quinta-feira, 27 de março de 2008

Ossos do orifício











Algumas antigas - disque N para neurastenia:

Húmus
Moral predominante
Mulheres bidimensionais
Chewie
Crappy place

Está ouvindo, híbrido de réptil e feto humano?



“Querida, você pôs um híbrido de réptil e feto humano no leite outra vez?”, perguntei. Júlia tentou disfarçar, mas estava claro. “Eu disse um milhão de vezes, amor. Não adianta. Eu posso dizer um milhão de vezes que não gosto, mas é sempre isso”. O híbrido de réptil e feto humano moveu os bracinhos dentro do leite, soltando pequenos suspiros de prazer. Seus bulbosos olhos negros abriram um pouco, então voltaram a semi-cerrar, imersos em tranqüilidade uterina.
“Híbrido de réptil e feto humano, saia do meu copo de leite agora”, ordenei eu, ríspido. Ele chacoalhou e balbuciou uma seqüência desarticulada de fonemas, como um bebê. “Agora. Está ouvindo?”, insisti.
“Está ouvindo, híbrido réptil e feto humano?”.
(Se me permitem tecer um breve comentário, meu problema com híbridos dessa natureza tornou-se pessoal desde que expeli um deles pelo reto e, anos depois, vi na TV este pequeno rebento de minhas entranhas devorar a alma de Ricky Martin, que encontrava-se então absorto em sua missão peregrina pelos Andes, mediante a qual visava descobrir, em seu interior, uma forma de induzir porcos geneticamente manipulados a defecar milkshake).
Lenta e relutantemente, ele escalou a borda do copo e saiu, engatinhando pela mesa, deixando um rastro de leite. Finalmente eu poderia voltar a beber o meu leite em paz.
“Está ouvindo, híbrido de réptil com feto humano?”.



Eu, que sempre sonhei com uma casa vazia, de cômodos brancos, e vazios; uma casa vazia com um grande copo de leite na sala de estar; uma casa na qual eu entraria, emerso da ofuscante luz branca. E caminharia até a sala de estar, e apanharia na sala de estar o copo de leite. Devagar escalaria o copo e submergiria; beberia o leite, uma pausa entre cada gole; então sairia e, ali dentro da minha nova casa vazia, vagaria; de um vão a outro.
Devagar.

Eternamente.

Sim.
Eu. Eu, meu fiel sociólogo soviético positivista. Eu, que sempre sonhei com copos de leite, alheios a estes quantos – oh, tão antiquados – híbridos de réptil e feto humano. Eu, que visito fazendas, pessoalmente, e pessoalmente seleciono as vacas que fornecerão o meu leite. Eu, que as ordenho eu mesmo, as vacas, com estas mãos que deus me deu, ou me valendo de um prático ordenhador automático de bolso – o versátil Milker 3000 –, com o qual premiaram-me pelo primeiro lugar no Campeonato Estadual de Soletração.
Eu, que sou, pessoalmente, uma vaca. Eu que... eu... eu sei... [Silêncio]. E-eu que apenas gostaria de ser uma vaca...
eu que não sou uma vaca realmente. [Silêncio]

[Cruza as pernas. Descruza. A perna treme de ansiedade. Olhos inquietos. Coça o nariz]

Deus, me desculpe, e-eu... Eu sei que não posso...
Eu sei que não posso s-ser uma vaca.

[Encolhe-se. Cruza os braços, como se tolhido por intenso frio]

Mas eu continuarei tentando. [Monta um cavalo, diante de um exército medieval trajando batas cirúrgicas]. Sim, eu continuarei tentando, minha psicopatologia resultante do consumo acidental de resíduos de cádmio extrudido de crateras irrecuperáveis de sedimentos tóxicos de mineração com 2km de diâmetro e 500m de profundidade que não violaram responsabilidades acionistas.
Eu continuarei tentando. [Os soldados apóiam com um urro]. Sim... Sim. Eles podem me ferir. Eles podem me matar. Eles podem até retirar minha pele com um cortador de grama elétrico, costurá-la de volta ao avesso, então me conduzir a uma sessão prolongada de bronzeamento artificial ultravioleta. Mas ninguém pode me impedir de fiscalizar pessoalmente a proveniência – e a adequação da qualidade aos padrões de higiene – do meu leite.
Os soldados neurocirurgiões medievais da cavalaria urraram polidamente, levantando seus fórceps e bisturis, então imergindo em silêncio e em seus afazeres recreativos insatisfatórios envolvendo objetos de escritório. “Eu discordo”, disse um deles, tímido, referindo-se ainda ao discurso, mas ninguém deu-lhe atenção – estavam todos absortos em seus conjuntos de esferas metálicas que transmitem energia mecânica da primeira esfera para a última.
- É tão excitante demonstrar a correção da física newtoniana se aplicada a objetos de tamanho médio – diz um deles, sorrindo.
- O que você está dizendo? – perguntou o cavaleiro medieval neurocirurgião com Pós-Doutorado em Fisioterapia na Oxford University e que estava ao lado, fitando-o sério. - Nós fazemos isso por tédio – informou.
- É, nunca há guerra nenhuma aqui – corroborou outro.
- É tão frustrante...
Os demais concordaram.
- Não tem ninguém aqui a quem nós possamos declarar guerra. Só tem essa merda de grama, para onde se olha.
- Por que não declaramos guerra à grama?
Fizeram silêncio.
- Eles estão em maior número – alguém observou.
Os demais concordaram.
- E os caras da otorrinolaringologia?
- Estão no plantão.
Silêncio.
- E os mórmons?
- Nós já explodimos a Base Mãe Mórmon no Centro da Terra ano passado.
- É, junto com a Grande Mórmon-Rainha. Lembro de ainda ver aquela puta expelindo uma boa centena de ovos mórmons, alguns segundos antes de ser detonada por 5 toneladas de napalm.
- Merda, foi como um momento de iluminação divina. Ver todos aqueles pedacinhos de larvas e ovos mórmon voando pra todo lado. Parecia a porra de um Renoir.
Os demais concordaram.
- Ei, o meu conjunto de esferas metálicas veio com problema. As leis da física não estão funcionando com ele – disse um dos soldados neurocirurgiões medievais da cavalaria, empurrando a primeira esfera repetidamente, e em vão. – Merda, eu vou ter que comprar outro. Já é o terceiro esse mês.
- Por que não declaramos guerra contra aquele pato – sugeriu um deles.
- Mas aquilo é uma pedra.
- Nesse caso será uma vantagem para nós! – observou alguém, entusiástico.
- Não não não, é um pato. Tenho certeza. Olhe – disse o primeiro. - É um pato.
- E-eu não sei... Eu ainda acho que deve ser algum tipo de pedra móvel... – insistiu o segundo.
- Não importa. Vamos declarar guerra àquilo, soldados.
- Hã... sim, sim... ok... sim... vamos... – disseram os outros num burburinho confuso, rumando lentamente em direção ao pato, ou à pedra móvel.

O exército de cavaleiros medievais neurocirurgiões matou o pato e todos retomaram seus afazeres recreativos insatisfatórios envolvendo objetos de escritório.

- Ei, vejam. Era uma pedra disfarçada de pato – observou um deles, alguns minutos depois.

Contudo descobriu-se só em meio à desoladora vastidão montanhosa, e assim decidiu que dali em diante seria um pastor de montanhas, evitando que fugissem em rebanho. À noite, com o olhar perdido na abóbada celeste, compôs para os astros distantes versos idílicos de rara beleza, entoou para a lua doces e bucólicas melodias, e quando já se masturbava para as estrelas, foi subitamente atropelado por uma frota de caminhões. Se eu ao menos tivesse visto o semáforo fechado, disse ele a uma das funcionárias do necrotério, com a qual conversava sobre amenidades enquanto era por ela autopsiado. Sentiram faiscar entre suas almas uma conexão especial, algo mágico na química daquela relação nascente; algo que desabrochava e expandia com o odor de formol. Havia, é certo, um quelque-cheuse de especial na forma como o suco bilial era secretado pelo seu pâncreas quando ela o seccionava cirurgicamente com um bisturi; na forma como ela removia seu pulmão, abria nele alguns buracos e o vestia na cabeça, fingindo ser um ninja, antes de embalar o órgão dentro de um saco plástico para ser conservado no freezer. Foi então que ele tomou a decisão.
“Não”, sussurrou, retendo a mão dela. “Não remova minha próstata ainda, minha doce Estagiária do Setor de Necrópsias. Ela pode ser útil. Sim. Sim, minha amada Estagiária do Setor de Necrópsias, eu quero pedi-la em casamento. Eu quero dar-lhe filhos com essa próstata, dentre outras partes do meu sistema reprodutor. Quero dar-lhe uma bela casa, um belo jardim, um depósito de suplementos alimentares com nova fórmula bioavailable que ofereçam mais proteínas utilizáveis por unidade que os produtos aquém deste padrão-referência, eu quero controlar minhas taxas de colesterol com você, comprar com você revistas trazendo 100 dicas para adicionar variedade à sua rotina (em geral implicando em danos anais) e assim reacender o fogo inicial do nosso relacionamento, quero escolher com você um creme de barbear que produza mais espuma com menos esforço; que seja menos agressivo à pele sensível. Que proporcione um maior frescor pós-barba. Sim, meu pequeno rouxinol necrômano do amor, eu quero aderir com você ao programa de reciclagem e tentar postergar o colapso ecológico global e a completa aniquilação da humanidade, eu quero induzir com você a formação de tumores cerebrais – além de distúrbios nervosos menores – por exposição prolongada a campos eletromagnéticos de eletrodomésticos, e quero planejar com você uma viagem a algum paraíso natural intocado pelo homem, onde possamos descobrir em nós mesmos uma inesperada e profunda compreensão holística da Natureza. Eu quero acumular com você por conseqüência de uma dieta demasiado farta, variada e inadequada aos hábitos alimentares humanos uma placa de resquícios alimentícios em putrefação no duodeno, lentamente liberando toxinas na corrente sangüínea pelo transcurso de nossas vidas. Eu quero que você esteja segurando a minha mão na sala de cirurgia quando meu câncer de testículos decorrente do hábito de deixar o controle remoto próximo às gônadas estiver prestes a ser removido após semanas de quimioterapia inútil, e eu quero ouvir com você os profissionais explicando como instalarão máquinas de glicerina para produzir nuvens etéreas quando nossa filha entrar no palco ao som de “Sail away” de Enya [parte censurada]. Eu quero ver com você na TV a terapeuta explicar que a delinqüência juvenil deve ser encarada como uma patologia, a ser tratada clinicamente. Eu quero esconder de você, dos nossos filhos e dos nossos amigos a minha coleção de DVD’s doentios que constituem um mecanismo de compensação para as baixas mas estáveis taxas de endorfina, dopamina e adrenalina resultantes de doses saturadas de entretenimento insuficiente e de emoções homeopáticas. Eu quero me tornar, com você, dependente de fontes de emoções diluídas e ideais dissolvidos em gotas anestésicas insuficientes para sedar o tédio. Músicas, filmes, livros, tarô, cientologia, cristianismo, Herbalife, frisbee, ginástica aquática, bungee jump, bonsais, iluminação ambiente, pubs, coquetéis, obesidade, documentários, fibras para prevenir hemorróidas, momentos mágicos, divertidos e inesquecíveis, graus moderados de radioatividade - síndrome do túbulo carpal atuações aclamadas dependência toxicológica de barbitúricos, suplementos alimentares - resíduos nocivos à saúde - decorações redundantes doenças cardíacas diabetes e fatores de risco (como colesterol alto e hipertensão), vernissages escritores acadêmicos hashis pequenas epifanias comoções nacionais novas bactérias que adquirem tolerância a antibióticos – um novo espírito empreendedor, um espírito cosmopolita de compreensão mútua – congressos internacionais fichas cadastrais alimentos industrialmente processados formas de combater os radicais livres e previnir o câncer de mama – acepipes; uma preocupação sincera com os problemas globais uma segurança renovada sobre seu valor pessoal, um novo espírito de equipe um novo espírito competitivo novas iniciativas novas amizades inconturbadas – plugs anais home theater rohypnol valium nicotina álcool tryptanol tianeptina, stablon, trazodona, cocaína – sexo casual, perversão, assassinato, suicídio autopromoção novos canais uma vida social ativa problemas domésticos sublimados em vendedores de telemarketing e crianças, programas de recliclagem, consciência política, anti-romantismo mas não pessimismo, efexor, rivotril, olcadil, carbolítio, viagra, anfepramona, desipramina, hormônios tireoidianos, abusos sexuais incestuosos auto-amputação impulsos de violência e vandalismo reprimidos cafés literários galerias de arte museus restaurantes refinados momentos de descontração em ambientes acadêmicos formas de prevenir a menopausa – odorizadores de ambiente – cooper, animal de estimação, bebendo moderadamente – fotos no álbum de família tentativas de se manter atualizado sobre os valores da juventude, pontes de safena, autocompensação sexual, turismo, uma nova e mais sofisticada forma de encarar a vida programas sobre pesca prostitutas os velhos tempos nunca morrem festivais anuais coletâneas sutis momentos de intimidade entre amigos ou amantes mahjong camping praças de alimentação, posturas morais socialmente aceitáveis (não mais os suínos genocidas do passado) ufologia nostalgia xamanismo budismo pacifismo sushi bactericidas, espermicidas, parricidas. Sim, eu quero tudo isso, com você; ao seu lado. Case comigo, Estagiária do Setor de Necrópsias”.
“Mas meu amor você não se está precipitando? Você nem mesmo leu o resultado do meu check up bimestral indicando minhas taxas de colesterol glóbulos brancos cálcio e-”.
“Você tem razão. Assim que você receber os exames, então”. Beijaram-se ardentemente. Com um sorriso cúmplice ele acenou, despedindo-se, enquanto ela fechava o zíper de sua mortalha negra polietilênica e guardava seu cadáver numa gaveta refrigerada do necrotério, a fim de desacelerar o processo de putrefação.

