quarta-feira, 28 de outubro de 2009
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
domingo, 11 de outubro de 2009
"For about eight years I have been sifting through thousands of sources trying to determine the extent of democide (genocide and mass murder) in this century. (...)
This democide murdered 6 times more people than died in combat in all the foreign and internal wars of the century. Finally, given popular estimates of the dead in a major nuclear war, this total democide is as though such a war did occur, but with its dead spread over a century." daqui
Sobre o pesquisador*:
"Rudolph Joseph Rummel (born October 21, 1932) is professor emeritus of political science at the University of Hawaii. He has spent his career assembling data on collective violence and war with a view toward helping their resolution or elimination. Rummel coined the term democide for murder by government, his research claiming that six times as many people died of democide during the 20th century than in all that century's wars combined. He concludes that democracy is the form of government least likely to kill its citizens and that democracies do not wage war against each other. (...) Rudolph Rummel talks about the "miracle" of liberty and peace, and is an outspoken critic of communism. However, he also criticizes right-wing dictatorships and the democides that occurred under colonialism." (Wikipedia)
* Não necessariamente representa minha visão da coisa.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
quarta-feira, 1 de julho de 2009

(A ilustração acima representa a mais recente experiência do autor com drogas e perturbações artísticas filmescas*; os demais aspectos da composição derivam de gestalts pós-estruturalistas mal-ajambrados, de modo a parecer mumbo jumbo acadêmico**)
(*Observações não direcionadas ao eventual leitor)
(**Certificamos a ininteligibilidade de nossas mães)
quinta-feira, 18 de junho de 2009
quinta-feira, 30 de abril de 2009
John Williams loves wet pussy
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A enchente de distração devastou o ambiente doméstico do bom selvagem, a clareza de princípios do Papai Smurf.
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(outra versão aqui)

O sol morria como um cristo hiperplásico diluindo na broncodilatação do ocaso. O reitor tensionava o tríceps, rutilando na quietude litorânea reprocessada


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Silhuetado contra o horizonte sinovial, um bodhisatva em um tanque de guerra tentava abrir a tiros de canhão seu caminho para o nirvana, mas seu carma era desintegrado por uma reação adversa ao hormônio bovino que vinha injetando - em lenta procissão marchavam as almas frementes.
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Caminhamos cegos com o meu padrasto constituído de metal líquido, sobre o ergométrico mar de icterícia; sobre os corpos eviscerados das cheerleaders. A dor original de existir tinha, sobre nós, inviolável e beatífica ação protetora contra raios ultra-violeta
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Sob o cáustico sol do deserto, selamos, para sempre, a happy hour; o eternamente fatigante meeting
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Era esse o povo desprovido de complexidade psicológica cuja vida foi roubada pela instabilidade esfincteriana de sua namorada.
terça-feira, 28 de abril de 2009
Re-scan
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O silêncio reticente do seu dachshund me faz regredir à substância primeva da existência; ao primeiro string binário gravado na memória do pool genético humano
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Eu interrompi a hidromassagem, apenas para liberar do julgo tributário a sua síndrome degenerativa da personalidade.
Minha tese de mestrado, devorada por uma horda de antropólogos famintos. Seus estômagos não apresentavam a enzima necessária para digerir listas de referências bibliográficas
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...algumas horas depois, vasculhando suas fezes, pude recuperar essa parte da tese quase intacta.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
À venda 2
Cante como o pássaro, o pássaro gastrítico da vida, buscando na selva pequenas provisões de bicarbonato, como o filatelista terno livre na floresta correndo coletando frutas; em sua pureza neo-marxista cante como o filatelista, sua ereção matinal interrompida pelo Ministério das Relações Exteriores, incorpore traços evidentes de materialismo dialético
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Eu me tornara uma ereção devastadora.
Minha glande rompia os ligamentos anais do espaço-tempo continuum. Olhei dentro do vaso sanitário; minha faculdade de estabalecer juízos sobre a realidade havia sido eliminada com a diurese matinal. Estava dissolvida na urina, mas podia sentir o seu odor
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...Eu estava em uma área secreta nos EUA, sendo cobaia para testes envolvendo uma nova qualificação acadêmica 8,21.10³² vezes superior ao Pós-Doutorado. Se os resultados do experimento lograssem êxito, minha capacitação técnica exibiria um jargão com grau de especificidade tão elevado...
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...que nenhuma forma de vida no universo poderia jamais compreender uma única frase proferida por mim, e de fato, em contato com meu curriculum, teriam seus egos automaticamente pulverizados, passando a viver num estado de constante insegurança; de constante incerteza.
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(Ele estava apaixonado por uma réplica mecatrônica de Julie Andrews - Oh dizei-me meu único amigo, quantos átomos tinha o universo quando Bruce Lee atuou em ‘Operação Dragão’? Quantas adenóides são necessárias para construir uma reprodução exata do Titanic em adenóides?)
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Quando voltei da turquia, meu traseiro internacionalmente premiado estava em todos os outdoors; os sorvetes dietéticos eram ainda melhores que os não-dietéticos; meus filhos correram em câmera lenta para me abraçar, numa nuvem branca sedativa, que fagocitava a Terra.
E-mail do autor: dliberalino@yahoo.com.br
segunda-feira, 23 de março de 2009
Nota estilística
Alguns leitores expressaram visões conflitantes, atinentes aos textos encontrados neste site. Sempre disposto a mitigar rastros de obscurantismo, o autor se presta a esclarecer o leitmotif que dirige sua atividade criadora.
O primeiro passo compreende a desestruturação do seio familiar, visando uma personalidade fragmentária, pervertida e vil – insuficientes abusos familiares na infância não farão o trabalho. Para tanto, o autor perfez com êxito o total de complexos edipianos descritos na literatura psicanalítica, mantendo relações incestuosas brutais com as gerações vivas ou não inteiramente decompostas da família. O aspirante estará pronto para a próxima etapa quando surgirem as primeiras acusações de homicídio – neste caso, anote “OK” em sua cartela. Além deste ponto, é bastante seguir conspirando tramas doentias em porões. Recentemente, após seu florescimento artístico completo, uma sessão típica de criação com o autor figurará o mesmo sentado nos restos exumados de sua mãe, uma pilha de alucinógenos ao lado do laptop, digitando descontrolado enquanto grita “FLUXO DE CONSCIÊNCIAAAA!” repetidamente. O texto refletirá com rigorosa acuidade a personalidade fragmentária do mesmo, sobretudo seus gostos, impulsos secretos incontroláveis e dados autobiográficos repugnantes. As obras resultantes podem ser caracterizadas como descrições precisas de suas férias mais recentes, ou como planos para as próximas férias. O autor aprova moralmente todo o registrado na obra, em geral avesso ou inepto a qualquer forma de expressão indireta, como ironia, ficção ou poesia. Uma típica sessão de perguntas respectivas às motivações literárias do referido escritor obterá como resposta alguma variação de “Mim cocô calça”.
domingo, 15 de março de 2009
Corpúsculo num plano
(Este texto é parte de uma pretensa série de contos. Cada conto será narrado por um personagem distinto. Fotos também imputáveis ao autor)
Vejo o relógio; sem particular interesse, percebo que me atrasei cerca de duas horas. Provavelmente vou ser julgado como me cabe, talvez despedido, dentro de um mês ou dois.
Trabalho numa copiadora, com outras duas pessoas; fica num prédio comercial, num quarto pequeno do primeiro andar, subindo a escadaria. Também fazemos 3x4. Meu serviço é primário: eu tiro as fotos, passo para o computador e faço alterações básicas – mudança de resolução e tamanho. Isso é enviado para a impressora, que imprime. Também posso ajudar com a xerox. No caixa fica Goreti, hiperglandular e menopáusica; Luciene, a gerente, faz cópias. O lugar não tem janelas e o ar-condicionado é fraco – serve essencialmente para fazer circular os micróbios. De todo modo, com o tempo os empregados se habituam ao ar reaproveitado; talvez alguma alteração ocorra no organismo, que se adapta às concentrações maiores de gás carbônico.
