Sim, meu pequeno rouxinol necrômano do amor, eu quero aderir com você ao programa de reciclagem e tentar postergar o colapso ecológico global e a completa aniquilação da humanidade, eu quero induzir com você a formação de tumores cerebrais – além de distúrbios nervosos menores – por exposição prolongada a campos eletromagnéticos de eletrodomésticos, e quero planejar com você uma viagem a algum paraíso natural intocado pelo homem, onde possamos descobrir em nós mesmos uma inesperada e profunda compreensão holística da Natureza. Eu quero acumular com você por conseqüência de uma dieta demasiado farta, variada e inadequada aos hábitos alimentares humanos uma placa de resquícios alimentícios em putrefação no duodeno, lentamente liberando toxinas na corrente sangüínea pelo transcurso de nossas vidas. Eu quero que você esteja segurando a minha mão na sala de cirurgia quando meu câncer de testículos decorrente do hábito de deixar o controle remoto próximo às gônadas estiver prestes a ser removido após semanas de quimioterapia inútil, e eu quero ouvir com você os profissionais explicando como instalarão máquinas de glicerina para produzir nuvens etéreas quando nossa filha entrar no palco ao som de “Sail away” de Enya [parte censurada]. Eu quero ver com você na TV a terapeuta explicar que a delinqüência juvenil deve ser encarada como uma patologia, a ser tratada clinicamente. Eu quero esconder de você, dos nossos filhos e dos nossos amigos a minha coleção de DVD’s doentios que constituem um mecanismo de compensação para as baixas mas estáveis taxas de endorfina, dopamina e adrenalina resultantes de doses saturadas de entretenimento insuficiente e de emoções homeopáticas. Eu quero me tornar, com você, dependente de fontes de emoções diluídas e ideais dissolvidos em gotas anestésicas insuficientes para sedar o tédio. Músicas, filmes, livros, tarô, cientologia, cristianismo, Herbalife, frisbee, ginástica aquática, bungee jump, bonsais, iluminação ambiente, pubs, coquetéis, obesidade, documentários, fibras para prevenir hemorróidas, momentos mágicos, divertidos e inesquecíveis, graus moderados de radioatividade - síndrome do túbulo carpal atuações aclamadas dependência toxicológica de barbitúricos, suplementos alimentares - resíduos nocivos à saúde - decorações redundantes doenças cardíacas diabetes e fatores de risco (como colesterol alto e hipertensão), vernissages escritores acadêmicos hashis pequenas epifanias comoções nacionais novas bactérias que adquirem tolerância a antibióticos – um novo espírito empreendedor, um espírito cosmopolita de compreensão mútua – congressos internacionais fichas cadastrais alimentos industrialmente processados formas de combater os radicais livres e previnir o câncer de mama – acepipes; uma preocupação sincera com os problemas globais uma segurança renovada sobre seu valor pessoal, um novo espírito de equipe um novo espírito competitivo novas iniciativas novas amizades inconturbadas – plugs anais home theater rohypnol valium nicotina álcool tryptanol tianeptina, stablon, trazodona, cocaína – sexo casual, perversão, assassinato, suicídio autopromoção novos canais uma vida social ativa problemas domésticos sublimados em vendedores de telemarketing e crianças, programas de recliclagem, consciência política, anti-romantismo mas não pessimismo, efexor, rivotril, olcadil, carbolítio, viagra, anfepramona, desipramina, hormônios tireoidianos, abusos sexuais incestuosos auto-amputação impulsos de violência e vandalismo reprimidos cafés literários galerias de arte museus restaurantes refinados momentos de descontração em ambientes acadêmicos formas de prevenir a menopausa – odorizadores de ambiente – cooper, animal de estimação, bebendo moderadamente – fotos no álbum de família tentativas de se manter atualizado sobre os valores da juventude, pontes de safena, autocompensação sexual, turismo, uma nova e mais sofisticada forma de encarar a vida programas sobre pesca prostitutas os velhos tempos nunca morrem festivais anuais coletâneas sutis momentos de intimidade entre amigos ou amantes mahjong camping praças de alimentação, posturas morais socialmente aceitáveis (não mais os suínos genocidas do passado) ufologia nostalgia xamanismo budismo pacifismo sushi bactericidas, espermicidas, parricidas. Sim, eu quero tudo isso, com você; ao seu lado. Case comigo, Estagiária do Setor de Necrópsias”.
“Mas meu amor você não se está precipitando? Você nem mesmo leu o resultado do meu check up bimestral indicando minhas taxas de colesterol glóbulos brancos cálcio e-”.
“Você tem razão. Assim que você receber os exames, então”. Beijaram-se ardentemente. Com um sorriso cúmplice ele acenou, despedindo-se, enquanto ela fechava o zíper de sua mortalha negra polietilênica e guardava seu cadáver numa gaveta refrigerada do necrotério, a fim de desacelerar o processo de putrefação.

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