terça-feira, 25 de março de 2008

Relatório resumido da execução orçamentária



Senhores,

de bom grado esqueceria o assunto, entretanto como notei, julgando por esta moda de insinuações que vem sendo freqüentemente associada à tentativa - embora não seja minha intenção aqui a de ser bem ou mal interpretado -, de abreviar, sob pretexto puramente aproximado ou, até mesmo, evidente, e sem (ao menos ao meu ver) uma significância relevante para o âmbito de dicussão proposto neste sentido; ou pelo menos se for aqui ponto pacífico o de que - e escuso seria dizer que não pretendo apelar a circunstância alguma quer mais quer menos consensualmente estabelecida a respeito da presente questão -, ainda sob um ponto de vista imparcial (e reitero minhas sinceras desculpas se não for de fato este o caso) ou pelo menos capaz de não ofuscar por inteiro o sentido que havia inicialmente demonstrado ser, se bem que indispensável, como já antes repetidas vezes se fez notar, uma forma equívoca de associar a este feitio de atitude aquilo que foi anteriormente pormenorizado, mesmo admitindo - e isto pode soar um pouco agressivo, até obsceno para alguns - que, quer o método, quer a maneira ou quer a forma pela qual pretendi (ou ao menos especulei que fosse cabível neste contexto), à parte toda a parafernalha utilizada na quase obsessiva caracterização de algo que não seria exagero apontar como absolutamente rasteiro e exclusivo, sobretudo se tivéssemos que optar entre, por um lado ter a supramencionada qualificação do tópico sob a descrição ou a definição - o que para mim é apenas mais um crime grostesco contra a assunção já pouco cabível de que, despida de sua camada de implicações no meio discursivo referido, não podemos, é claro, determinar o que pode e o que não pode ser assim o critério para a quantificação destas (com o perdão do termo) "partes".

Como está claro, espero, isto em definitivo põe fim à discussão.

Sinceramente,
Daniel.

domingo, 23 de março de 2008

Técnicas de hidroponia





“Sempre me senti mais confortável submerso em líquido amniótico”, disse a Vannini, que vinha comigo no carro pela rua escura. “Realmente foi uma decisão ótima instalar essa piscina com líquido amniótico, Vannini. E eu achei super barato e prático... Você precisa comprar uma. Juro que não consigo viver sem desde que comecei a usar”. Vannini estava comendo um exemplar da Vogue com barbecue, tencionando assimilar a edição por via estomacal e não ocular – decidira transubstanciar-se numa mônada abstrata e infinita de puro fashion. A bebida acabara no banquete de inauguração da nova agência do Itaú Personality, Vannini era o gerente, eu e ele fomos então pegar mais no meu estoque particular, Pink Flag do Wire tocando no LCD – não tendo conseguido abrir a porta da minha casa, atirei a chave no asfalto gelado, por sorte Vannini trouxera uma “bebida chilena” que utilizamos para explodir a porta (basicamente atiramos a garrafa contra ela e voamos alguns metros para trás com a explosão).
“QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ BEBE?”, perquiri, mas Vannini estava obstinado em introduzir o plug dos fones de ouvido do meu Ipod no slot de saída de um cachorro, aparentemente para auscutar suas atividades gastrointestinais com fins clínicos ou – seria possível? – recreacionais. Entrei em casa e um cara saiu de trás do sofá atirando e gritando “saia daqui, seu filho de uma puta”. Balas vindo de todo lado repletas de vibrações severamente macabras – corri até Vannini, que agora estava agachado auscutando o asfalto, e expliquei que um mass murderer psicótico invadira minha casa e não poderíamos pegar portanto as bebidas até que ele fosse embora, a menos que ainda tivéssemos uma garrafa da “bebida chilena” – a qual Vannini atirou pelo buraco da explosão anterior; ótimo, Vannini, você matou uma família – disse-lhe, vendo algumas pessoas mortas na sala. Logo percebi que havia confundido aquela casa com a minha – “por isso a porta não estava abrindo”, comentei, enquanto estávamos no carro indo para a minha verdadeira casa, Vannini no celular orientando um de seus subgerentes a pesquisar tudo o que pudesse sobre técnicas de hidroponia, segundo me disse pretendia aplicá-las ao cultivo de costeletas – o Vannini é mesmo impagável, ha ha, sempre obrigando seus empregados a executar essas tarefas totalmente absurdas e colossais às 3 da madrugada, e tinha agora um outro cara em minha casa, um limpador de telefones hermafrodita que advogava um approach terrorista do ramo. Astrid Stilberg exibiu a lingerie com dinamites sob a blusa da coleção de verão da Huis Clos – ficamos maravilhados ao perceber o toque incomparável de silk organza sintético com franjas indianas e bordados de índios cherokees, com uma pitada irreverente de gabardine – e ameaçou explodir a vizinhança se o(a) impedíssemos de limpar o telefone, então pegamos as bebidas e demos no pé.
“A identidade sexual está morta”, disse Marianne Barradas, esposa de Vaninni, dentista e colunista de uma revista de culinária. A mansão deles tinha um estilo bem minimalista, tudo branco e móveis pretos com um design simples mas sofisticado, meio less is more – um charme fronzoniano, quase poético, que só podia me deixar seriamente apaixonado. Enquanto bebia uma taça de Benedictine e conversava com Marianne sobre aquela gestalt superflat que ela tinha alcançado na decoração, uma bela e elegante senhorita loira sorria para mim o tempo todo. Comentei com Marianne Barradas:

– O padrão crômico dela parece ser o apocematismo – referindo-me ao padrão de cores que alguns animais usam para denotar que são venenosos – Mas acho que não pôde resistir e foi infectada pelo meu retrovírus pandêmico da sensualidade. Uma infecção que... – fitei seriamente seus olhos – pode ser letal.