Às 12 horas saio para almoçar. O meio-dia está cinza; peço um prato-feito, com feijão, arroz, frango e uma salada de batata.
Três anos atrás eu chegava na cidade; aluguei um quarto de fundo. Ficava – ainda fica – no terraço da casa de uma mulher idosa, num centro de prédios comerciais. O acesso é feito pelo corredor lateral, separado da casa propriamente. Abre-se um portão, depois outro, tem o terraço escuro de barro, pontuado com a folhagem de mato que conseguiu brotar, e enfim a varanda, que dá para o quarto, um cuzinho. Não é um problema; só após alguns meses é que os lugares se revelam áridos. Encontrei o emprego cerca de quatro meses depois, e enquanto isso os centavos restantes acabavam. Durante esse intervalo não fiz nada, embora tenha tentado, no primeiro mês. Às vezes pegava um ônibus para uma galeria pequena, meio vazia, onde comia doces ou salgados, e onde havia uma sala de cinema. Pouca gente ia lá; com o tempo deixei de ir também. Não sei dizer dos filmes – o último que vi, entrei atrasado e abandonei pela metade –, mas deviam ser grande entretenimento. Às vezes podia sair à noite; tentava conhecer alguém num pub próximo à casa da velha, via uma banda e bebia cerveja. Não digo que sentisse interesse em iniciar conversas, mas afinal o esforço investido nisso – manter um tom casual, nem pessoal demais nem impessoal, demonstrar interesse, presença de espírito, insinuar etc. – é tão maior que os benefícios, que parece masoquismo se meter na situação. Por outro lado, não se pode ficar ali sozinho; os riscos são evidentes.
Minhas visitas ao pub ficaram mais infreqüentes; passei a ficar em casa, quase integralmente. Dormia de madrugada, acordava no fim da tarde, ou à noite, quando saía para comprar biscoitos, cervejas, sanduíche de microondas, sopa em pó; café.
Assistia documentários, em geral bêbado; via o Jô Soares toda noite. Simpatizava com ele e seus convidados, cada vez mais. Quase não lia. As mariposas se atiravam contra a lâmpada da varanda.
Com o tempo, essa rotina conduz a um processo de idiotia; o avanço acontece em ciclos. Pensar se torna mais difícil, as palavras apagam; os gracejos são truncados e desinteressantes, sem espírito. A possibilidade de voltar ao convívio fica mais e mais distante. Isso amplifica o isolamento e a imbecilização, fechando o ciclo retro-alimentativo. Mesmo atitudes simples – responder a um caixa de supermercado, escolher um sanduíche – se revestem de ridículo. Quando por fim o contato humano simples se torna impensável, ou insustentável, nada mais vai interferir – não de dentro; é como se uma fiação pesada se conectasse e fechasse.
Da última vez que fui ao pub, um sujeito feio, tendo ficado recluso boa parte da festa, foi empurrado ao chão por uma garota bêbada; eu só pude rir. Tentei manter a conversa com uma cliente, mas a maior parte da noite apenas repeti algo sobre comprar uma guitarra – não me ocorria nada melhor. Ela logo se uniu ao grupo de um amigo, eu saí e andei pelas ruas do centro. Deixei de freqüentar o pub, passando a ficar em casa, integralmente. Logo perdi o interesse, ou talvez a capacidade, de ler; restavam a TV, a diurese, os passeios ao supermercado e à loja de conveniência.
II
Pago a conta do self-service; a copiadora fica a três quarteirões. Talvez eu pare na banca, a caminho. Acabo desistindo e sigo andando, esperando com a multidão nas faixas de pedestres. Estruturas geométricas; superfícies planas, sob um céu limpo. Depois de um tempo, você não as vê mais. A impressão que me deixa o centro é de uma elefantíase de concreto e propaganda, se erguendo e se espalhando sem obstáculos. Diariamente, isso se desdobra em fractais de caricaturas impessoais, saturadas de um modo emético e nauseativo; um refluxo de desapontamento. O sinal fecha com um clic e eu atravesso.
O rosto da cliente aparece focalizado na lente; uma putinha jovial, falando ao celular. A fala é monótona; ela se veste como as outras, de maneira a destacar sexualidade – como uma putinha, em termos limpos. Os peitinhos brotam do decote. Ela é, eu posso ver, o tipo de pessoa que anseia rachar o furico num comício. Desliga o celular e olha para a câmera. Sem deixar transparecer, tiro uma foto dos peitos, só então do rosto. Caminho até o computador. Digo que pode esperar lá fora; creio que não ouve, ou não se interessa. Os peitos vão para minha coleção, uma pasta escondida em C:Windows/System32.
- Diga olá para as outras, 103.jpg.
Enquanto edito o rosto da vadia no Photoshop, Goreti olha para mim do caixa. Goreti, a safada cauby-peixotiana. Imprimo a face sem expressão de 103.jpg; trata-se de uma representação acurada.
Após o expediente, de madrugada, virei até a copiadora e posso prestar minha homenagem a 103.jpg; as melhores fotos eu imprimo e levo para casa. Infelizmente, perdem a graça com o tempo, então tenta-se manter o estoque renovado.
Entrego as fotos a 103.jpg, que “se digire ao caixa”. Fico ali imaginando o que ocorreria se a estuprasse; eu teria que me matar, antes de ser preso. Não daria um bom Papillon – para ser franco, a única virtude necessária à sobrevivência de que ainda posso me gabar é o medo. Enquanto sai, observo que suas nádegas são apenas razoáveis, mas isso basta para uma carreira brilhante, afinal. Me ocorre que já deviam ter sido estapeadas inúmeras vezes. Tenho vontade de fazer o mesmo. Como seriam seus gemidos? Parece fazer o tipo “ai”. Estou certo agora de que, se a conhecesse, logo ficaria convencido de seu inegável valor pessoal. Riria de suas histórias domésticas, vibraria com seus relatos de vitórias provincianas.
Pego meu guarda-chuva e tranco a porta. Passa um pouco da meia noite, e uso várias camisas sobrepostas – o clima é mais frio essa época do ano. A varanda está cheia de insetos, que passeiam na tinta amarela descascada das paredes, ou esperam, estupidamente. Atravesso o terraço e abro o portão, tentando não fazer barulho. Sei que a velha ouve; talvez até fique acordada mais tempo, só para ouvir. A vida dos idosos, em síntese, consiste nesse parasitismo residual das vidas mais jovens. Em particular, a dela pode ser reduzida a um triângulo exangue, ao mesmo tempo pecuniário e afetivo, cujos vértices são ela mesma, os clientes e o cachorro. Formamos uma pequena família. Apesar dos meus hábitos suspeitos, tais como sair de madrugada, viver sozinho e beber diariamente, ela depende de mim – e embora em menor proporção, também dependo dela. Afinal, não sou eu quem está morrendo sozinho. Devemos nossa união ao dinheiro; é o que inicialmente nos motiva à convivência – raquítica, mas convivência. Ainda que depois seja o simples estar ali, os dois, que insititui um tipo infame de dependência.
Tranco o cadeado e saio pela rua, vou caminhando sobre os paralelepípedos úmidos da neblina. Na loja de conveniência do posto, compro um sanduíche natural. Fico um bom tempo escolhendo um refrigerante, postado em frente ao freezer.
