sábado, 15 de março de 2008

Como adquiri imunidade à varíola - Pt. 2



Pela janela, eu e Júlia vimos o Espírito das Taxas Cambiais Passadas estuprar nosso cachorro e nossos filhos. Quando retirou a máscara, reconheci seu rosto: era, percebo agora, o rosto de Richard Gere. Ele me ofereceu uma promoção. Em pouco tempo, eu era líder no ranking mundial do mercado financeiro, ao lado da General Motors; vendo meu reflexo no espelho, fui tomado por tal êxtase carnal que minhas glândulas espermáticas explodiram, dizimando a vida na Terra. A volúpia infinita por minha carne induzia uma ejaculação contumaz e perene; uma avassaladora torrente de sêmen. Meu falo tornara-se a nova fonte mundial de energia hidrelétrica. Meu pai veio à noite me dizer que podia, enfim, morrer em paz, e se orgulhar do filho que expelira repulsivamente no mundo. “Desde que você era apenas um ovo, eu sabia que o seu futuro estava no ramo das hidrelétricas”, disse, fecundando a si mesmo através de um sistema reprodutor hermafrodita e depositando alguns ovos no sofá. O reestabelecimento do contato familiar há muito perdido transtornou minha psyché e fez de mim o maior mass murderer da História; isto contrapontuou com alguma instabilidade meu perfeito equilíbrio pessoal, encontrado nas pequenas coisas do quotidiano. Por exemplo, quanto à disponibilidade de moradias – de fato, grande parte dos hotéis, albergues e agências imobiliárias se recusava a hospedar mass murderers, então passei a dormir numa espelunca, que ficava no oitavo círculo do Inferno, ao lado de uma montanha de cabeças delusórias sob carcaças e vísceras em putrefação, perto da casa de verão da figura papal. “Quando chegam as férias, adoro relaxar no Inferno”, confessara ele à equipe da revista Danação Eterna e Turismo, enquanto explorava os horizontes erógenos do seu corpo com um dildo bioluminescente. O flat no Inferno não era, decerto, um paraíso; eu passava o dia fora, exercendo minhas responsabilidades de mass murderer, mas à noite, recluso, jejuava no fogo até que este consumisse e purgasse as torpes faltas que cometi no decorrer da vida, o que eu achava um pouco incômodo, haja visto atrapalhasse os afazeres da rotina. Comecei a ter enxaquecas; o Dr. Beiersdorf disse que eram provavelmente causadas por stress, e por um wormhole que se instalara no interior do meu cérebro. “Você comeu alguma fenda interdimensional ultimamente?”. “Não. Mas eu comi cereais, ontem”. “Arram”, anotando, “Você come cereais regularmente?”. “Sim”. “Sei. Veja, você sabe que os cereais, por conta de todo esse processamento industrial, eventualmente contêm alguns resíduos perigosos à saúde. Certamente você deve ter ingerido o wormhole por acidente, junto com o leite no prato”. “De fato, agora que você mencionou, lembro de ter visto meu cachorro ser tragado para dentro do meu prato de cereal ao leite, há uns dois meses mais ou menos. A TV, o armário e minha avó também foram, mas achei que estavam apenas tentando se divertir; mergulhar um pouco etc.”. Outra vez ouvi o terno som de confidências apaixonadas; fibrilavam em cadeias saturadas de informação corrompida. Minha tese de mestrado fora devorada por uma horda de antropólogos famintos, mas seus estômagos não apresentavam a enzima necessária para digerir listas de referências bibliográficas. Algumas horas depois, vasculhando suas fezes, pude recuperar essa parte da tese quase intacta - e, numa explosão interestelar, eu estava de volta para lubrificar o biceps de uma auditora fiscal ameaçada de extinção, ao pôr-do-sol em Bahamas, o que reacendeu em mim a paixão pela vida, trazendo de volta minha auto-estima e meu espírito de equipe. Parti numa missão ao espaço com o objetivo de recuperar meu esfíncter anal, enviado na Voyager 1 em 5 de setembro de 1977, para os alienígenas. Fui bem sucedido. Tive enfim algumas horas de paz, após todos esses anos, mas à noite tive que lutar contra os eletrodomésticos do meu apart-hotel que desenvolveram auto-consciência e tentaram me matar – logo perceberam as implicações éticas de sua atitude, e decidiram dedicar a vida ao gipsy, formando uma banda. Aquela foi uma época difícil para mim, e para toda a minha família. Chamei o Holger – meu melhor amigo –, porque precisava desabafar com alguém, e assim contei pra ele toda a história. “É... eu sei como você se sente, cara...”, pondo a mão no meu ombro. “Bem, vamos manter contato”, disse, disparando em seu carro conversível. Alguns dias depois, comecei a vomitar sangue, então o Holger me ligou e, com aquele seu tom folgazão impagável, explicou como me havia pregado essa peça divertida: “Quando toquei no seu ombro, inoculei em sua corrente sangüínea uma toxina que danifica o nervo isquiático no estômago, fazendo com que seus músculos estomacais contraiam em peristalse reversa 24 horas por dia, haha. Dá pra acreditar? Dessa vez eu te peguei, hein?!”. Haha, uma figura.
Agora me escute, comissão de vítimas da demência senil financiada pelo Ministério da Cultura: eu sou o mascote do Abuso Sexual Paterno. Eu vim do Hades para promover a pesca da truta com finalidade auto-erótica. Eu interrompi a hidromassagem, apenas para liberar do julgo tributário a sua síndrome degenerativa da personalidade. Assistia a um documentário sobre espécies ameaçadas, e senti essa intensa pulsão de aniquilar pessoalmente cada espécime do macaco colobo-vermelho-de-miss-waldron; passei a dedicar minha vida a tal propósito. Em pouco tempo, nenhum sobrara na face da Terra. Vendi minha pele ao nosso terapeuta de casais – ele amava vestir sua esposa com a pele dos pacientes durante a cópula –, e à noite, com minhas artérias e músculos expostos, eu e Júlia fomos ao vernissage, onde comemos merdinhas blasé doces e salgadas até uma morte por aneurisma. Que singelas lembranças guardamos daquela noite; o modo como eu sentava no sofá perfeitamente branco e, ao levantar, deixava estampado em sangue o desenho do meu corpo; o sangue que respingava da carne cruenta e nua, sobre o piso, sobre as pessoas; sobre as demais superfícies indefectivelmente puras.
- Podemos concluir, sem exames mais detalhados, que este indivíduo foi acometido por uma grave enfermidade, conhecida como 'estar partido ao meio'; prescreva um tubo de cola, enfermeira.
Compartilhávamos a desfiguração e o interesse pela manipulação de mecanismos sociais em benefício próprio – alguns chamavam de carisma. Eu disse: “vamos sair com amigos para lugares”. Eles disseram: “Adoramos ir a lugares com amigos”.

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