Na verdade, explicou Barradas, o sorriso constante da supramencionada senhorita decorria das imoderadas doses de botox que consumia, não sem histérica voracidade. Com efeito, determinado momento da fiesta, enquanto conversávamos ao lado da piscina sobre a taxa de testosterona necessária para fazer brotar um pênis na testa, vi minha misteriosa e sedutora loira usando uma enorme seringa para inocular alguns mililitros de botox nas têmporas, e ao longo da noite algumas gotas da substância às vezes esguichavam pelo furo epidérmico que a seringa deixara – e para não desperdiçar nada Lady Botox aparava-as com o cálice de champagne, realizando manobras extremamente ágeis. Então lá para as tantas o irreverente teatrólogo Paulo Hoepker apareceu às escondidas e tentou pregar uma peça em Vannini, seu amigo de infância (agora desmaiado numa jangada que havia comprado recentemente, com o propósito de “encontrar um novo caminho para a outra margem da piscina”, conforme esclarecera naquele seu tom impagável) e a brincadeira consistia basicamente em injetar uma neurotoxina seletiva no complexo B-Bötzinger – uma pequena região do tronco cerebral de ratos, essencial à respiração – do cérebro de Vannini, destruindo neurônios específicos e acelerando o desenvolvimento de problemas respiratórios – primeiro no sono REM, em seguida no sono não-REM e posteriormente na vigília – e é claro que todos rimos um bocado com aquela idéia mirabolante do Paulo; ele é mesmo a alma de qualquer festa – e de fato alguns dias depois o Vannini começou a reclamar de problemas respiratórios, sem entender por que todo mundo ria quando ele mencionava o assunto, ha ha; uma comédia.
Continuamos conversando sobre o último lançamento de Deus, o Novo Testamento, e eu notei que um certo jovem – Luciano Romero, crítico de música alternativa, disseram – passou a noite inteira numa mesma posição, como se estivesse em pause, e o que de início pareceu uma invejável tranqüilidade decorrente de sua extrema confiança em meios sociais foi a posteriori esclarecido como resultado da ingestão acidental da champagne na taça de Lady Botox, minha misteriosa senhorita de sorriso perpétuo. Eu tive essa visão; o fim do universo, galáxias em colapso – mas aquele sorriso sobrevivendo intacto, implacável como uma muralha de titânio. Uma equipe da SWAT invadiu a casa e começou a fuzilar os convidados; eu utilizei o corpo de Luciano Romero como escudo, no qual as balas ricocheteavam zunindo. Após o incidente, entrei numa fase de depressão que durou meses, e meu cabelo não foi mais o mesmo. A fibra e o colágeno estavam lá, mas o brilho, a maciez; o tônus; eram agora para mim como propriedades capilares de um estranho. Certa noite então, peguei o metrô e desci num lugar ermo. Fugia de uma multidão histérica de crianças hidrofóbicas e cachorros hidrofóbicos pelas ruas do bairro de classe média em São Paulo, sob a pupila opressiva de um holofote central – um sol tão desconhecido para mim. Desci a escadaria escura do velho edifício-motel-pousada Jardim do Éden nos arredores da rodoviária; Adão e Eva, parece, eram as duas ratazanas que dividiam o aposento comigo – e as quais não haviam apenas sucumbido à fruta proibida, como também a vários outros gêneros alimentícios proibidos no meu armário (ainda assim não foram banidas). Só posso supor que Deus era a barata que aparecia por lá quando em vez para menear a cabeça em desaprovação à minha existência. Eu tentara repelir o síndico mediante um crucifixo e esguichos de água-benta-gaseificada com Tang silvestre (colhido por camponesas suíças), se bem que não fosse ele um vampiro, como depois constatei decepcionado, e apenas porque disse-mo explicitamente; de todo modo o Tang silvestre com água benta gaseificada estava divino – evacuei assim o dormitório, que era um cubículo sufocante com paredes cinza-esverdeadas constituídas de bolor gelatinoso; havia um edredon petrificado sob uma crosta de esperma, um aquecedor (para intensificar o calor já suficientemente implausível), uma Bíblia mórmon e uma TV 14 polegadas para sintonizar bolhas amorfas de chuvisco e bestas deformadas vagamente humanas, que falavam alguma língua grotesca e supersaturada de ruídos tóxicos cloacal-tartamudeantes, entrecortados, cuspidos pelo que a mim pareciam válvulas supuradas protagonizando algum romance truffautiano. A máquina de caça-níqueis tocou uma musiquinha analógica e eu perdi minha moeda. Comprei uma cerveja – uns bêbados conversando numa mesa. Os bares nas proximidades da rodoviária. Neón de motéis vagabundos telefones públicos, desfigurados por abscessos (sob um poste flácido na esquina) – constatei uma rede de nervos saindo do orelhão pela calçada até um par de sapatos, de onde brotou uma cabeça bêbada que tentava disfarçar angústia [amarelo sintético] com uma gargalhada – um buraco negro na esquina. Digito os números no telefone, fazendo uma musiquinha com os tons de cada tecla. Eu sou o Kraftwerk.
“Só entendo uma língua, meu amigo. E essa língua só tem uma palavra. Começa com 10”, diz o cara da espelunca, “termina com 000”. “Qual o seu problema? Eu só quero esse mini-game, cara. Eu não sei o que você tá falando”. “A nova palavra começa com 0,00 e termina com 1”, “Eu não tenho nenhuma moeda menor que 1 centavo”. Cambaleio por uma ruas de bolor esverdeado, sempre absorto no mini-game. Injeto uma ampola de penicilina num cachorro morto no asfalto – a reação antibiótica em cadeia desfaz as paredes de um motel ao lado. Vejo contaminar algumas estruturas etílicas – risadas anônimas. Coisas dissolvem lentamente ao redor da rodoviária, ouço a buzina distante de um ônibus – um uivo na selva pré-cenozóica –, prossigo desviando de algumas peças de tetris que se empilham à frente num beco pulsando macabras e indecifráveis freqüências extraterrenas subsônicas de até 4.500 c.p.s. Mais tarde àquela noite, de volta ao Jardim do Éden, escrevi no diário: “Suspeito estar numa placa de pétri. Podem as bactérias delirar?”.

Dia seguinte à tarde, caminhando por um rua deserta, à sombra dos edifícios, avistei pelo vão entre dois prédios um focinho gigante de rato pairando sobre a cidade e me ocultei atrás da parede, assombrado. Outra vez olhei, discretamente – o focinho continuava lá, contraposto ao céu vazio. Fungava perversamente.

sábado, 22 de março de 2008

Tacuinum sanitatis



Em lenta procissão marchavam as almas frementes - seus cheese-burgers dietéticos atomicamente instáveis atingem o limiar da fusão - entre ruínas colossais de impérios esquecidos; banhados pela chuva cáustica que, clemente, amenizava distúrbios causados pela menopausa. Eu sonhava com a máxima distensão da região abdominal. Erguera-se assim do Vazio, em esplendor sildefanílico, tonitruante como a disfunção erétil do sexagenário, o Verbo súpero; a revoada antioxidante de floras intestinais indefectivelmente reguladas – havia escuridão; postos de gasolina – as faces em chama, apagadas, viram renascer o Monstro Antediluviano, emerso do oceano de reputações impolutas; de incontinências parcialmente diagnosticadas.
Sua irmã era um Power Ranger vitimado pela esclerose. Seu pai, apicultor. Ambos estrelaram o drama baseado em fatos reais sobre dois escritores neoclássicos que perderam os quatro membros na Primeira Guerra, e que, sem cadeiras de roda, atravessaram o país para entregar ao poeta americano T. S. Eliot duas fichas cadastrais, contendo a data da invasão alienígena codificada numa mancha de barbecue – comovendo assim a nação, que os estriparia casualmente. - Não é tarde demais – disse. – Não é tarde demais para compartilharmos nossas próteses fálicas; nós teríamos uma conexão única. Só assim talvez, penso, haveria entre nós intimidade suficiente para a indução mútua da emesis bulímica – confessou, no programa de auditório, ao grupo de dançarinas bulímicas.
Eu havia encontrado na bulimia uma nova maneira de expressar quem sou por dentro. Um dos pontos mais emocionantes da cerimônia foi quando Iza entrou com o noivo cantando uma versão, escrita por ele, da canção 'No Meu Coração Para Sempre Vai Estar', tema da animação do filme Tarzan. Nesse momento Maurício não se conteve e foi às lágrimas. Falhas no protocolo de comunicação desestruturavam a brisa fria da manhã, quando minha alma foi inundada pela súbita necessidade de otimizar meu ambiente coorporativo; seus olhos distantes escondiam tristeza e indiferença.


(Ah, pois é. Passarei a postar alguns desses meus desenhos, como quasi-ilustrações. Não é *fantástico*?)

quinta-feira, 20 de março de 2008

Port decode error detector



Pintando o apartamento com meus filhos e minha esposa, espalhando pela parede a tinta branca com asbestos que emitiam graus moderados de radioatividade, matando-nos lentamente, eu sentia uma conexão especial e autêntica entre nós. Eu compreendi a importância de uma visita turística à Ilha de Páscoa, onde fomos então passar as férias. Júlia ficou apaixonada pelos monolitos e queria levar um para casa como souvenir, mas eu e as crianças queríamos um aborígine. Acabamos vencendo, e levamos o aborígine de estimação, que comeu sushi junto com todos nós numa praça de alimentação em Montreal – um dos nossos filhos morreu intoxicado pelo peixe, mas por acaso tínhamos dois (e dois filhos, também).
Tivemos momentos divertidos e inesquecíveis. Por exemplo na Disneylândia, quando o aborígine da Ilha de Páscoa comeu uma criança viva e matou o Pateta com uma lança envenenada. Mediante pictogramas rústicos, nos disse que aquele era um demônio milenar enviado pelo Deus Vulcão para modificar permanentemente a playlist do seu iPod – viu-se assim obrigado a matá-lo, contou, mas nós explicamos que era apenas um homem fantasiado, então voltamos para casa e assamos numa fogueira o aborígine da Ilha de Páscoa, realizando um estranho ritual canibalístico para esconjurar os espíritos satânicos do microondas, e isso fez com que compreendêssemos a importância de manter acesos os sonhos e a fantasia em nossas vidas. "Vamos, me mostre as crianças”, disse a minha Orientadora em Diplomacia Solipsista, “Onde estão as minhas crianças? Eu trouxe um produto novo”, disse, batendo no equipamento de dedetização e descendo uma escadaria, que conduzia ao porão da minha casa. “Abandonei o lança-chamas”, confessou, afetando profunda e pungente melancolia nostálgica no olhar. “Onde estão as minhas crianças?”, perguntou, ansiosa.

Seu ramo de especialização: baratas.
Seu método: o terror.
A tortura psicológica.

Ela moía mentes num moedor de carne. Num apontador automático de lápis.
Ela era uma guilhotina de mentes.
Ela as triturava.

Nas horas seguintes, a minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista confinou as baratas da minha casa em celas claustrofóbicas; aprisionou-as em pequenos instrumentos medievais de tortura, enquanto abusava sexualmente de suas esposas e filhas e ao mesmo tempo recitava trechos do Mundo como Vontade e Representação de Schoppenhauer.
Minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista descrevia-lhes o modo como suas existências repulsivas eram grãos de poeira vagando cega e gratuitamente por um tubo endoscópico de tédio e dor, até serem succionadas num vórtex de dejetos autobiográficos para o vácuo, então apagadas. Anuladas. Evacuadas.

Minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista as consolava, às suas crianças, até que começassem a crer que podiam encontrar nela uma verdadeira amiga. Confessavam seus segredos mais íntimos, apenas para ser escarradas em seguida. Após 10 horas, seus egos implodiam num estado de catatonia hebefrênica irreversível. As baratas tornavam-se incapacitadas para qualquer tipo de convivência em sociedade, portanto nem tantas se matavam, percebendo as grandes melhorias em qualidade de vida implicadas; a maioria se tornava assistente social, para quem a morte seria redundante. Eu disse adeus e entrei no meu caça Stealth, estacionado na garagem desde que acidentalmente explodi meu hovercraft quando tentava detonar o cachorro do vizinho com um lança-mísseis que costumo usar para regar as plantas. Decolei verticalmente. Eu havia sido premiado com tickets para o Congresso Internacional de Delirium Tremens por responder corretamente a uma dentre as três seguintes perguntas:
“Quantas adenóides são necessárias para construir uma reprodução exata do Titanic em adenóides?”,
“Quantos átomos tinha o universo quando Bruce Lee atuou em ‘Operação Dragão’?” e “Coisas grandes são maiores que coisas pequenas?”.
Realizando o experimento empiricamente, comprovei que são necessárias tantas adenóides quantos são os casos de morte no Japão por tentativas frustradas de enlarguecimento de pênis, e assim ganhei o ticket. O misterioso agente da Fear Co. que entregou-me os tickets numa rua úmida e escura de Leeds, sob o amarelo opaco do poste de luz, havia feito uma cirurgia plástica que o deixara perfeitamente idêntico a James Stewart, contudo incapaz de movimentos faciais – o que lhe conferia a constante expressão de estar vendo Kim Novak cair da torre em “Um Corpo que Cai”. Um misto de pasmo e terror súbito, mas não excessivo. Um terror educado. Jovial. Um terror carismático.
“Agora eu tenho que partir e seguir com minha vida, meu amigo”, disse-me, pousando a mão em meu ombro. Flagrei em seu rosto uma lágrima – uma lágrima de terror, ao ver Kim Novak cair da torre.
O agente secreto da Fear Co. entregador de tickets saiu andando, calmamente, dissolvendo-se nas sombras da cidade, como uma misteriosa pastilha efervescente para gripe. Lembro que voltou-se uma vez, e talvez eu esteja enganado, mas estimo ter visto em seu rosto uma expressão de terror. Então entrou em combustão espontânea e alguns ursinhos gummie apareceram para chutar seu cadáver carbonizado.
A discordante massa ressoa, num vibrar morno e confuso.
Aterrissei o meu caça Stealth na vaga para portadores de distúrbios mentais caracterizados por depressão em grau variável, sensação de incapacidade, perda de interesse pela vida e possibilidade de evolução para um quadro de ansiedade, insônia, tendência ao suicídio e, eventualmente, delírio de auto-acusação. A cerimônia de abertura do Congresso Internacional de Delirium Tremens iniciou-se com as cheerleaders. Um clima de amizade e profunda satisfação pessoal permeava o auditório enquanto as galinhas trazidas por um imigrante mexicano as devoravam – às cheerleaders – e depois a si próprias.
Todos ficamos apaixonados pelas galinhas assassinas autofágicas do México, apesar de não mais existirem – um preço ínfimo pelo charme irresistível da autofagia. “Yo no supe que ellos eran los pollos carnívoros”, disse o imigrante mexicano, com um sorriso, esquivando-se dos tiros disparados por uma guerrilha de traficantes. “Puxa! Nunca me divirto tanto quanto no Congresso Internacional de Delirium Tremens”, pensei comigo; velhinhos espasmódicos catatônicos sentados ao meu redor na platéia, inebriados no selvagem, excitante, louco afã do Parkinson. Os custos para organizar o Congresso foram extremamente baixos, dado que todos os palestrantes eram alucinações e assim nada cobraram pelas palestras - nem mesmo precisaram ser acomodados no Copacabana Palace com vista para a célebre praia de Copacabana. Logo de início fiz amizade com um grupo de homúnculos delusórios de 10 cm que decidiram não bombear minha medula para fora da coluna vertebral à noite enquanto eu estivesse dormindo, visto que houvessem julgado - ipsissima verba - 'pertinente e deliciosamente descontraída' uma das observações que fiz durante a fala de um palestrante – ele, um distúrbio dissociativo da identidade, personificado num multiprocessador de alimentos que ministrou uma palestra intitulada "O Rationale do Niilismo", consistindo nos seguintes murmúrios randômicos:

Burritos. Burritos. Burritos calientes.

Ocuparam toda uma hora, mas creio ter compreendido a essência. O Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, interrompeu a primeira sessão de palestras e convidou-nos a todos para o coffee break. Saltando em seu pescoço, derrubando-a, abrindo-lhe o ventre com os dentes e arrancando-lhe os intestinos, o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sacrificou a vaca que estava perambulando pelo auditório desde a cerimônia de abertura - quando do trágico incidente envolvendo as cheerleaders. “Você não acha que ela pode acabar se ferindo?”, perguntei. Ele jogou a vaca sobre a mesa dos acepipes. Esquivei-me habilmente do jato de sangue que jorrava do ventre do animal. “Meu lado clássico-romântico. STURM UND DRANG, BITCH! Vamos, sirvam-se, senhores”, disse o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sorrindo de forma amigável. “Nada como um bom e suculento pedaço de entranhas bovinas ensanguentadas com chá... Oh, espero que os senhores perdoem-nos a falta de salgados e cubos de queijo com salame hoje”, acrescentou, mastigando um pedaço de fígado. Era útil ter um lugar como aquele, pensei, que era ao mesmo tempo um auditóro e um pasto, onde se praticava a pecuária extensiva. Um velho senhor mirava assombrado o cadáver do animal sobre a mesa. “Acho que está dormindo”, confidenciou-me, furtivamente. “Acho que sim”, disse-lhe.
“Eu emprestaria o meu despertador, mas o comi”, disse ele. Aquiesci com a cabeça.
“Eu estava com muita fome e tive que fervê-lo”, disse. “De todo modo, ele veio quebrado. Marcava 12 horas, das 24, você me entende? Acredita nisso? Realmente um pedaço de merda inútil...”, desabafou. “Eu levei pro conserto, mas o relojoeiro disse que não tinha jeito. ‘Não tem jeito mesmo’, ele disse. Ele é um jovem direito... Falou pra eu diminuir meus dias pela metade, acredita?, que esse era o único jeito. Ele é um bom menino, apesar de ser homossexual”, disse, recordando os idos de antanho. “Ele é também um molestador foragido. Eu fiz o que o ele me falou, mas minha rotina ficou corrida demais com esses dias mais estreitos – sabe o que eu estou lhe dizendo, não é? Ou eu faço tudo duas vezes mais rápido, ou eu faço tudo pela metade. Você está me acompanhando? Na minha idade isso é muito difícil... não tenho mais o vigor da juventude. Me canso muito rápido agora... Assim é a vida. Realmente uma época difícil... Realmente difícil... Sempre resfolegando como um cachorro ou... como um piolho puxando uma carroça”.
Concordei, terminando de comer meu pedaço de carne bovina ensanguentada com chá, guardando os restos na bolsa.
Aceitei um copo d’água oferecido pelo Sr. Pasolini, numa garrafa térmica vermelha.
“Soube que o senhor tem realizado pesquisas fascinantes na área do delirium tremens, Sr...?”, perguntou-me. “Oh. Não. Por que acha isso?”, “Muito interessante. Realmente. Veja”, disse, atirando um pedaço de carne ensanguentada na parede. “Haha, não é curioso? Não é curioso como fica colado? Você deveria pesquisar isso”, disse-me. “Bem, creio que todos estejamos saciados”, disse aos convidados. “Agora, senhores, vamos explodir essa merda toda aqui”. Riu simpaticamente e atirou uma taça com champagne no rosto de um homem velho e coxo. “Você já conheceu o nosso banheiro?”, perguntou-me. “Sylvia, você não apresentou o banheiro ao nosso convidado? Oh, você vai ficar encantado. Vamos, venha. Permita-me conduzi-lo, senhor”.

O banheiro do meu anfitrião era mesmo deslumbrante. Um verdadeiro luxo. Um lugar tão sui-generis que mal pude disfarçar meu pequeno grito de assombro. “Parece que os ecos de outrora ainda estão no nada imersos”, disse o Sr. Pasolini, olhando para dentro de um vaso sanitário e puxando a descarga, então submergindo no vaso a garrafa térmica vermelha para preenchê-la, tapando-a depois. “Senhores, conheçam o nosso novo banheiro. Não é maravilhoso?”, disse-nos, sorrindo. “Estou apoplético, Sr. Pasolini. É simplesmente uma sensação”, confessei. “Haha, esplêndido, esplêndido. Fiquem à vontade, por favor. Desfrutem as taxas bacterianas quase nulas e o desconsiderável nível de coliformes”, completou – e, com efeito, pude comprovar sua afirmação com o meu Medidor Digital de Bolso de Taxas Bacterianas e Coliformes Fecais, o qual sempre carrego comigo, tendo-o recebido como herança de meu avô em seu leito de morte. “As taxas de bactérias e coliformes fecais são adoráveis, Sr. Pasolini. Como você consegue mantê-las?”, perguntei. “É tudo produto do trabalho árduo dos meus Gnomos Esterilizadores de Ambientes. Os coprolimpas”, disse o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, enquanto vários coprolimpas saíam de suas tocas dançando e cantando ao nosso redor. “Haha. É um mundo cheio de magia”, exclamou o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sorrindo e dançando, e acidentalmente esmagando alguns coprolimpas. “Tudo aqui é comestível. As torneiras, as paredes, os vasos...”, disse nosso excêntrico anfitrião. Um velho e fremente senhor mordeu um vaso sanitário por algum tempo, conquanto não tenha sido capaz de degluti-lo. “Oh... então não são comestíveis”, disse o Sr. Pasolini, esmagando acidentalmente um outro coprolimpa. “Não se preocupem, esses pequenos vermes são uma praga fodida”, explicou, pisoteando brutalmente vários desses curiosos gnomos de 15 cm, que em vão corriam, desesperados. “Reproduzem-se como baratas. MORRAM! MORRAM SEUS MALDITOS VERMES! NÃO VAI SOBRAR NENHUM DE VOCÊS, SEUS MERDINHAS, EU VOU ESMAGAR TODOS! EU VOU ESMAGAR TODOS VOCÊS! DESGRAÇADOS! DESGRAÇADOS! MORRAM! MORRAM! MORRAM!”, gritava o Sr. Pasolini, pisoteando-os. “Bem, senhores... retomemos nossos afazeres”, disse, e uma pedra acertou minha cabeça. Conforme observei, a pedra havia sido atirada pela família de exilados de guerra albaneses, que estava apinhada no canto do banheiro desde que entramos. “Oh, é a minha família de exilados albaneses de estimação. Eles estão morando aqui no banheiro”, explicou o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional. “FAMÍLIA DE EXILADOS ALBANESES, PARE COM ISSO!”, gritou ele, açoitando-os com um chicote. “O QUE EU DISSE SOBRE JOGAR PEDRAS NAS VISITAS? QUEREM QUE EU MANDE VOCÊS DE VOLTA PARA A ALBÂNIA?”, completou, desferindo ainda outras chicotadas na amedrontada e suplicante família. “Merda, preciso de uma carreira”, declarou, deixando o chicote cair no chão. “Argh! O... o meu coração! Merda...”, gemeu, ofegante, a se contorcer, agarrando o peito e retirando com mãos trêmulas um frasco de pílulas do bolso. Engoliu várias. “OK, já me sinto novo em folha. Alguém conhece algum puteiro próximo daqui? OH DEUS, POR QUE FAÇO ESSAS COISAS?”, lamentou-se, caindo de joelhos no chão, em prantos. “Eu sou um cretino... eu... eu não queria ser assim...”, continuou, chorando. “Mas tenho me sentido tão sozinho... Deus, eu não consigo suportar toda essa solidão...”. O Sr. Pasolini desmoronou em soluços, engasgos e convulsões. “E-eu... eu não era assim. Eu tinha amigos... mas desde que fui acometido pela calvície, me tornei inseguro demais para fazer novas amizades, e... eu...”. Parou. “Não. Isso não importa. Eu posso ser alguém melhor. Eu sei que, no fundo, eu, e todas as almas neste planeta fantasmagórico e insano à deriva no vazio, nada sou senão essa criança triste e solitária, clamando por resgate. E a partir de agora, dedicarei minha vida a resgatar estas crianças sufocadas, asfixiadas; esses tristes fetos sepultados vivos dentro de todos nós. Dedicarei minha vida... a ajudar... pessoas”.
Contudo, quando caminhava pelas ruas sombrias da cidade àquela noite, o Sr. Pasolini foi atacado por uma selvagem horda de crianças que o estriparam e devoraram, num insólito e macabro ritual canibalístico.
(O que, de todo, modo foi tomado como um evento absolutamente irrelevante após a descoberta, divulgada por uma equipe de astrônomos àquela mesma noite, de que somos todos hologramas, e as estrelas são projetores, projetando nossas vidas na face da Terra).