Tranco a porta da copiadora e ligo a lâmpada. A impressão de calor e segurança do ambiente interior contrasta com as ruas do centro, de madrugada. Quando fecho a porta, o frio e a ameaça somem por mágica. Ponho as chaves sobre a mesa, ligo o computador; sento e espero o Windows carregar. Fico olhando a mesa de Goreti, do outro lado da sala.
Vou até lá e sento, fico girando na cadeira com rodas. Abro as gavetas, sem particular interesse; talvez com modesto nojo, verifico. Encontro discos – música para meditação, discografia de Cauby em mp3 –, e papéis da loja. Constato que a única razão para não ter vasculhado suas coisas antes era o meu profundo desinteresse; o fato de que, previsivelmente, Goreti não teria nada pessoal para guardar ou revelar. Encontro um calendário pequeno com vários dias marcados, e uma anotação embaixo: “Activia”. Devo concluir que ela tem problemas para evacuar. As datas podem marcar os dias em que defecou; de fato é natural imaginá-la se ocupando, várias vezes ao dia, com coisas desse tipo. Quando defecará novamente; quando defecou pela última vez; como defecar com regularidade. Na verdade, isso pode manter alguém vivo. A prisão de ventre é a gratificação cabível a Goreti. Verifico as datas; pelo que tem ali, ela não caga faz onze dias. Espero que consiga hoje. Talvez esteja tentando agora, passando por momentos difíceis, de possíveis danos ao esfíncter.
O resto da noite assisto vídeos pornô. Por falta de concentração, as punhetas são frequentemente interrompidas; penso em assuntos domésticos, programas de TV etc. Outras vezes paro por conta da taquicardia ou variações de pressão (falta de exercícios). Apesar disso, os orgasmos são intensos – mais que trepadas, às vezes. A vida segue a mesma, durante os últimos suspiros da humanidade na Terra. Vou para casa às 5 da manhã; as lâmpadas dos postes ainda estão ligadas, lutando contra a manhã, por assim dizer. É um belo horário, sempre achei. O sono vem como uma mudança binária, de um para zero; áspero em certo sentido.
Focalizo o velhinho na lente; um oriental com roupas engomadas, preparadas minimalisticamente para a ocasião de ser fotografado numa 3x4. Não pára de sorrir, dentro do chapéu e terno cinza.
- Não pode rir na foto.
Ele aquiesce com a cabeça, ainda mais sorridente.
- É, isso mesmo.
Por algum motivo, aquele velhinho me comove, e eu desisto de explicar as normas. Tiro a foto e imprimo as cópias, todas com o sorriso esverdeado estampado. Entrego a ele, que continua sorrindo. De repente me vejo a abraçá-lo; ele fala algo num dialeto que desconheço.
Almoço num fast-food próximo – o Subway. Das primeiras vezes, sentia uma grande ansiedade; a pressão é multiplicada quando é preciso escolher rapidamente entre vários ingredientes. Lidamos com isso escolhendo sempre os mesmos ingredientes, com tímidas variações. Termino o sanduíche e vou lavar as mãos, talvez mijar, no banheiro externo. Fica na parte dos fundos, geralmente deserta. As sombras do meio-dia caem opacas sobre as paredes; a luz é estática, fervendo numa espécie de monotonia póstuma. Começo a lavar as mãos. Me ocorre que é perfeitamente plausível que pessoas morram em circunstâncias assim, de maneira mais ou menos procedural; na entrada de um banheiro, indo ao urinol, num domingo. Se não conhecem pessoas próximas o bastante para dar conta do desaparecimento, podem passar dias ou meses esperando, arquivadas numa gaveta. Tem essa idosa que foi encontrada 38 anos após a morte, mumificada diante da TV, no sofá de casa. Conforme Jô Soares.
Hoje não trabalharemos à tarde, sei lá por quê – provavelmente, algum índio cagou 400 anos atrás. Fico em dúvida se vou para casa, ou se volto para ver putaria no computador. Atravessando o estacionamento plano, vejo Goreti. Deve estar indo para casa. Por inércia, começo a andar na mesma direção que ela, sem ser visto. As ruas estão desertas, e copos plásticos balançam solipsisticamente nas calçadas. Vamos seguindo por ruelas e avenidas; logo perco a noção geográfica. Apenas conheço o caminho de casa para o trabalho, ou de casa para o pub. Tudo o que preciso da cidade está nessas adjacências. A uns 100 metros, Goreti se volta e me vê. Não me cumprimenta; continuo a segui-la, sem motivo. Os prédios formam padrões monótonos contra o céu, vazio de nuvens. Ficamos alguns minutos nisso, e começa a ser embaraçoso; resolvo chamá-la.
- Goreti! – grito, acenando.
Goreti pára na esquina e se volta. Vou me aproximando pela calçada.
- Oi... E então?...Você...? – não me ocorre nada. – ...Tudo bem?
Ela ri constrangida e fala sequências rápidas de coisinhas, que não são bem palavras.
- Está fazendo o quê?
Pergunto aonde está indo, ela diz que está indo para casa; há mais risinhos.
- Mora aqui perto?
- É... bem pertinho, fica... sabe onde é a Brasil?
- Ah...
Ficamos em silêncio.
- Goreti...
Espera por minhas palavras, cheia de ansiedade. Vejo que a boca dela está trêmula – sempre está. E ela nem deve perceber. Tento pensar em alguma coisa para falar.
- Goreti, se você me pagar eu posso comer você.
Ela pára um instante. Vira de costas e dá um passo, como se fosse embora. Então pára outra vez e, afinal, sai andando.
À noite assisto um thriller no SBT, envolvendo ninjas e a máfia, mas desisto antes do final. No programa do Otavio Mesquita, ele vai passar as férias em Fernando de Noronha, com a família. Há certos momentos de comoção, vendo os turistas nas paisagens intocadas, ou brincando com golfinhos.
O dia seguinte, chego com ressaca no trabalho. A má atmosfera da sala é respirada insistentemente, oxigenando insuficientemente os cérebros, tornando-os mais áridos. Luciene pergunta se ando com algum problema; por que estou chegando atrasado, sonolento etc. – enfim, por que ando cagando o pau.
- Olha, se achar que não dá pra cumprir o horário, infelizmente a gente não vai estar podendo manter você aqui.
Digo que é um problema simples com insônia, que comecei a tratar etc. O tempo todo enquanto falo, me sinto inferior a ela, tão mais justa e humana. Grosso modo estou certo: poder é mesmo o definiens da virtude e, conversamente, o isolamento é mesmo imoral – isso tudo segue por definição. O paraíso é das coquetes.
Durante o almoço, no self-service, como carne cozida com arroz, feijão e salada de batata. Fico olhando para a foto do velho chinês do outro dia – guardei uma para mim, e levo no bolso. Vejo sem surpresa que perdeu a graça; sequer consigo imaginar por que gostei dele o outro dia. Parece uma foto normal. Amasso e faço uma bolinha, que atiro certeiramente na lixeira do outro lado da sala. Puta, minha pontaria é boa pra caralho.
Goreti não olha para mim, o dia inteiro. Fico pensando se a ofendi, mas não imagino como, realmente.
Volto para casa andando; o céu está nublado e apocalíptico sobre a cidade. É bom sentir o cheiro da chuva, e pareço regredir a um estado indefinido da infância. Os cheiros, eles ainda podem fazer isso. Sob as nuvens sinistramente sólidas e tangíveis, as casas parecem uma cenografia irreal, mas a impressão se desfaz com o tempo; as coisas, enfim, precipitam de volta no chão.
Sexta, ao entrar de madrugada na sala de Xerox, encontro um bilhete perto do computador:
Al. Brasil, 203, Parque das Serras. Venha amanhã (sábado), 22 h.
Ah, Goreti. Então você sabe das minhas visitas noturnas.
