segunda-feira, 17 de março de 2008

Ereção fatal Pt. 2



Tudo era apenas mais um dia para mim no paraíso até que fui raptado pelo Lord’s Salvation Army, em um campo de refugiados da Uganda, e então obrigado a fuzilar minha própria família – as garrafas andavam em falta no treinamento de tiro. Em seguida, tive que fuzilar o staff da peça que eu escrevera sobre a minha vida (“Daniel – Um Destino, Três Testículos”) – os patos de madeira também andavam em falta na barraca de tiros, no parque de diversões perto da base. “Isso os ajudará a liberar os líquidos e tensões”, disseram-me; “mais líquidos que tensões”. (Na verdade, líquidos e tensões são grandezas incomparáveis*). De início me senti culpado, mas logo aqueles prestativos rapazes do Lord’s Salvation Army me prepararam um banho com ervas afrodisíacas e incensos canalizadores de energia, ótimos para controlar a ansiedade e o sentimento de culpa, também usados para detectar a presença de caças Stealth – uma nova alternativa dos exércitos às sondas e satélites usuais, incapazes de detectá-los. “Muito obrigado, rapazes. Sabe, estou sentindo uma química aqui. Nunca fui tão bem tratado quanto no seu exército de assassinos estupradores e... ah...?”, “Seqüestradores?”, “É. É, exatamente. Enfin. Toda a equipe está de parabéns. E eu realmente amei esse novo modelo de farda”. “Verão pede conforto”, disse um dos soldados que estavam comigo naquela barraca, e que tinha dificuldades em aceitar uma moralidade utilitarista num universo determinístico. “Exato! E-x-a-tamente, seu pequeno niilista travesso”, concordei. Sorrimos amigavelmente. “Agora, vou pedir licença a vocês, porque eu preciso fazer um pequeno peeling no córtex, ok? Ouviram falar, garotos? É a coqueluche desse verão, e eu jamais me perdoaria se corresse desnecessariamente o risco de ser demodé num campo de refugiados”. Eles aquiesceram, simpáticos, e foram molestar sexualmente algumas crianças recém-seqüestradas lá fora.
O desjejum estava, como poderia dizer?, um luxo, especialmente depois de ter lido na Psicose Hebefrênica Hoje que para manter uma vida saudável, nos dias atuais, o importante é priorizar os grãos – e, adivinha: só tínhamos grãos. Um punhado de arroz para cada pessoa, doado pela ONU. Dá pra acreditar nisso? Exulto em saber que a Uganda prioriza tanto os grãos. Esse é o primeiro passo para ficar de bem consigo mesmo. Toda a equipe da Uganda, aparentemente conhecida como ‘população’, está de parabéns.
Na TV, um paladino do setor micro-empresarial aparece sobre uma espécie de paraíso zen-budista indefectivelmente branco: “Cansado de ouvir vozes à noite instruindo-o a matar seus filhos, pais, esposa, amigos? Sentindo-se sufocado pela infinita aridez e gratuidade da existência? Relaxe. Você acaba de encontrar um novo e fiel companheiro: SocialEnhancer Deluxe, da Fear Co. Com essa nova broca elétrica, que a Fear Co. desenvolveu pensando especialmente no seu conforto, você poderá perfurar e eliminar o centro de identidade do seu cérebro, posicionando o pino giratório dessa forma, dentro do seu nariz”, disse, perfurando o próprio nariz, cada vez mais fundo. “É simples. Como a vida. Fear Co., sempre o melhor em conforto e segurança”, disse, o sangue a jorrar, em jatos profusos.
O Importante é Priorizar os Grãos.
No deserto, assando um escorpião, minha alma enregelou-se em privação disfarçada – o estilo civilizado. Tive delírios de barbárie; de violência primordial. Havia, nesta violência, certo senso estético. Contaminando o sistema, danificando-o, pensei, o bárbaro em mim os corrigia.
As negligências de armazenagem de um homeware desconhecido me apavoravam. Um espião aproximou-se da minha fogueira no deserto. “Acordamos hoje realmente decidos a deflorar todos os hímens do lirismo”, disse o espião. “Eu não acredito em hímen”, obtemperei. A fogueira estalava. “É uma barreira que precisará romper, se quiser seguir adiante”.
Silêncio.
“Hã... Meu pên-” “Agora ouça”, interrompeu. “Você será submetido a uma experiência. Uma experiência que mudará sua visão sobre tudo. Tudo”, disse, “exceto frisbee”.
O espião levou-me assim para observar o fascinante ritual de acasalamento do macaco-de-cauda-longa da Polinésia. Desde então, jamais fui o mesmo. Tal a divergência de valores entre a sociedade e eu, que só conseguia me enturmar com grupos de frisbee, e logo todo o meu círculo social se resumia a jogadores de frisbee – os únicos com os quais ainda compartilhava valores. “Cara, ser um indivíduo é uma merda”, afiancei ao meu parceiro de frisbee daquele dia. Seu nome era Bernardo. “Que fazer para voltar a ser um facsímile coletivo; um produto estandardizado da manipulação neurológica para fins publicitários?”. Eu sabia que apenas assim me reabilitaria socialmente. “Por que não hã... por que não... falamos sobre alguma coisa mais interessante... hã... como... frisbee?”, disse Bernardo.
Por não sei que contingente fortuna, a mágica do SocialEnhancer Deluxe conjurou de volta a minha vida social, e jamais precisei jogar outra vez o frisbee, relegado assim a pouco mais que triste memória; um bote, na correnteza, impelido incessantemente para o passado. Agora eu caminhava sem identidade pelos arredores do zoológico, com a minha nova vida social ajustada, quando parei e matei o macaco-de-cauda-longa da Polinésia. Já passava da meia-noite. O tiro ecoou lentamente, suave. Como uma nuvem. Disparei outras quatro vezes, e ouvi o eco sumir; fitei a lâmpada. A lâmpada apagou e voltou a incandescer, fraca, com um estalo. Zumbiu. Parecia um apêndice impotente, triste e solitário contra a noite, para quem perdia a guerra.
Atirei na lâmpada.
Aquela noite, após o ocorrido, vi um anjo brotar do ânus de um gato. Talvez me enganassem os olhos então, mas este silvestris catus parecia manifestar sinais de desconforto. Atirei no gato. “Você deve investir no setor micro-empresarial”, disse o mensageiro de Deus.
Atirei nele, em vão. Trajava um colete a prova de balas.