quarta-feira, 19 de março de 2008

Travessuras exóticas com o pequeno Lama



A incrível hospitalidade turca era uma experiência inesquecível; assim que entrei na mansão dos Lama, um dos criados ofereceu-se para transferir o conteúdo digestivo do meu estômago para o seu, de modo que eu não tivesse qualquer esforço desnecessário digerindo minha comida. “Quando eu terminar de digerir, devolvo para que o senhor absorva os nutrientes”, disse, e abriu a boca, como um pequeno e ávido pintassilgo australiano, num documentário do Discovery Channel.
“A Patagônia foi uma experiência traumatizante para mim”, disse o Dalai Lama, superstar do Dharma, rebatendo a bola de ping-pong. “Nunca tive muito saco pra essa bobagem de diferenças culturais”, continuou. Errei a tacada. “Eu não sabia, mas todos os habitantes da Patagônia são peixes terrestres. Você sabia? Eu não sabia. Certo, até aí tudo bem. Mas eles continuavam insistindo que eu os pescasse. ‘Ei, atire uma isca! Haha’, diziam, ‘Cara, isso vai ser o máximo! OK, vai. Pode mandar!’, diziam, e você pode vir aqui e me dizer que isso é uma pequena diferença cultural, querido, mas eu digo que isso é uma completa falta de tato; de senso do ridículo”. Fiz meu décimo ponto. “Espere. Espere um momento, Dalai Lama”, disse-lhe, fechando sua boca com o indicador. “Você sabe que eu o respeito. Não só enquanto instanciação terrena da Unicidade Absoluta... mas também como um parceiro sexual passivo imunizado contra diversas enfermidades venéreas, e com uma estranha compulsão para a lavagem anal. Mas antes de continuar esse jogo, vamos estabelecer uma coisa. A mim cabe o ping. A você cabe o pong”. Embora seu talento para o pompoarismo anal tivesse cativado o mundo e mimado seu ego, Dalai, a contragosto, aceitou minhas condições estritas, e concentrou seus poderes cósmicos para controlar a propagação do som de nossas raquetes, de modo que a minha apenas fizesse ‘ping’ – e a sua, ‘pong’. Suas tentativas malograram lamentavelmente; desde que interrompera seu tratamento com a nova tecnologia da bioestimulação, aderindo à homeopatia, seus poderes vinham minguando a olhos vistos; sua unicidade com o Todo, degenerando. Há três semanas o Todo não dava um telefonema, confidenciou-me ontem aquele mundialmente renomado monge; da última vez que se viram, foi tratado como um trapo. “Quando eu esquecia de fazer o jantar, ele me batia”, confessou, incapaz de conter as lágrimas. “Calma, meu doce e travesso missionário do Dharma”, eu disse, “Não chore. Tome essa solução de botox. Irá atrofiar suas glândulas lacrimais”. Agora, seus poderes sequer bastavam para modificar a propagação sonora produzida pelo impacto da bola em nossas raquetes. Com o tempo, a cadeia de recorrência dessas pequenas desilusões induziu em sua psyché um nivelamento de expectativas a respeito do mundo, implicando uma trivialização da realidade, um ressecamento da derme e banimento em certos clubes de camping. Sua imagem pública fora irreversivelmente danificada; seu ego, completamente anulado – a nova tendência de inverno em Las Vegas.
O que ouvi meses depois foi que ele havia sido raptado pela insigne estrela do mundo simiiforme, King Kong, e levado para o topo de um sky-scraper, onde teria dito ao grande símio: “Eu concordo em iniciarmos esse relacionamento, mas apenas se você usar lubrificante”. A julgar pelo boato, vinham desfrutando uma relação estável, sem solavancos; como a iluminação difusa em um ambiente perfeitamente branco; como musak preenchendo a atmosfera – um ectoplasma distante. Spray odorizador, envenenando lentamente.
"Até que seus cartões coorporativos sejam apreendidos", disse o padre no casamento.
Quando voltei da turquia, meu traseiro internacionalmente premiado estava em todos os outdoors; os sorvetes dietéticos eram ainda melhores que os não-dietéticos; meus filhos correram em câmera lenta para me abraçar, numa nuvem branca sedativa, que fagocitava a Terra.

terça-feira, 18 de março de 2008

Ruído branco



Eu me masturbava para o meu portfólio, no Iraque, quando entendi o significado de compromisso. Eu caminhei sobre cadáveres nas ruas de um subúrbio americano, quando o sol era um holofote; prossegui até a unidade Panzer, abandonada em sua frugalidade outonal. Eu entrei na unidade Panzer. Enquanto detonava o maior Monumento à Cultura Olmeca do mundo, senti nascer outra vez em mim a humanidade há tanto esquecida – e ainda assim, tão acionisticamente regulamentável. Eu era uma consciência dissolvida nas ondas de fantasmagoria satélica.
As garantias explícitas dessas obrigações contratuais me extasiavam. Minha mente foi inundada por ruído branco.

Certo dia de primavera, após levar a cabo meu experimento de ouvir 1000 vezes seguidas toda a discografia de Barbra Streissand, um estranho fenômeno instanciou-se em meu mesencéfalo: um padrão anômalo de ondas cerebrais, registradas pelo encefalograma que ganhei da minha mãe no meu quinto aniversário. O padrão formava uma imagem; a efígie realisticamente exata de Sean Connery com um cachimbo, repousando numa rede. Logo percebi que meu cérebro era agora capaz de sintonizar todas as freqüências satélicas ao mesmo tempo, de modo que minha cabeça foi subitamente inundada por essa brutal avalanche de informações; todos os programas de tv, todas as transmissões terrestres convergiam a um só turno para dentro da minha cabeça, que era agora uma pequena lâmpada sobrecarregada; recebendo, num átimo, toda a descarga de todas as usinas elétricas. Me aproximei do espelho, e um grave déficit de atenção impedia que eu reconhecesse minha imagem refletida. “Quem é você?!”, gritei. “Saia do meu apartamento! Eu vou chamar a polícia!”.
Deambulei esquizoidemente pelas ruas vazias da vizinhança, lambendo vitrines, esbarrando em paredes, fugindo apavorado de agentes secretos em cada esquina, sonhando com estilos de vida; minha mente esgazeada num nevoeiro lúbrico; minha personalidade derretendo como um fuzível sob alta tensão. “Uau. Isso é fantástico”, disse com meus botões. Nos dias seguintes cometi vários homicídios randômicos, e compreendi que se não tomasse uma atitude, seria preso. “Merda, eu terei que extrair o meu cérebro”.
“Pronto”, disse o Dr. Ciência, submergindo meu encéfalo num líquido amarelado dentro de um frasco. “Obrigado, Dr. Ciência. Agora sem o meu cérebro me sinto bem melhor”. “Excelente. Sorvamos na fonte do Lete o olvido das misérias desta vida. O próximo passo é ver o que acontece ao seu cérebro se atirado de um avião – embora, honestamente, eu preferisse utilizá-lo para fins canibalísticos”. “Eu entendo, e quero que saiba que você tem o meu total consentimento; você sabe o quanto-”. “Excelente. Há algo, entretanto, que lhe preciso confessar. Nunca antes confiei isso a alguém. Você sabe que sou um zumbi, não é?”, disse o Dr. Ciência. “Por isso preciso me alimentar de cérebros”. “Mesmo? Oh, isso... Isso é sensacional. Seria indiscrição perguntar como veio a falecer?”. “Não, claro que não. Foi uma infecção urinária. Eu segurei a urina por um período excessivo, durante uma reunião acadêmica”. Na TV, um senhor com suspensórios surgia num jardim vicejante, num clima de terna felicidade doméstica. “Cercado de objetos desintegrados e hostis?”, dizia, “Cansado de agressões verbais da família? De ser molestado pelo seu pai ou irmão? É hora de dar um trato nesses desgraçados. Com o novo Family Crusher 5000, da Fear Co., seus problemas pessoais e familiares estão resolvidos. Muito mais que um machado, o Family Crusher 5000 é a última palavra em terapia familiar”, clic; na outra emissora, um garoto corria com seu cachorro num prado outonal; brincavam alegremente. “Benji, vem! Vem garoto!”, dizia o menino, rindo. Um jump-cut, e estavam sentados sob uma árvore. “Espécime macho do homo sapiens”, disse o cachorro, “você gostaria de saber como a distrofia muscular pode melhorar seu estilo de vida?”. “Sim! Diga-me, por favor, Benji!”, demandou o menino, beijando seu fiel amigo. “Direi. Há um agente infeccioso em minha saliva. Quando eu o lambi, seu sangue foi contaminado; em pouco tempo, a infecção migrará para as suas meninges, iniciando o efeito degenerativo, e metastaseando para a medula. Isso bloqueará a nutrição muscular”. Uma leve brisa moveu as folhas caducas. “Em breve, você estará incapacitado de se mover”. “Yippie! Benji, você sabe o que isso quer dizer? Se não puder me movimentar, terei muito mais tempo para mim mesmo! E... e... Poderei me livrar do trabalho escravo na fazenda do meu pai... e...”. “Sim”. “Rapaz! Eu mal posso esperar!”. “Tem uma outra coisa que não contei. Eu sou uma máquina”, disse Benji, desfazendo-se de sua pele, e revelando um corpo mecatrônico repleto de chips, feixes e painéis digitais. Seus terríveis olhos vermelhos brilharam, no idílio da tarde. Clic. Estou mirando as lâmpadas fluorescentes no teto; parecem vibrar com o ruído grave de fundo – mistifório de motores, vozes, risadas, talvez rádio. Vejo a luz dos postes fragmentando dentro das gotas de chuva no pára-brisas. O semáforo está vermelho. O carro está silencioso, e é possível ouvir com clareza o som das gotas de chuva contra o vidro, e o ruído produzido pela fricção da borracha dos limpadores de pára-brisa, indo e vindo, tediosamente. Em minha alma, o fogo dança contraposto ao sol – que se entrevê, vagamente, através das chamas. Clic – “carbonização: a nova tendência nas boates de Gaza, e uma ótima forma de liberar os líquidos e tensões”, disse o personal trainer do Dalai Lama, enquanto tomava comigo um delicioso banho turco. “Fascinante”, falei. Um eunuco corria e chutava minha coluna vertebral. “Esse é o verdadeiro banho turco”, comentei; “Digno de um sultão”.