Saio de casa na chuva, sábado perto das dez. Vou andando com o guarda-chuva e tenho dificuldade para encontrar o prédio de Goreti. No elevador, lembro que não aparei os pentelhos; é provável que, após anos, Goreti finalmente tenha aparado os dela. O elevador pára no segundo andar. Toco a campainha do 203. Como ela faz? para aparar, isto é. Consegue ver sob a barriga, usa um espelho? Pede direções a um Manobrista de Pentelho? (Como os de aeroporto, só que com pentelhos no lugar de aviões).
A luz sob a porta apaga, ouço a voz dela dizendo para entrar. Abro a porta; Goreti está despida do outro lado da sala, à luz de um abajur. O quiaroscuro, ao invés de implicar sensualidade, sugere mais um tom sinistro – tão incompatível com Goreti quanto seria a sensualidade. Aparentemente, untou a pele em óleo, ou gala.
- Oi – digo, num tom natural. – Posso... hã...? – procurando o interruptor.
Ligo a lâmpada, e Goreti continua ao lado do abajur. Fico em pé na entrada, por algum tempo, vendo o pedaço de carne imóvel contra a parede; homogêneo à mesma. É desagradável olhar o corpo de Goreti, em vários sentidos; mesmo na juventude devia ser meio tedioso e repelente. Procuro algo para dizer, e criar uma situação em que eu sente no sofá, por conta da má circulação nos pés.
- E então...?
- Tudo bem – responde. – Você quer o dinheiro agora?
- Hã... Quanto você... hm...
- Eu não sei. – silêncio. – Quer beber alguma coisa?
- É, bom. Vou me sentar aqui – caminho até o sofá.
- Comprei um uísque pra gente. Vou pegar.
- Você tem cerveja?
- Não...
Tiro os tênis e as meias molhadas. Minha roupa fede um pouco; há meses não mando nada para lavar. Ao meu lado, no sofá, pego um papel que ela provavelmente imprimiu na ‘loja’. São instruções de um programa de reciclagem, mostrando como você pode usar o lixo inorgânico em casa de forma criativa, para montar pequenos bibelôs de lixo industrial. Fico olhando a sala, para passar o tempo; não há fotos ou vestígios pessoais. No lugar disso, há muita mobília e bijuteria. É um sarcófago de bibelôs, uma lápide cafona que ergueu em memória a si mesma. Sinto uma identificação; a minha tumba é parecida, só que menos colorida. Goreti partilha comigo essa ontologiazinha reduzida, de diureses e sonos ásperos, desprovidos de sonhos. Lacunas entre dois pontos de vigília; dias que podem ser descartados facilmente, como boletos, e é isso que ela faz de melhor. É o que faz de Goreti uma funcionária eficiente. Comigo não deu certo – não totalmente –, o que me torna um desajustado. Mas quem sabe, com o tempo, e o acompanhamento psiquiátrico certo. Ligo a TV e vou passando os canais, no mute; paro e fico vendo o programa onde um esquilo surfista é puxando por uma lancha, na piscina. A platéia de veranistas assiste da arquibancada.
Alguns minutos depois, começo a me sentir meio sufocado e penso em fugir, mas encarar Goreti novamente no emprego não seria possível. Me ocorre matá-la; talvez roubar coisas de valor, de modo a parecer um furto.
Goreti reaparece, dessa vez vestida, o que não melhora muito a situação. Me entrega o copo de uísque e senta ao meu lado. Passamos alguns minutos vendo TV, depois ela começa a me chupar; vou bebericando o uísque.
A pergunta “Quanto ganha um manobrista de pentelho?” me ocorre algumas vezes.
As trepas com Goreti prosseguiram de forma intermitente, por dinheiro. Nos encontrávamos em média duas vezes por semana, e lanchávamos juntos, à tarde. Primeiro íamos a uma lanchonete próxima à copiadora, mas havia o perigo de ser visto ali com ela – e vice-versa –, então passamos a freqüentar outra, muito mais escondida e segura. Comíamos pastéis com coca-cola, às vezes pedíamos tapioca; tomávamos café. Não era mau ter alguém para conversar. Sua evacuação deve ter normalizado – de todo modo, parou de registrar no calendário. Não há muito o que dizer sobre o sexo; lembro que gostava de segurar a mão dela no escuro. Havia também certa autenticidade nos abraços, mas eram de bichos acossados, não de amantes. Compúnhamos pacientemente nossa caricatura de interação humana. Anotei isso num papel, ao terminar o almoço no self-service: “Aos sobreviventes cabe mimetizar o melhor possível, mediante caricaturas disponíveis, cômicas ou grotescas, a beleza do carnífice”.
Algumas vezes dormi no apartamento de Goreti; por deliberação e sem grana envolvida. Chegou-se mesmo a ver brotar um pastiche qualquer de intimidade. Por exemplo, ela mostrou quadros que pintou na juventude, e não eram maus. Foi uma adolescente sensível, mas isso é irrelevante; essas coisas podem às vezes importar ao público – não o caso dela, claro –, mas ao artista, por que importariam?; no máximo, fazem a noite passar mais rápido. Tinha parado de pintar, desnecessário dizer, sem dúvida embaraçada ou enfadada consigo mesma, com a própria idéia de individualidade; esse conjunto de vícios e pequenas obsessões, que tentamos suprimir inventando a psiquiatria. Goreti não obteria nada, qualquer benefício; com o tempo perderia (ou apagaria) qualquer vestígio de talento, como perdi também o gosto por coisas desse tipo – arte etc. Ela também era uma idiota, agora; éramos idiotas num cubo. E lá fora, além da janela, havia mais idiotas em cubos.
Cerca de três semanas depois, parei de vê-la; no trabalho, retornamos à velha rotina. Passei a evitar o contato visual – ela fez o mesmo, em resposta. Encontrei um novo site pornô gratuito, por essa época, e ocupei noites com downloads; estranhamente, não sentia medo caminhando de madrugada no centro.
*
Chego ao trabalho e não vejo Goreti no caixa. Mais tarde, Luciene diz que ela simplesmente pediu demissão, e pergunta se posso ajudar com a sobrecarga de serviço, por ora. Já está procurando um substituto. Digo que pode ser; ela recompensa meu servilismo com um pastiche de conversa amigável, concedendo, por um momento, que participemos da mesma raça. É bonito ver como ela se dedica a este esforço humanista; às vezes, sua cumplicidade beira o autêntico. À tarde vou à lanchonete comer merdinhas cinzentas. Não há dúvida de que um dos pré-requisitos para a individuação é ter uma vasta conta bancária, penso, mordendo uma queijada, compactuando com meus semelhantes. Voltando à copiadora, paro na banca, embora nunca tenha interesse em comprar revistas. Lá fora, blocos altos, arquiteturalmente estéreis; cores brandas e uniformes. Naquelas janelas, transações importantes e ininteligíveis para mim, ostensivamente maiores que minhas pequenas preocupações diárias, acontecem num ritmo vertiginoso e eficiente. A sensação impotente de microscopia e medo frente a esses prédios cresce num continuum – ao mesmo tempo, cresce a necessidade da segurança que provêm. À noite, assisto um vídeo em que dois americanos comem uma empregada latina; ela geme algo desse tipo: “Oh si si si, me gusta mucho.. oh... oh que rico... yu dique es muy rico...oh... yes... que bueno...”. Minhas punhetas são interrompidas por digressões, como de hábito. A imagem da Via Láctea é particularmente reincidente; a galáxia espiralando em silêncio para dentro de si mesma; escoando para aquele buraco negro no centro, parado lá como uma boca sem face, inumana e paciente. A radiação invisível ocupa e envenena o vácuo, eliminando a possibilidade de vida.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
À venda
Os desenhos e cartuns desta página estão à venda. É, eu sei, era para haver um portfolio no carbonmade e todo esse elevado patamar de excelência e profissionalismo, ó, meus únicos e sinceros amigos; que é da velha glória irresistível da autopromoção? Mas por enquanto é isso. Incluam estes aqui no balaio:
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Contato: dliberalino@yahoo.com.br .
