sábado, 15 de março de 2008

Como adquiri imunidade à varíola - Pt. 1



Meu professor de Computabilidade na Unicamp tornara-se uno com o hors-d’œuvre. Ele havia conquistado as paradas de Tóquio com o sucesso “Sushi Man”, baseado em sua experiência traumática com a comida japonesa. “Veja, Daniel. Deixe-me tocá-la para você”, disse, pegando um bandolim:

Sushi man
Sushi man
Does whatever a sushi can

Clic – eu estava levemente entediado com a miséria implacável deste infindo solo. Sob o cáustico sol do deserto, selamos, para sempre, a happy hour; o eternamente fatigante meeting*. Você queria divulgar os prazeres da autofecundação; eu me sentia sexualmente atraído pela sua adgenda. O coordenador do projeto – aquele com a camisa do Megadeath, sua alma contrita em lamento e dor plangente – comera o acepipe. Quando acenou simpaticamente para as almas derrelitas atiradas ao mar revolto em tempestade, tornou-se o acepipe; o cálido quitute uterino. Tornou-se, ele também, uno com a guloseima. Pois aquele era o novo gesto proibido, desde que Orfeu ameaçara processar o rei dos mortos Hades por más condições de trabalho.
Então, adormeço. Tenho sonhos eróticos com um polímero orgânico inexplorado pela indústria bioquímica; acordo e estou na República Tcheca; um cachorro é assassinado por um braço mecânico e, de alguma forma visceral, aquilo faz nascer em mim uma nova compreensão holística da vida. Caminhando pelos becos labirínticos e sombrios da Praça de Praga, encontro um homem terrivelmente trágico, e ele diz que a precisão de sua tragédia pessoal é tal que o Instituto Internacional de Pesos e Medidas cogitou definir o metro, essa fantástica unidade de medida, como o comprimento de sua queda ao tropeçar bêbado diariamente no batente do bar às 3:25 a.m., quando cambaleia de volta para casa. Diz-me que é um ex-cirurgião-destista viúvo; que sua esposa, tragada pelo turbilhão irresistível do sedentarismo e abuso nutricional pós-marital, dilatara até implodir e se tornar um buraco negro, consumindo em seu avassalador vórtex gravitacional a casa e toda a vizinhança; carros, árvores, vacas, crianças, ruas, prédios – dela nada escapara. “Meu amigo, onde você enxerga um fim, eu vejo um recomeço; uma nova oportunidade”, disse-lhe. “Que quer dizer?”. “Você já tentou falar com ela depois do incidente?”. “Não... eu... Eu não sei bem como lidar com corpúsculos de convergência espaço-temporal...”. “Bem, você podia tentar reatar com ela. Só precisa saber falar com jeito. Fale com esse cara, ele sabe tudo sobre buracos negros”. Escrevi o nome ‘Stephen Hawking’ num pedaço de papel. “Obrigado. Como posso agradecer? Deixe-me pagar uma bebida”. “Sim. Tudo bem. Ando precisando de algo melhor que sangue em minhas veias”. Sem conversar seguimos, passo a passo, entre as formigas, vendo as enfermas almas prostradas e incapazes de erguer o corpo lasso. Ouvindo esses ruídos distantes; indiferentes aos chamados suplicantes. O chão trepidava; o ruído e o fluxo distante; as silhuetas fracionadas de fantasmas anônimos acelerando até a colisão, em um sonho indistinto, buzinando espectralmente além da membrana da existência.
Bebemos a noite inteira, numa taverna. Às 3:25 saímos; ele tropeçou. Entoamos velhos cânticos gaélicos, sob o céu nas ruas estreitas, como os sucessos “O que você fez com a minha aspirina?”, “Seus pêlos pubianos danificaram o meu barbeador elétrico”, “Efeitos colaterais da insônia” e “A remoção do meu testículo esquerdo trouxe danos à minha vida conjugal”. Aproximadamente 100 bilhões de estrelas eram o nosso público aquela noite fria e contigencial, naquela instanciação randômica de Praga. Por um momento, compreendi a mania de perseguição de um escritor chamado Franz Kafka. E, quando já fraquejávamos, perdidos numa encruzilhada apenas parcamente iluminada por uma lâmpada fraca que falhava, uma pequena fada madrinha apareceu e, com um passe de mágica, nos imunizou contra a varíola.
Eu me tornei mais e mais consciente dos efeitos nocivos de certas comidas industrializadas. Do excesso de conservantes; do excesso de substâncias cancerígenas. E agora, escolhendo na prateleira do supermercado um produto que ocasione o menor risco à minha vida, sou preenchido por essa sensação de completude; de eternidade. De transcendência. Eu alcancei o nirvana. À noite, recebo uma ligação de Buda. Ele me parabeniza e me convida para a festa de lançamento do seu romance sobre sprays bronzeadores, mas sua mansão é invadida pela máfia siciliana e ele é fuzilado. Sua cabeça, atirada dentro de um vulcão, em rede nacional; seu corpo, doado uma conhecida fábrica de biscoitos. Sua alma, dissolvida em um barril de fezes, suco gástrico, ácido butenodióico, gasolina, escorrência menstrual, ketchup e muco.

Em vão tentara esquecer a convoluta solidão do seu peristaltismo retal. Minha clareza era uma nuvem de ruídos.


* “Oh, eternamente fatigante manto” (Dante).

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