A incrível hospitalidade turca era uma experiência inesquecível. [continua...]

segunda-feira, 17 de março de 2008

Ereção fatal Pt. 2



Tudo era apenas mais um dia para mim no paraíso até que fui raptado pelo Lord’s Salvation Army, em um campo de refugiados da Uganda, e então obrigado a fuzilar minha própria família – as garrafas andavam em falta no treinamento de tiro. Em seguida, tive que fuzilar o staff da peça que eu escrevera sobre a minha vida (“Daniel – Um Destino, Três Testículos”) – os patos de madeira também andavam em falta na barraca de tiros, no parque de diversões perto da base. “Isso os ajudará a liberar os líquidos e tensões”, disseram-me; “mais líquidos que tensões”. (Na verdade, líquidos e tensões são grandezas incomparáveis*). De início me senti culpado, mas logo aqueles prestativos rapazes do Lord’s Salvation Army me prepararam um banho com ervas afrodisíacas e incensos canalizadores de energia, ótimos para controlar a ansiedade e o sentimento de culpa, também usados para detectar a presença de caças Stealth – uma nova alternativa dos exércitos às sondas e satélites usuais, incapazes de detectá-los. “Muito obrigado, rapazes. Sabe, estou sentindo uma química aqui. Nunca fui tão bem tratado quanto no seu exército de assassinos estupradores e... ah...?”, “Seqüestradores?”, “É. É, exatamente. Enfin. Toda a equipe está de parabéns. E eu realmente amei esse novo modelo de farda”. “Verão pede conforto”, disse um dos soldados que estavam comigo naquela barraca, e que tinha dificuldades em aceitar uma moralidade utilitarista num universo determinístico. “Exato! E-x-a-tamente, seu pequeno niilista travesso”, concordei. Sorrimos amigavelmente. “Agora, vou pedir licença a vocês, porque eu preciso fazer um pequeno peeling no córtex, ok? Ouviram falar, garotos? É a coqueluche desse verão, e eu jamais me perdoaria se corresse desnecessariamente o risco de ser demodé num campo de refugiados”. Eles aquiesceram, simpáticos, e foram molestar sexualmente algumas crianças recém-seqüestradas lá fora.
O desjejum estava, como poderia dizer?, um luxo, especialmente depois de ter lido na Psicose Hebefrênica Hoje que para manter uma vida saudável, nos dias atuais, o importante é priorizar os grãos – e, adivinha: só tínhamos grãos. Um punhado de arroz para cada pessoa, doado pela ONU. Dá pra acreditar nisso? Exulto em saber que a Uganda prioriza tanto os grãos. Esse é o primeiro passo para ficar de bem consigo mesmo. Toda a equipe da Uganda, aparentemente conhecida como ‘população’, está de parabéns.
Na TV, um paladino do setor micro-empresarial aparece sobre uma espécie de paraíso zen-budista indefectivelmente branco: “Cansado de ouvir vozes à noite instruindo-o a matar seus filhos, pais, esposa, amigos? Sentindo-se sufocado pela infinita aridez e gratuidade da existência? Relaxe. Você acaba de encontrar um novo e fiel companheiro: SocialEnhancer Deluxe, da Fear Co. Com essa nova broca elétrica, que a Fear Co. desenvolveu pensando especialmente no seu conforto, você poderá perfurar e eliminar o centro de identidade do seu cérebro, posicionando o pino giratório dessa forma, dentro do seu nariz”, disse, perfurando o próprio nariz, cada vez mais fundo. “É simples. Como a vida. Fear Co., sempre o melhor em conforto e segurança”, disse, o sangue a jorrar, em jatos profusos.
O Importante é Priorizar os Grãos.
No deserto, assando um escorpião, minha alma enregelou-se em privação disfarçada – o estilo civilizado. Tive delírios de barbárie; de violência primordial. Havia, nesta violência, certo senso estético. Contaminando o sistema, danificando-o, pensei, o bárbaro em mim os corrigia.
As negligências de armazenagem de um homeware desconhecido me apavoravam. Um espião aproximou-se da minha fogueira no deserto. “Acordamos hoje realmente decidos a deflorar todos os hímens do lirismo”, disse o espião. “Eu não acredito em hímen”, obtemperei. A fogueira estalava. “É uma barreira que precisará romper, se quiser seguir adiante”.
Silêncio.
“Hã... Meu pên-” “Agora ouça”, interrompeu. “Você será submetido a uma experiência. Uma experiência que mudará sua visão sobre tudo. Tudo”, disse, “exceto frisbee”.
O espião levou-me assim para observar o fascinante ritual de acasalamento do macaco-de-cauda-longa da Polinésia. Desde então, jamais fui o mesmo. Tal a divergência de valores entre a sociedade e eu, que só conseguia me enturmar com grupos de frisbee, e logo todo o meu círculo social se resumia a jogadores de frisbee – os únicos com os quais ainda compartilhava valores. “Cara, ser um indivíduo é uma merda”, afiancei ao meu parceiro de frisbee daquele dia. Seu nome era Bernardo. “Que fazer para voltar a ser um facsímile coletivo; um produto estandardizado da manipulação neurológica para fins publicitários?”. Eu sabia que apenas assim me reabilitaria socialmente. “Por que não hã... por que não... falamos sobre alguma coisa mais interessante... hã... como... frisbee?”, disse Bernardo.
Por não sei que contingente fortuna, a mágica do SocialEnhancer Deluxe conjurou de volta a minha vida social, e jamais precisei jogar outra vez o frisbee, relegado assim a pouco mais que triste memória; um bote, na correnteza, impelido incessantemente para o passado. Agora eu caminhava sem identidade pelos arredores do zoológico, com a minha nova vida social ajustada, quando parei e matei o macaco-de-cauda-longa da Polinésia. Já passava da meia-noite. O tiro ecoou lentamente, suave. Como uma nuvem. Disparei outras quatro vezes, e ouvi o eco sumir; fitei a lâmpada. A lâmpada apagou e voltou a incandescer, fraca, com um estalo. Zumbiu. Parecia um apêndice impotente, triste e solitário contra a noite, para quem perdia a guerra.
Atirei na lâmpada.
Aquela noite, após o ocorrido, vi um anjo brotar do ânus de um gato. Talvez me enganassem os olhos então, mas este silvestris catus parecia manifestar sinais de desconforto. Atirei no gato. “Você deve investir no setor micro-empresarial”, disse o mensageiro de Deus.
Atirei nele, em vão. Trajava um colete a prova de balas.

§

Quando cheguei em casa, minha alma era o sismógrafo do apuramento técnico; eu podia farejá-lo a um raio de 5 parsecs. Observei a aurora enquanto era taxonomicamente classificado por um paleontologista como o próximo primata; o próximo passo evolutivo da espécie. Eu era o homo mercator.
A transformação ocorrera.
O fravashi/anjo havia dito: “Eu voltarei um dia, e nesse dia, tua mãe pedirá o teu espermicida emprestado, e tu tentarás encontrá-lo, mas descobrirás que a governanta o havia utilizado por engano, para fazer a cobertura do bolo de aniversário que comestes, um dia antes. Assim saberás que é este, e não outro, o dia em que voltarei. Ao alvorecer deste dia, fornecerei os demais detalhes burocráticos concernidos no registro e natureza da micro-empresa que fundarás. Esperai”, disse, desaparecendo em seguida.

Pensava agora no meu avô, quando, 20 anos atrás, após ler-me uma história de ninar, dissera: “A vida é uma sucessão de danos de psicológicos, neurais, interpessoais e anais – portanto, coma fibras”. Quanto ao resto, não há nada a fazer. Desligou o abajur e saiu. Quando ele morreu, comecei a ficar paranóico com a possibilidade de que ele me estivesse observando do além. Eu ia ao banheiro, e quase podia enxergá-lo acima de mim, flutuando e espionando. Deve ser esse o entretenimento dos mortos, pensava; nós somos o seu reality show.

*Na álgebra abstrata, dois elementos, x e y, são ditos incomparáveis para uma relação R se não é o caso que xRy ou yRx. No exemplo acima, R seria a relação usual de ordem (transitiva: se xRy e yRz então xRz; irreflexiva: não-xRx; assimétrica: se xRy então não-yRz).

domingo, 16 de março de 2008

Ereção fatal - Pt. 1



Olhei dentro do vaso sanitário, e percebi que minha faculdade de estabalecer juízos sobre a realidade havia sido eliminada com a diurese matinal. Estava dissolvida na urina, mas podia sentir o seu odor. Eu estava em uma área secreta nos EUA, sendo cobaia para testes envolvendo uma nova qualificação acadêmica 8,21.10³² vezes superior ao Pós-Doutorado. Se os resultados do experimento lograssem êxito, minha capacitação técnica exibiria um jargão com grau de especificidade tão elevado que nenhuma forma de vida no universo poderia jamais compreender uma única frase proferida por mim, e de fato, em contato com meu curriculum, teriam seus egos automaticamente pulverizados, passando a viver num estado de constante insegurança; de constante incerteza. Eu morava em um cubículo exíguo e sufocante, sem janelas, com um homem recém-divorciado, por ter confundido sua esposa com um criptomorfismo diádico para semânticas polivalentes. “Ela disse que se eu a amasse realmente teria facilidade em reconhecer seus traços fisionômicos, e em distingui-los de conceitos matemáticos abstratos. Pf, você acredita nisso?”, dizia-me. “Quer dizer, criptomorfismo diádico era o seu apelido na infância. Tenha dó. Veja”. Disse-lhe que a foto realmente lembrava um criptomorfismo que eu havia visto na graduação. “Rolou algo?”, perquiriu. Nesse instante, uma Bomba A destruiu a base secreta, mas eu fui salvo por manter minha integridade enquanto cidadão. Projetando um escudo de virilidade e retidão de caráter ao meu redor – técnica que aprendi com John Wayne, durante um cruzeiro transatlântico em sua companhia – atravessei o fogo, incólume.

“Nudge nudge, leite fresco natural. Conduz o continente americano ao colapso nuclear. Sua aclamada atuação personagens cativantes retrata em haikus a frágil beleza da síndrome do túbulo carpal, hey goo! what’s new?. Um legado indelével na história do pensamento ocidental ela se casou?! – você precisa vir também etc. morra – eu adoro o ar das montanhas hey guys! apaixonado por uma réplica mecatrônica de Julie Andrews – apronta todo tipo de confusões – ele sabe que odeio estampas verdes e eu disse por que você não vai com ela a filha está na faculdade mau uso abuso ou armazenagem inadequada o mais novo é alcoólatra – o grande compositor morreu ontem ao confundir mostarda com nitroglicerina, não poderão ser responsabilizados por danos diretos ou incidentais, acusado de preconceito contra a relação homossexual entre oceanógrafos subatômicos homicidas, outros sintomas similares, flagrado enquanto falsificava fezes, sutil matiz outonal – exibia um quadro de dependência toxicológica de valium e comida tailandesa, ganhou vida novamente com a chegada do couro sintético hey goo! what’s new?. Desligue as luzes querido. Onde você estacionou o carro? Querida, onde estão as crianças?”, disse a pequena boca no pescoço da minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista.
Clic – inicialmente, um praticante de cooper sobre a água mantém esperanças minúsculas e delírios de redenção, retro-alimentados numa máquina pessoal de hipertrofia. As quedas seguem, irrevogáveis, a cada novo delírio – ele, irrevogavelmente, submerge. Seus valores aberracionais terminam por condená-lo ao mais completo isolamento; um triste exílio – em toda a História, apenas um homem sucedeu nesse exigente esporte – em meados do século I na atual região do Estado de Israel – o que alavancou a popularidade de seu amigo imaginário, assim promovido a fenômeno internacional. Cidades cenográficas, projetadas para iludir, e espalhadas como iscas; a paranóia recursiva do praticante desse esporte blasfemo inclui, agora, o mundo inteiro; como um embuste cuja revelação é sempre iminente. O hotel próximo a sua casa não é real; não há clientes reais. Aquelas pessoas no átrio iluminado, destacado da noite, são fantasmas que fingem conversar, e que fingem estar prestes a entrar no hotel, onde fingirão passar a noite – são como cascas de cigarras mortas, que se desmancham sobre um tedioso deserto de pedras escuras – sua desconfiança generalizada contempla todas as coisas. A beleza e a vida sobretudo, são filtradas, extraídas e descartadas como resíduo de processamento pela máquina; apenas o sumo indiferenciado, falso, estéril é re-aproveitado, em cadeias reiteradas transfinitas.
Decretamos luto oficial de três dias para nossa raison d’être.
Eu não podia mais recorrer ao cooper aquático como um mecanismo de compensação para meus problemas renais, disse a mim mesmo, e então eu disquei para o exterminador de ciborgues do “Exterminador do Futuro”. Contendo as lágrimas, e com a voz embargada, disse-lhe: “Você pode vir aqui e me devolver esse rim que doei para você, e você vai fazer isso agora, porque você é uma máquina e não precisa de rins, mas eu... eu sou humano, cara”, disse, num apelo, desandando a soluçar, “eu sou um verdadeiro ser humano, está me ouvindo?, e como tal, preciso de órgãos especializados em filtrar o sangue. Você está me entendendo?”. Uma equipe de TV transmitia a cena ao vivo, em rede nacional. Mais tarde, repórteres me entrevistavam; eu estava deitado num leito de hospital: “Como você se sente agora que tem dois rins outra vez?”. “Eu...”, enxugando as lágrimas, “eu me sinto abençoado. Agora, posso filtrar meu próprio sangue”.
Eu me tornara uma paixão nacional.
Pessoas usavam meus resíduos excrementícios como gel para cabelo; ou creme dental. Esfolavam-se como cães, cobiçando a oportunidade de ser sodomizadas pelo imenso e grave órgão copulador no qual me havia transubstanciado; assim quem sabe absorvessem, osmoticamente, uma estilha vestigial de minha deidade cataclísmica que a tudo oprimia. Teriam seu pecado original da impopularidade expurgado pelo meu Santo Suco Gonadal Purificador.
[agora também em latas de 350ml].