sábado, 27 de setembro de 2008
Juventude - I

Possuídos pelo espírito de Kropotkin bebês hipervitaminados dizimam suas famílias na sala-de-estar. Chore pelos Budas hipertensos, suas próstatas hipertrofiadas na placidez bovino-inseminativa da costa, cutucam as glândulas mutuamente para refrear o recrudescimento contínuo numa aceleração vertiginosa alcançando massa transfinita - a próstata universal leibniziana, causa sui ocupando a totalidade do espaço-tempo, colapsando por fim a realidade em um único buraco negro, nos bastidores o carismático entertainer Bozo espanca alcoolizado a célebre atriz da golden era Judy Garland – hit me baby one more time [risos e aplausos], estava então no auge da velhice quando aos 23 entrou intoxicada e sórdida procurando por emprego, o performancer lhe faz promessas de produtor aperta aquele traseirinho clássico como uma bela e abençoada sonata pontificial, tem planos para a eterna Dorothy; mais tarde interrompe o número de malabarismo descendo do palco devorando as cabeças histericamente entretidas de 74 crianças – "Eu tive uma mãe castradora", grita o showman imerso em sangue inocente; é surpreendido por uma chuva de dardos tranquilizantes disparados pela equipe da Taiwan Thunder Squad descendo de helicópteros reluzentes, soldados dependurados do teto desenvolvendo graus extremos de cumplicidade filantrópica genuína, etc. – realmente aborrecido, chega a noite e estou relaxando untado em loções corporais coletadas nos picos vulcânicos do Ararat detentoras de raras propriedades terapêuticas, ponho a cabeça da minha avó no microondas que explode disparando o apêndice vão da meretriz ignominiosa como uma bala atravessando continentes pulverizando o Empire State Building boom, a grande tragédia do século; não pôde ser evitada; o dia fatídico oprime nossas almas, o apêndice apocalíptico trouxe consigo uma era de insegurança e terror – ainda brincávamos no jardim então, veneno espalhado pelos C.E.M., atrofiando a capacidade de conexões interpessoais autênticas num raio de 1000 parsecs, cansa-nos rapidamente a mesquinhez dos néscios em procissão agora equacionada num horizonte previsível de eventos e risco controlável; fatura-se alto sobre a nanometria do dia, belo dia cheio de sol, os mais íntegros como eu acabam se lambuzando também. Tudo pelo que se viveria termina por definhar em presença da peste sutil. O lastro da infâmia conquistara minha atenção, le petit déjeuner dominical nulificado, um carisma infinito; desvelo as nádegas encantado.
Spock, deixe o garçom ineficiente de um famoso restaurante grã-fino viver, escrevi no bilhete - coloque os cintos, o caminhão cargueiro marca daquele vulcaniano irresistível creme de la creme tocado pelo destino atravessou célere a ponte levadiça e cortou o ar em slow motion como uma estranha bailarina Kirov a diesel, pousando exatamente sobre Pierre o garçom ineficiente. De repente, eu estava curado de toda miséria interior. O sol morria como um cristo hiperplásico diluindo na broncodilatação do ocaso, a quietude litorânea reprocessada. “Não se envergonham de ir à sua vida como a um concerto deplorável”, disse Spock acendendo um Malboro, seus poros brilhantes ao poente. Um projeto assinado e 99% das vezes arquivado. Veja essas hordas de almas definhadas, sucumbidas sobre si mesmas, olhe bem garoto. A solidão é um problema maior para os estúpidos. A amargura é quase sempre reduto da estupidez. Somos hordas estúpidas. Tal como no teatro somente aplaudimos nos momentos errados; os insetos são esmagados na multidão. Oh, o tempo não espera por ninguém whew! take it to the limit, cante como o pássaro, o pássaro gastrítico da vida, buscando na selva pequenas provisões de bicarbonato, como o filatelista enternecedor livre na floresta correndo coletando frutas; em sua simplicidade neo-marxista cante como o filatelista, sua ereção matinal interrompida, incorpore traços evidentes de materialismo dialético, não morda mais do que pode mastigar oh granny granny show me the money!, socando-lhe o estômago, chutando os testículos do maldito filatelista que faminto a exumava, à minha avó gorila, seu inviolável kit de limpeza de baço consumido pelo devir. Eu não sabia ainda que o negócio dos selos era pouco rentável, eram tempos osbcuros; sua relação com a falecida era estritamente nutricional. Enfiei-lhe o revólver entre as têmporas vacilantes. “Você exumou o sangue do meu sangue”. Ele tremia. Como alguém que ia morrer. Era um dom premonitório divino. “Você não está propriamente vestido para uma bala na testa”. Guardei o revólver. Então retirei de volta a arma e disparei. Eu matei um filatelista, eu fui amaldiçoado por trilhar um caminho profano, meus selos jamais colarão nas cartas com saliva novamente. Eu olho no espelho e sinto que estou diminuindo a cada dia, ficando menor e menor em todos os sentidos. E à noite quando saio nessas ruas, microscópico, impelido pela sensação reincidente de que falta algo ao dia, losers insones espectrais em postos e rodoviárias superpopulando o mundo trancados nos claustros espermáticos usuais, hotéis a 20 paus a diária, lendo uma Bíblia mórmon com garrafinha de água Indaiá sobre a TV em mute. Sua impassibilidade e afinal sua indiferença regulam a digestão dia após dia, aumentando a expectativa de vida. Há tempos não dou palavra com velhos conhecidos, embora ainda lembre das velhas canções; é natural, me sinto uma parte homogênea do lugar; claro e acessível como o resto, procura-se sem muito interesse por velhos formatos tornados mais simples, transparência de procedimento etc. O café está sempre uma merda no posto. Jogo na lixeira o sucedâneo da colher - um palito plástico – e fico ali com as lâmpadas clínicas vibrando tacitamente no meio do deserto secreto que invade a cidade após as 2 am., um Saara de sachês rasgados, máquinas de café expresso, beirutes industriais e heinekens – a árida, precisa ontologia das 2 am nas lojas de conveniência, para perdedores desenganados. São as próprias sombras desinteressantes petrificando as faces, amarelas em sonho farmacológico, e ali estou eu entre eles. Oh posto de gasolina, limbo dos frustrados; pregos que não conseguiram se divertir na cidade e se bastam com o restolho de vida noturna. “Aqui jaz o detrito terminal da possibilidade”, letreiro iluminado. Você vai à loja de conveniência, encontra algum conhecido, fala alguma merda e aí cara beleza? abreviando a conversa e aquele projeto?; tal e tal. Compre suas cervejas. O senso de participar de uma comunidade global porque viu os mesmos filmes cretinos e ouviu os mesmos paus-nos-cus. Oh boy, I’m horny. Terminando o café, me abranda a curiosa vontade de quebrar semáforos em cruzamentos. Parece o mesmo dia há 3 anos, provavelmente mais, eu sei que não tenho sido bom com o meu pau, essas putas não contribuem para minha contemplação elegíaca andando por aí impunemente como entulhos semióticos, esse é o ocidente e você tem duas possibilidades: ser miserável com ele, ser miserável sem ele. Podia ouvir pelo resto da madrugada os sussurros saindo das janelas da cidade como serpentes translúcidas, brancas, cheias de segredos sórdidos, vulgares, débeis e mesquinhos, pequenas perversões, cavando buracos em si mesmos e se enterrando dentro deles; você lembra de alguns funcionários, alguns parecem familiares, vozes póstumas confusas dos velhos pastiches de intimidade despertando uma inadvertida ternura geriátrica, mas agora sou o forasteiro melífluo, porque se você já esteve lá sabe que não se ouve nada à exceção de rangidos – da cama, quando revira cafeínica na superfície áspera do sono para acordar com vagas lembranças de inquietude, como se teletransportado diariamente, até a saturação, há transparência nisso – dias escoam, não é tão mau. São como os envelopes de cobrança chegando todo dia, você não abre faz anos, se acostuma a uma felicidade modesta.