§

Quando cheguei em casa, minha alma era o sismógrafo do apuramento técnico; eu podia farejá-lo a um raio de 5 parsecs. Observei a aurora enquanto era taxonomicamente classificado por um paleontologista como o próximo primata; o próximo passo evolutivo da espécie. Eu era o homo mercator.
A transformação ocorrera.
O fravashi/anjo havia dito: “Eu voltarei um dia, e nesse dia, tua mãe pedirá o teu espermicida emprestado, e tu tentarás encontrá-lo, mas descobrirás que a governanta o havia utilizado por engano, para fazer a cobertura do bolo de aniversário que comestes, um dia antes. Assim saberás que é este, e não outro, o dia em que voltarei. Ao alvorecer deste dia, fornecerei os demais detalhes burocráticos concernidos no registro e natureza da micro-empresa que fundarás. Esperai”, disse, desaparecendo em seguida.

Pensava agora no meu avô, quando, 20 anos atrás, após ler-me uma história de ninar, dissera: “A vida é uma sucessão de danos de psicológicos, neurais, interpessoais e anais – portanto, coma fibras”. Quanto ao resto, não há nada a fazer. Desligou o abajur e saiu. Quando ele morreu, comecei a ficar paranóico com a possibilidade de que ele me estivesse observando do além. Eu ia ao banheiro, e quase podia enxergá-lo acima de mim, flutuando e espionando. Deve ser esse o entretenimento dos mortos, pensava; nós somos o seu reality show.

*Na álgebra abstrata, dois elementos, x e y, são ditos incomparáveis para uma relação R se não é o caso que xRy ou yRx. No exemplo acima, R seria a relação usual de ordem (transitiva: se xRy e yRz então xRz; irreflexiva: não-xRx; assimétrica: se xRy então não-yRz).

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