Eu me tornara uma ereção devastadora.
Minha glande rompia os ligamentos anais do espaço-tempo continuum.

Tudo era apenas mais um dia para mim no paraíso até que fui raptado pelo Lord’s Salvation Army, em um campo de refugiados da Uganda, e então obrigado a fuzilar minha própria família – as garrafas andavam em falta no treinamento de tiro.

(Continua...)

sábado, 15 de março de 2008

Como adquiri imunidade à varíola - Pt. 2



Pela janela, eu e Júlia vimos o Espírito das Taxas Cambiais Passadas estuprar nosso cachorro e nossos filhos. Quando retirou a máscara, reconheci seu rosto: era, percebo agora, o rosto de Richard Gere. Ele me ofereceu uma promoção. Em pouco tempo, eu era líder no ranking mundial do mercado financeiro, ao lado da General Motors; vendo meu reflexo no espelho, fui tomado por tal êxtase carnal que minhas glândulas espermáticas explodiram, dizimando a vida na Terra. A volúpia infinita por minha carne induzia uma ejaculação contumaz e perene; uma avassaladora torrente de sêmen. Meu falo tornara-se a nova fonte mundial de energia hidrelétrica. Meu pai veio à noite me dizer que podia, enfim, morrer em paz, e se orgulhar do filho que expelira repulsivamente no mundo. “Desde que você era apenas um ovo, eu sabia que o seu futuro estava no ramo das hidrelétricas”, disse, fecundando a si mesmo através de um sistema reprodutor hermafrodita e depositando alguns ovos no sofá. O reestabelecimento do contato familiar há muito perdido transtornou minha psyché e fez de mim o maior mass murderer da História; isto contrapontuou com alguma instabilidade meu perfeito equilíbrio pessoal, encontrado nas pequenas coisas do quotidiano. Por exemplo, quanto à disponibilidade de moradias – de fato, grande parte dos hotéis, albergues e agências imobiliárias se recusava a hospedar mass murderers, então passei a dormir numa espelunca, que ficava no oitavo círculo do Inferno, ao lado de uma montanha de cabeças delusórias sob carcaças e vísceras em putrefação, perto da casa de verão da figura papal. “Quando chegam as férias, adoro relaxar no Inferno”, confessara ele à equipe da revista Danação Eterna e Turismo, enquanto explorava os horizontes erógenos do seu corpo com um dildo bioluminescente. O flat no Inferno não era, decerto, um paraíso; eu passava o dia fora, exercendo minhas responsabilidades de mass murderer, mas à noite, recluso, jejuava no fogo até que este consumisse e purgasse as torpes faltas que cometi no decorrer da vida, o que eu achava um pouco incômodo, haja visto atrapalhasse os afazeres da rotina. Comecei a ter enxaquecas; o Dr. Beiersdorf disse que eram provavelmente causadas por stress, e por um wormhole que se instalara no interior do meu cérebro. “Você comeu alguma fenda interdimensional ultimamente?”. “Não. Mas eu comi cereais, ontem”. “Arram”, anotando, “Você come cereais regularmente?”. “Sim”. “Sei. Veja, você sabe que os cereais, por conta de todo esse processamento industrial, eventualmente contêm alguns resíduos perigosos à saúde. Certamente você deve ter ingerido o wormhole por acidente, junto com o leite no prato”. “De fato, agora que você mencionou, lembro de ter visto meu cachorro ser tragado para dentro do meu prato de cereal ao leite, há uns dois meses mais ou menos. A TV, o armário e minha avó também foram, mas achei que estavam apenas tentando se divertir; mergulhar um pouco etc.”. Outra vez ouvi o terno som de confidências apaixonadas; fibrilavam em cadeias saturadas de informação corrompida. Minha tese de mestrado fora devorada por uma horda de antropólogos famintos, mas seus estômagos não apresentavam a enzima necessária para digerir listas de referências bibliográficas. Algumas horas depois, vasculhando suas fezes, pude recuperar essa parte da tese quase intacta - e, numa explosão interestelar, eu estava de volta para lubrificar o biceps de uma auditora fiscal ameaçada de extinção, ao pôr-do-sol em Bahamas, o que reacendeu em mim a paixão pela vida, trazendo de volta minha auto-estima e meu espírito de equipe. Parti numa missão ao espaço com o objetivo de recuperar meu esfíncter anal, enviado na Voyager 1 em 5 de setembro de 1977, para os alienígenas. Fui bem sucedido. Tive enfim algumas horas de paz, após todos esses anos, mas à noite tive que lutar contra os eletrodomésticos do meu apart-hotel que desenvolveram auto-consciência e tentaram me matar – logo perceberam as implicações éticas de sua atitude, e decidiram dedicar a vida ao gipsy, formando uma banda. Aquela foi uma época difícil para mim, e para toda a minha família. Chamei o Holger – meu melhor amigo –, porque precisava desabafar com alguém, e assim contei pra ele toda a história. “É... eu sei como você se sente, cara...”, pondo a mão no meu ombro. “Bem, vamos manter contato”, disse, disparando em seu carro conversível. Alguns dias depois, comecei a vomitar sangue, então o Holger me ligou e, com aquele seu tom folgazão impagável, explicou como me havia pregado essa peça divertida: “Quando toquei no seu ombro, inoculei em sua corrente sangüínea uma toxina que danifica o nervo isquiático no estômago, fazendo com que seus músculos estomacais contraiam em peristalse reversa 24 horas por dia, haha. Dá pra acreditar? Dessa vez eu te peguei, hein?!”. Haha, uma figura.
Agora me escute, comissão de vítimas da demência senil financiada pelo Ministério da Cultura: eu sou o mascote do Abuso Sexual Paterno. Eu vim do Hades para promover a pesca da truta com finalidade auto-erótica. Eu interrompi a hidromassagem, apenas para liberar do julgo tributário a sua síndrome degenerativa da personalidade. Assistia a um documentário sobre espécies ameaçadas, e senti essa intensa pulsão de aniquilar pessoalmente cada espécime do macaco colobo-vermelho-de-miss-waldron; passei a dedicar minha vida a tal propósito. Em pouco tempo, nenhum sobrara na face da Terra. Vendi minha pele ao nosso terapeuta de casais – ele amava vestir sua esposa com a pele dos pacientes durante a cópula –, e à noite, com minhas artérias e músculos expostos, eu e Júlia fomos ao vernissage, onde comemos merdinhas blasé doces e salgadas até uma morte por aneurisma. Que singelas lembranças guardamos daquela noite; o modo como eu sentava no sofá perfeitamente branco e, ao levantar, deixava estampado em sangue o desenho do meu corpo; o sangue que respingava da carne cruenta e nua, sobre o piso, sobre as pessoas; sobre as demais superfícies indefectivelmente puras.
- Podemos concluir, sem exames mais detalhados, que este indivíduo foi acometido por uma grave enfermidade, conhecida como 'estar partido ao meio'; prescreva um tubo de cola, enfermeira.
Compartilhávamos a desfiguração e o interesse pela manipulação de mecanismos sociais em benefício próprio – alguns chamavam de carisma. Eu disse: “vamos sair com amigos para lugares”. Eles disseram: “Adoramos ir a lugares com amigos”.

Como adquiri imunidade à varíola - Pt. 1



Meu professor de Computabilidade na Unicamp tornara-se uno com o hors-d’œuvre. Ele havia conquistado as paradas de Tóquio com o sucesso “Sushi Man”, baseado em sua experiência traumática com a comida japonesa. “Veja, Daniel. Deixe-me tocá-la para você”, disse, pegando um bandolim:

Sushi man
Sushi man
Does whatever a sushi can

Clic – eu estava levemente entediado com a miséria implacável deste infindo solo. Sob o cáustico sol do deserto, selamos, para sempre, a happy hour; o eternamente fatigante meeting*. Você queria divulgar os prazeres da autofecundação; eu me sentia sexualmente atraído pela sua adgenda. O coordenador do projeto – aquele com a camisa do Megadeath, sua alma contrita em lamento e dor plangente – comera o acepipe. Quando acenou simpaticamente para as almas derrelitas atiradas ao mar revolto em tempestade, tornou-se o acepipe; o cálido quitute uterino. Tornou-se, ele também, uno com a guloseima. Pois aquele era o novo gesto proibido, desde que Orfeu ameaçara processar o rei dos mortos Hades por más condições de trabalho.
Então, adormeço. Tenho sonhos eróticos com um polímero orgânico inexplorado pela indústria bioquímica; acordo e estou na República Tcheca; um cachorro é assassinado por um braço mecânico e, de alguma forma visceral, aquilo faz nascer em mim uma nova compreensão holística da vida. Caminhando pelos becos labirínticos e sombrios da Praça de Praga, encontro um homem terrivelmente trágico, e ele diz que a precisão de sua tragédia pessoal é tal que o Instituto Internacional de Pesos e Medidas cogitou definir o metro, essa fantástica unidade de medida, como o comprimento de sua queda ao tropeçar bêbado diariamente no batente do bar às 3:25 a.m., quando cambaleia de volta para casa. Diz-me que é um ex-cirurgião-destista viúvo; que sua esposa, tragada pelo turbilhão irresistível do sedentarismo e abuso nutricional pós-marital, dilatara até implodir e se tornar um buraco negro, consumindo em seu avassalador vórtex gravitacional a casa e toda a vizinhança; carros, árvores, vacas, crianças, ruas, prédios – dela nada escapara. “Meu amigo, onde você enxerga um fim, eu vejo um recomeço; uma nova oportunidade”, disse-lhe. “Que quer dizer?”. “Você já tentou falar com ela depois do incidente?”. “Não... eu... Eu não sei bem como lidar com corpúsculos de convergência espaço-temporal...”. “Bem, você podia tentar reatar com ela. Só precisa saber falar com jeito. Fale com esse cara, ele sabe tudo sobre buracos negros”. Escrevi o nome ‘Stephen Hawking’ num pedaço de papel. “Obrigado. Como posso agradecer? Deixe-me pagar uma bebida”. “Sim. Tudo bem. Ando precisando de algo melhor que sangue em minhas veias”. Sem conversar seguimos, passo a passo, entre as formigas, vendo as enfermas almas prostradas e incapazes de erguer o corpo lasso. Ouvindo esses ruídos distantes; indiferentes aos chamados suplicantes. O chão trepidava; o ruído e o fluxo distante; as silhuetas fracionadas de fantasmas anônimos acelerando até a colisão, em um sonho indistinto, buzinando espectralmente além da membrana da existência.
Bebemos a noite inteira, numa taverna. Às 3:25 saímos; ele tropeçou. Entoamos velhos cânticos gaélicos, sob o céu nas ruas estreitas, como os sucessos “O que você fez com a minha aspirina?”, “Seus pêlos pubianos danificaram o meu barbeador elétrico”, “Efeitos colaterais da insônia” e “A remoção do meu testículo esquerdo trouxe danos à minha vida conjugal”. Aproximadamente 100 bilhões de estrelas eram o nosso público aquela noite fria e contigencial, naquela instanciação randômica de Praga. Por um momento, compreendi a mania de perseguição de um escritor chamado Franz Kafka. E, quando já fraquejávamos, perdidos numa encruzilhada apenas parcamente iluminada por uma lâmpada fraca que falhava, uma pequena fada madrinha apareceu e, com um passe de mágica, nos imunizou contra a varíola.
Eu me tornei mais e mais consciente dos efeitos nocivos de certas comidas industrializadas. Do excesso de conservantes; do excesso de substâncias cancerígenas. E agora, escolhendo na prateleira do supermercado um produto que ocasione o menor risco à minha vida, sou preenchido por essa sensação de completude; de eternidade. De transcendência. Eu alcancei o nirvana. À noite, recebo uma ligação de Buda. Ele me parabeniza e me convida para a festa de lançamento do seu romance sobre sprays bronzeadores, mas sua mansão é invadida pela máfia siciliana e ele é fuzilado. Sua cabeça, atirada dentro de um vulcão, em rede nacional; seu corpo, doado uma conhecida fábrica de biscoitos. Sua alma, dissolvida em um barril de fezes, suco gástrico, ácido butenodióico, gasolina, escorrência menstrual, ketchup e muco.

Em vão tentara esquecer a convoluta solidão do seu peristaltismo retal. Minha clareza era uma nuvem de ruídos.


* “Oh, eternamente fatigante manto” (Dante).

quinta-feira, 13 de março de 2008

Sanduíche de linfogranuloma



Silhuetado contra o horizonte sinovial, um bodhisatva em um tanque de guerra tentava abrir a tiros de canhão seu caminho para o nirvana, mas seu carma era desintegrado por uma reação adversa ao hormônio bovino que vinha injetando - em lenta procissão marchavam as almas frementes.
Você buscava reencontrar a simplicidade pastoril nos arsenais nucleares soviéticos. Eu freqüentava um bordel oficializado pelo ministério estadual da filosofia como Território Moralmente Neutro (lia-se na placa de entrada). Eu buscava, assim, uma vida de solidão e libertinagem; uma vida completa. Você tinha um piercing no cérebro; eu tinha restaurado o meu espírito competitivo na velhice através do tai chi chuan. E, apesar de tudo, não eram as minhas glândulas mamárias que você invejava?

Clic – o silêncio reticente do seu dachshund me faz regredir à substância primeva da existência; ao primeiro string binário gravado na memória do pool genético humano. Que agradável surpresa não tive quando descobri que esta misteriosa essência universal em que me transformara era, fundamentalmente, um apetitivo nacho. “Nunca antes a autofagia foi tão satisfatória”, disse a mim mesmo; minha consciência, uma bolha de nacho flutuando além do espaço-tempo, numa sopa quântica de entropia quasi-dimensional. “Eu sou o Deus Nacho, e não há nacho que não possa fazer”, pensei; emocionado; na linguagem do nacho.
Extasiado, me consumi até a completa extinção.
Infinitas reencarnações adviriam; infinitas vezes desvaneceria o universo, até que o Eterno Retorno me trouxesse de volta à minha cidade natal; à minha pequena, confortável e querida rotina nanométrica. Foi essa época que adquiri obesidade mórbida e minha pele aderiu ao sofá, de onde tive que ser removido cirurgicamente (após ser rebocado por um guindaste até o hospital). Quando acordei da anestesia - mens insana e meu corpo alquebrado -, o cirurgião responsável presenteou-me com esse estranho chapéu; esse chapéu que, explicou, havia confeccionado a partir da minha epiderme excedente raspada do sofá. “Obrigado, doutor”. “Agora, durma, meu amigo. É a única chance que os bolos têm de sobreviver. Mas, me diga, por que não tenta praticar algum esporte? Além da deglutição, digo. Você realmente precisa de um esporte pesado... algo como, levantamento de si mesmo. Hehe”, tosse. “Deus sabe que Malthus concordaria comigo. Veria em você algum tipo de arqui-inimigo. Que merda de programa é esse?”. Irritado, tentou mudar o canal do cardiograma. “Bem. Divirta-se com essa grande e esfuziante festa que é o pós-cirúrgico; todo um mundo mágico, e me chame se sentir algo errado como conforto. Enfermeira, onde guardei os meus instrumentos? Não esse instrumento, sua cadela impudente. Hmmm... sua selvagenzinha insaciável do ramo hospitalar...”.

Caminhamos cegos com o meu padrasto constituído de metal líquido, sobre o ergométrico mar de icterícia; sobre os corpos eviscerados das cheerleaders. A dor original de existir tinha, sobre nós, inviolável e beatífica ação protetora contra raios ultra-violeta – uma força mística clinicamente testada. E, sob a chuva de fogo, fomos parcialmente desnatados até a morte.
O dia amanhece, diluído em serena reiteração recursiva. O calor residual é apagado pelo fluxo branco; folhas secas de outono, o ar frio da manhã. Matrizes de memória vestigial – mostram crianças, em jardins, filmadas por satélites – alimentadas em frames, então sedadas. Induzem sentimento de conforto familiar. Sorriso acalentador – em outdoors –; corrompidos pela inundação de sódio pentotal – a informação é agora inacessível, ou a informação é adulterada. O terno som de amantes fibrilado em cadeias saturadas de inconsistência.
[Lembra quando voltávamos juntos da escola? Não temíamos então a vida.]
Clic – a cerimônia fúnebre da minha adenóide (1982-†2007 - r.i.p.) acelerou ao transfinito incomputável nosso processo de autopromoção. Julguei descortês sua avó ter instalado uma bomba termobárica no meu carro, quando saíamos; apenas por isso a atropelei, e apenas por isso devorei suas entranhas espalhadas pelo asfalto. Por favor, me desculpe. Lembre dos bons momentos. Quantos cardinais não-enumeráveis não criamos, usando o método da diagonalização de Cantor, à luz da lua em Copacabana? Um grupo de vítimas da peste bubônica (a peste negra) nadava no mar, em nossa direção, vindos da África. “Se incomodam se nós salivarmos sobre vocês?”, perguntou um deles (lembra?) “Oh. Não, claro que não”, disse eu, sorrindo. “Tudo bem, Tereza?”. Você concordou, simpaticamente. Àquela noite, minha banda de industrial folk – “Morse Warriors” – abriria o show do Can. Nossa canção de trabalho, “Você é meu alfa-adrenoreceptor favorito", composta para o meu filho, era cantada em código morse - como as demais do nosso repertório – com oboés e violão folk ao fundo, culminando numa dodecafonia industrial e guinchos estridentes impostados por um porco que queimamos vivo no palco, com um maçarico. A letra era uma analogia entre o nosso amor filial-paternal e o bloqueio dos efeitos atinociceptivos do N2O quando alfa-adrenoreceptores antagonistas são injetados na medula espinhal, mas não diretamente no cérebro. Foi quando conheci Júlia; ela é a jovem espécime fêmea do homo sapiens que está copulando comigo no palco enquanto o porco ainda guincha histérico em carne viva – e então, nos casamos. De qualquer modo, isso foi depois; aquela noite voltei sozinho para casa.
Eu gostava de voltar para casa no banco de trás, meu cérebro confortavelmente dementificado, anulado pelas partituras atonais de semáforos e postes e vitrines; um gosto que compartilhava com Tereza. O asilar-se de si mesmo; toda a minha pose boa-praça de dissociação auto-induzida; de lobotomia recreativa. Essas quantas estranhas guaridas que o mundo ora não ora sim nos oferece para conservar, tão criogenicamente, nossa identidade, esse fardo de repelência não turing-computável. Nossos pequenos qualia; nossos simpáticos memes. Um mapeamento um-a-um conectando o catodismo incoerente da cidade à estupidez transfinita de nossas cabecilhas gloriosamente entaladas em saliva genocida hidrofóbica. Qualium por qualium, a cidade deleta sua mente estrogonófica; fuzível por fuzível, você é desligado. Tereza se babava nisso.
De qualquer forma, aquela noite voltei a pé. Hordas de pequenos consultores empresariais e acessoristas de imprensa – não mais que 15cm – me perseguiam, sorrateiramente, pelas esquinas escuras e frias; sob a asma brônquica dos postes de luz.
Eu pensava sobre a vulnerabilidade das áreas cinza; eu pensava sobre o confuso território da razoabilidade. “O que distingue a analiticidade da fraqueza?”, pensava; meus passos no asfalto gelado eram o único som na rua deserta. “Qual o limite entre as duas coisas? Era Hamlet razoável? Ou apenas fraco?. Era Popeye forte, ou apenas irrazoável, contrapositivamente?”.
“Qual o propósito da incerteza num mundo sem verdades?”.
“A vida não é sobre verdade. A vida”, pensei, “é sobre sobrevivência. E a incerteza é, em sua covardia, uma estratégia anti-sobrevivência. Sim, agora percebo que John Wayne estava certo. Como John Wayne, devemos ver em preto e branco. Preto sendo aquilo que você espanca, e branco, aquilo que você permite sobreviver - conotações raciais à parte, e referindo-me aqui, strictu sensu, ao âmbito moral/epistemológico. Kant argumenta que a razão nos obriga à responsabilidade. Ora, eliminando como John Wayne a razão, cortamos o mal pela raiz. Eliminando como John Wayne a razão – a inútil e debilitante busca por um delírio de verdade – em favor da sobrevivência; da força e da liberdade; da identidade, nos tornamos bestas onipotentes, correndo como leões na savana. Fornicando e abatendo. Devorando e sendo devorados à margem da incerteza e da confusão”, pensei, entrando num beco para despistar os pequenos consultores empresariais e os pequenos acessoristas de imprensa.