A noite seguinte chegara num micro-segundo. Nizete me perguntou se eu queria uma coisa especial, sentada no meu colo. Ela devia perguntar isso o tempo todo. Uma tática razoável. Seu público tendia a ser circunscrito a freaks sociofóbicos demais para visitar um puteiro, párias hipertensos frustrados, anos de trepadas frígidas com esposas infiéis escorregando no pepino de alpinistas sociais e enfim recorrem a profissionais para compensar, mal-disfançando os vincos tortos deixados pelo fenecimento da humanidade própria e por décadas de onanismo autoconsciente, petrificando as glandes em pequenos Atacamas tristes. A coisa começa a parecer como lamber e esfregar paredes, e eles sonham com chicotes mágicos profissionais e com línguas mágicas profissionais ressuscitando os paus exangues do Ocidente. Eu queria algo especial? Eu não sabia, o que era especial? Acaba tudo em gemidos brilhantemente encenados, não me incomodam, mas desisto logo, ela sai arrastando sua cistite, minha libido arruinada por pornografia publicitária e idealizações. Aí deixa-se a coisa para trás. Eu já estava voltando da biblioteca pela Av. 23, postes, faróis e vitrines, imaginando se Nizete pensava em alamedas, se ela gostava de pensar como eu que a 23 era uma alameda. Alameda, alameda, alameda... uma alameda sem álamos, tal como são as alamedas. Não olhei para cima, mas ali no chão tinha uma lanchonete brilhando como um satélite, e me fez lembrar a noite clara na Várzea Nova, propriedade de um amigo dos meus pais. Mudando de margem na rua quando via alguém, e logo estava passando pelo ‘córrego’, um esgoto a céu aberto que lembra um rio numa reserva natural senão pelo odor de merda e as nuvens de detergente, ou seja lá o que fosse. Parava lá quando voltava da universidade para olhar aquelas nuvens sintéticas – desde criança gosto delas – e para ouvir o arrulho da água, que me fazia pensar em regatos reais e viagens, embora eu não tivesse consciência disso na ocasião. O som do esgoto equivalia às vezes a estar com pés submersos na lagoa do acampamento onde pescávamos quando eu tinha 8 anos, um lugar com grutas e água exata, você via o leito com nitidez, os peixes comiam pedaços de pão nos dedos das pessoas. Agora eu passava pela ponte, pensando monotematicamente, olhando a espuma lá embaixo no escuro até despencar em digressões. E aí passando a pensar monotematicamente sobre as digressões. Uma das coisas que pensei é que nunca estou no presente ou no passado, mas no futuro, esperando o instante em que a vida vai começar. De modo que tenho vivido num limbo, aguardando no vestíbulo da vida; um purgatório prepóstero. Quando começa a coisa efetiva? Quando tiver feito algo capaz de redimir minha mediocridade? Quando tiver dinheiro ou reconhecimento, imagina-se. Essas coisas não acontecem, e provavelmente não são satisfatórias, e não se pode viver para sempre à sombra de um mérito passado – além disso, é mais provável que só faça sentido continuar pela expectativa de alguma coisa, um objetivo qualquer, o que inelutavelmente condenaria a humanidade ao vestíbulo - nem tão eterno, pelo menos. Me apoiei na balaustrada de concreto, ainda apreciando a rede de escoamento. Só é possível viver para suprir insatisfações e concluir na hora da morte o indesejável, que o tempo todo se esteve preterindo viver quando viver era o preterimento, congelado à frente como um redemoinho imóvel consumindo a enseada, a espera fastidiosa, mas não se pode por outro lado abandonar todos os planos – mutatis mutandis todas as insatisfações –, e portanto tudo é meio estúpido. Não tem nada de tão especial em estar vivo, dizia a mim mesmo, olhando os padrões retangulares de concreto e vidro nos prédios; é assim para toda a natureza. Eis então a melhor perspectiva possível. Senti vontade de caminhar no parapeito, como se ainda tivesse 8 anos e esses impulsos não houvessem sido sistematicamente re-ajustados, ou esvaziados de significado. Não era tão perigoso, um homem sabe se equilibrar, de fato a maior parte do que se supõe perigoso é seguro e vice-versa, portanto tudo é igualmente perigoso, ou igualmente seguro. Mas não caminhei no parapeito. Continuei o trajeto para casa e havia colegiais explodindo em hormônios dentro de roupinhas coloridas, duas delas recostadas à placa fálica na entrada de um hotel, como efemerídeos orbitando o grande oásis fálico reluzindo na noite fria e impessoal.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Lipoaspire o superego
Recebo uma ligação. É o Dr. Klaus. Marco com ele uma cirurgia para remoção do meu superego. "Aqui está", diz, balançando meu superego imerso num líquido conservante vermelho dentro de um tubinho. Era mesmo um simpático pedacinho de encéfalo. "Amarrei essa corrente para poder usar como chaveiro, se quiser". Pensei em doar para uma Instituição de Auxílio ao Genocida Desempregado, acabei deixando na estante como decoração. Encontrei o tubo vazio ao lado do indivíduo obeso de portentosa barba que dormia nu sobre meu sofá de camurça, ao lado de duas prostitutas, ao lado de várias coisas não identificáveis, ao lado de poças de vômito, na manhã seguinte a uma comemoração em minha casa. Fui até o mencionado indivíduo, caminhando sobre um tapete de coma alcoólico que agora adornava a minha casa como um bucólico pomar genital. Deveríamos sempre nos esquivar de contatos malsãos. Acordei o misterioso organismo e perguntei se ele lembrava de ter bebido o meu superego. Conforme explicou, encontrara o frasco entre as mini-garrafas de martini e absinto, então bebeu o líquido vermelho e cuspiu fora "aquele treco nojento que tava boiando lá dentro". "Aquele treco que estava boiando lá dentro", expliquei, "era o meu superego". "Vai se foder", disse, voltando a dormir. Então fui até a cozinha para organizar – pelo critério de pertinência cultural a etnias devastadas, em ordem crescente de sobreviventes – os meus bibelôs magnéticos na porta da geladeira, e vi um sapo que me encarava ali parado, no chão. Fitei por alguns minutos aquela protuberância anfíbia da realidade, dando tempo necessário para o input da retina ser aceito pelo cérebro, arquivado e processado, então devolvido com um carimbo de “RECUSADO” pelo córtex visual – e um post scriptum: “Estou indo tirar férias num spa em Puerto Rico”. Aí uma mosca pousou à frente do sapo. Este fascinante anfíbio anuro automaticamente disparou sua língua, a qual se deteve hesitante antes de alcançar a presa. Ficou congelada naquela posição.
"De que ponto de vista metafísico - presumindo que uma tal premissa poderia com efeito proceder - seria eticamente justificável o reprocessamento de nutrientes deste inseto, visando meu benefício exclusivo, todavia às custas de sua vida?", disse uma voz advinda do interior do sapo. "Ora, excluindo do conjunto de 'axiomas' de um suposto sistema ontológico quaisquer imperativos categóricos ou princípios governantes universais, restaria porventura a possibilidade de alguma forma de 'igualitarismo ético imanente' para as moscas, em que a Imanência como um todo corresponderia a um unicidade estática, não-kinética; um estado de absoluta imutabilidade platônica singularista? Isto seria contraditório com a assunção inicial de ausência de princípios universais, quando não um mero artifício ex nihilo, é claro, mas-".
"Superego, é você?", interrompi.
Levei o sapo para fazer uma endoscopia, no mesmo hospital aonde levei para fazer lavagens estomacais comigo tantas garotas, mulheres que acendem a paixão platônica em minha efêmera glande; espécimes fêmeas do homo sapiens que, como uma chama ardente, um furor replicativo, despertam-me o Clark Gable darwinístico interior.
- Minha pequena flor de lótus gastricamente desapossada, vamos àquele outro endoscópio. O endoscópio do amor.
Por um golpe de sorte, meu superego havia sido apenas parcialmente digerido. O sapo retratou-se pelo vexaminoso mal entendido, e nos afiançou que, antes de ser acidentalmente transformado em anfíbio por um professor de tai chi chuan durante uma breve experiência homossexual numa piscina térmica natural do Tschyigen Grand Hotel (Alpes Suíços), era um bem-sucedido microempresário do ramo de equipamentos para auto-imolação. Eu lhe disse “Ei, por que não deixamos isso tudo pra trás e pegamos uma sauna?”. “Eu gostaria de ir com você, meu amigo, mas a minha espécie apenas sobrevive em climas temperados, e a mais leve variação de calor faria o meu pequeno corpo explodir, ou perder todos os privilégios na divisão de bens em caso de divórcio”. Lambeu os olhos com a língua, sutilmente. “Isso seria terrível”.
Assim, esquecemos a sauna e combinamos de nos encontrar na terça, para testar os limites neurofisiológicos do isolamento, privação de sono e abuso psicológico extremos. Marcamos de ficar numa prisão em Cabul, Afeganistão, para onde iríamos disfarçados de terroristas.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
it. silo G6, bs. central nv. encom.

A enchente de distração devastou o ambiente doméstico do bom selvagem, a clareza de princípios do Papai Smurf. Desregulou a menstruação de sua filha bastarda Smurfete. Tivemos que dar cabo daquele vilarejo smurf, eu e o tenente Brock, aqueles malditos vermes sujos; tudo explodiu numa chuva de granadas supersônicas, invadindo os flancos numa unidade anfíbia da infantaria, quadrante 3. Lançando mísseis balísticos intercontinentais pela minha glande anti-radar. Uma prostituta cuspiu na janela do meu carro, ouvi gritos púberes contaminando a bosta jovial na noite de possibilidades, o ritmo excitante da cidade que nunca dorme; aceno para a procissão de colegiais zumbis inseguras sobre o tamanho de seus seios. Desenvolvem recalques eternos e perdem o controle sobre os filigranados mecanismos que regem suas vidas sociais ajustadas, como braços mecânicos de branco cromado encapsulando comprimidos em série – o claustro lhes impingiu a disfunção social e a amnésia; a ilusão drenou seus poderes. Estávamos entediados sobre o quadro geral.
- Ei Gostoso! É, Você Mesmo!
Boa música, bom papo e drinks deliciosos.
Sinta o calor de Natal, onde moram amigos e pessoas que você gostaria de conhecer e convidar para lugares, lugares onde você gostaria de andar de um lado para o outro, banheiros onde você gostaria de permanecer estático – eu paro ante um sensor de descarga [minha presença é ignorada] cruzando a atmosfera branca entre linhas eletromagnéticas invisíveis. Fariam a sua vida valer por um instante (as letras submergem no background etéreo). São as pequenas coisas que valem a pena e que esquecemos, porque você ficou míope de espírito, criança – Dê um presente a si mesmo e encontre esse alguém caucasiano, sudoríparo, esse jazigo feromônico que compreenderá sua inadequação ao protocolo majoritário vigente na presente jurisdição (oh, esta cláusula arbitrária etc.). Ouça a voz hormonal do universitário intimista. Deixe-se perder em seus braços firmes e acalentadores, o vocalizar compreensivo, o glorioso carisma da aura pubiana, quando se nos entorpecem os sentidos à noite no seu scooter reumático, banhados pela póstuma luz do estrogonofe. Dado que sua individualidade fragmentada caiu divinamente bem na minha terrasse, e eu estou reconfigurando definições de aridez em segredo, sentado ao seu lado [banco de passageiro] ouvindo alguma merda no mp3 player do deck – adulterava distraído nossas memórias conjuntas em norte a uma espécie de esterilidade total instantânea ≈ morte fulminante na banca de mestrado explodindo incontinente ao regaço do luar nas autênticas serranias gaúchas, ande paranóico para casa reconstrução cosmética – ei gostoso! É, você mesmo! [cadeias reiteradas de informação contraditória podem produzir modelos conflitantes]filtro de spam, exclusivo para computadores autoconscientes, ciborgues inseguros, clones beatnik com édipo e fixação anal produzidos e exportados em larga escala para a Coréia do Norte – sou o seu homúnculo estéril e agora, Nostradamus com a previsão do tempo. Eu não quis queimar o seu beagle em rede nacional, apenas segui à risca o meu mapa astrológico o que está acontecendo? Novos padrões de configuração para seu sentimento de culpa ei Gostoso! É, Você Mesmo! define acesso personalizado
[Coerência um ruído do processo etc. – tem experienciado déjà vu frequentemente?]
Permiti que sua namorada defecasse em meu lar, no vaso imbuído de valor sentimental que é o legado indelével do meu tataravô Desktop Mascarenhas Speak Spanish II. Era o mínimo que um amigo podia fazer por alguém que pode fazer o mínimo que um amigo pode fazer. Como mediar um encontro marcado à luz de velas entre minha cabeça e uma bala 38 mm, you self-obsessed pile of shitty white trash fear-driven solipsistic autopromotional wasted scum. “É a porra do Casablanca, fio, então é melhor começar a chorar”. “Fique peixe ol’ chum, sua namorada pode cagar o quanto quiser na minha casa. Mesmo que ela enfie um sprinkle no cu e saia jorrando bosta por todo lado - mesmo assim, não vou implicar. Mi casa su casa. Mi privada su privada” [Instanciação do Operador Universal] – o gás tóxico expelido pela sua namorada dizimou meu vilarejo; minha família devotada a afazeres tradicionais, impolutos pela compulsão vazia das multidões anônimas toxicologicamente dependentes de entretenimento homeopático. Minha família de ciborgues do futuro era o totem nunamiut da frugalidade pastoril. Em seus módulos internos de fissão nuclear, processavam apenas o verdadeiro pão montanhês, produzido com o autêntico trigo das montanhas. Era um povo simples, que sabia o valor de estuprar um carneiro. Uma gente humilde, que conhecia o significado de relações interespecíficas, bálsamo de Deus para a solidão nos pampas – estats. rct. revelaram que 76% da população rural são vit. de psicopatologias resultantes da superexposição a esposas e vagem; 69% sofrem de uma doença venérea, mais epidêmica que a AIDS, conhecida como matrimônio – e não foi outro senão esse o povo sofrido que estava lá quando precisamos de um ombro amigo no amor, e de um escudo humano na guerra. Pois esse é o caminho dos meus antepassados rurais, homens de suspensório que conheciam a importância da escravidão infantil enquanto método pedagógico e ademais recreativo, mantendo a tradição milenar de seus antepassados ruidosos homofóbicos de boa fé. Espíritos tolerantes que acolhiam a igualdade entre homens e pobres, negros e humanos, mulheres e animais. Não foi outro senão meu tio-avô que pioneiramente defendeu a liberdade feminina para cozinhar, costurar, parir, morrer quando espancada, apodrecer quando morta, evaporar quando podre, e hoje não é raro vê-las saindo de casa aos fins de semana, ou em feriados nacionais. Era esse o povo desprovido de complexidade psicológica cuja vida foi roubada – sem o mais simples e remoto titubear de clemência – pela instabilidade esfincteriana de sua namorada. Aquela que devastou minha árvore genealógica ao expelir uma nuvem tóxica cataclísmica de metano, dude, logo cooptada pela Al Qaeda em seus laboratórios subterrâneos dentre os quais metade apenas justificável por uma intensa fixação anal. Aqueles beduínos sujos finalmente conseguiram, Tucker o Estilista. Superaram em eficiência todas as nossas armas químicas de destruição em massa precedentes, e agora lambemos do pau deles as fezes dos nossos pais.
Agora, Sampaio, importamos carregamentos da fina barba islâmica. Do brioso pêlo pubiano árabe (toneladas e toneladas).
Nosso sangue é a tinta que sua prole muçulmana usa para pintar no primário.
Presenteei o Nogueira, meu cunhado, com um kit de caipirinha e outro de harakiri. No programa de entrevista, modelos conflitantes de informação derretem a cabeça da atriz mamária do seriado Baywatch.
*
A atração maior fica por conta da noite.
A sonda detecta um fator de tumescência lúbrica no cu do PM. Instala-se um clima de paz e harmonia; este é apenas mais um charme dessa atmosfera de descobertas. Ele procura sôfrego a silhueta do dildo primevo nos olhos monofásicos da noiva, anteposta a um referencial ideal estático no vazio. Sua identidade era o prurido militante no prepúcio do reitor; como o dia em que partimos, visto que não sabíamos quando rolaria a festa. Levamos nossas mães acorrentadas para a assistente social, aquele ser testosterônico e seu distúrbio glandular, timidamente escondida sob as camadas de pêlo. Em dias de lua cheia, transforma-se em humano, improvisei, mas você não ouviu; checava os seus créditos convalidados – seu olhar, perdido, como uma borboleta numa fossa abissal atlântica; como um fragmento de cream cracker numa praia artificial da Siderúrgica Debrasa, passe um fim de semana com a família e pegue um bronze nesse paraíso sintético que emula com perfeição o litoral sul da Bahia em 1500, incluindo índios esquartejados em cerâmica*. Mas era tarde, tão tarde que Carole King encontrava-se em situação privilegiada no que concernia à disponibilidade de tempo em "It's too late". Era tarde para reportar os danos nos it. do silo G6, bs. central nv. encomd., para esquecer a vida enquanto andamos e contamos ogivas VS-1 termo-sensíveis em Itapuã, ao sol que arde em Itapuã (centro comercial), tarde para eliminar aquelas desagradáveis manchas epiteliais de maneira rápida, indolor e letal – uma delas disse “eu não sou um câncer”, com uma vozinha aguda, mas estava mentindo, tentamos processar seu melanoma e aquele jurista que era fã de Ally McBeal, uma atitude inconstitucional e outrossim um chocante crime em lesa-conduta; acordei deitado num viaduto, sob o céu limpo da tarde californiana. Um engarrafamento quilométrico se estendia diante dos meus sapatos, para além do horizonte. Não os ouvia buzinar, os carros, porque o tempo havia parado, ou era um efeito dramático ou sei lá. Sentindo o asfalto quente e estéril, assistia em silêncio as redes de encanamento crescendo e formando padrões no céu, apagando o cheiro morno de sua camisola de dormir; o tecido que pousava como mariposa sobre os seios prenhes de sono, puta ordinária etc. O prazo máximo para a transação autorizada era de 30 dias. E eu disse ao auditor: “nunca dediquei à minha vida pessoal o mesmo cuidado devotado às notas fiscais, meu quirido. Minhas memórias e minhas experiências solitárias insones, estas nunca as arquivei em local seco também evitando contato com plástico e diesel, dejetos químicos e luz do sol, lâmpadas fluorescentes e outras fontes de calor. Au contraire, meu doce auditor, au contraire, porque tendo a esquecê-las com eficácia prestidigital. Sou o ás do esquecimento instantâneo. Então preciso que me diga isso agora, baby, preciso que me diga; diga-me, diga-me, auditor fiscal, diga-me agora: qual o COO do documento vinculado? Pois não posso continuar sozinho, sem receber em minha pele a precisa qtd. un. Vl unitário de calor animal que emana de suas antenas multipath de reflexão ionosférica”.
* Taxa adicional para índios esquartejados reais.
segunda-feira, 23 de junho de 2008
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Sobre a convalidação dos seus créditos, criança
Ordem dos textos:
Ereção fatal I
Sanduíche de linfogranuloma
Travessuras exóticas com o pequeno Lama
Ereção fatal II
Como adquiri imunidade à varíola I
Como adquiri imunidade à varíola II
Está ouvindo, híbrido de réptil com feto humano?
Port decode error detector
Ruído branco
Tacuinum sanitatis
Técnicas de hidroponia
Relatório resumido da execução orçamentária
E isto é o que você, cidadão médio, procurava antes de ser direcionado a este site:
manipulação trazodona ereções
flagrei meu pastor adulterado
experiência bala comestivel perfura um coco verde
enlarguecimento de penis e necessario
como saber de onde vem o ruído apartamento
alimentação de carne larvas digestiva no dia do passe espirita
delirio da auto-acusação
depois que começei a usar anfepramona sinto falta de ar
conservantes usados em necrotério
pictograma de criança cega
relatório da minha vida
aparelho reprodutor hermafrodita
cooper aquatico
lugar recreativo mórmon
operacao no japao de adenoide
fotos cadaver nervo isquiático
quero ver fotos de cancer nos testiculos
exoticas.com
telefones com teclas gigantes
copo homano e seos orgâ
um dia na minha vida social
tudo sobre o frisbee
vida social
tudo sobre o linfogranuloma
cientologia herbalife
Você está provavelmente morto a essa altura, mas não há melhor maneira de encontrar um lugar recreativo mórmon, aye?
segunda-feira, 16 de junho de 2008
Bebê crocodilo no esgoto
quinta-feira, 27 de março de 2008
Ossos do orifício

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Algumas antigas - disque N para neurastenia:
Húmus
Moral predominante
Mulheres bidimensionais
Chewie
Crappy place
Está ouvindo, híbrido de réptil e feto humano?
“Querida, você pôs um híbrido de réptil e feto humano no leite outra vez?”, perguntei. Júlia tentou disfarçar, mas estava claro. “Eu disse um milhão de vezes, amor. Não adianta. Eu posso dizer um milhão de vezes que não gosto, mas é sempre isso”. O híbrido de réptil e feto humano moveu os bracinhos dentro do leite, soltando pequenos suspiros de prazer. Seus bulbosos olhos negros abriram um pouco, então voltaram a semi-cerrar, imersos em tranqüilidade uterina.
“Híbrido de réptil e feto humano, saia do meu copo de leite agora”, ordenei eu, ríspido. Ele chacoalhou e balbuciou uma seqüência desarticulada de fonemas, como um bebê. “Agora. Está ouvindo?”, insisti.
“Está ouvindo, híbrido réptil e feto humano?”.
(Se me permitem tecer um breve comentário, meu problema com híbridos dessa natureza tornou-se pessoal desde que expeli um deles pelo reto e, anos depois, vi na TV este pequeno rebento de minhas entranhas devorar a alma de Ricky Martin, que encontrava-se então absorto em sua missão peregrina pelos Andes, mediante a qual visava descobrir, em seu interior, uma forma de induzir porcos geneticamente manipulados a defecar milkshake).
Lenta e relutantemente, ele escalou a borda do copo e saiu, engatinhando pela mesa, deixando um rastro de leite. Finalmente eu poderia voltar a beber o meu leite em paz.
“Está ouvindo, híbrido de réptil com feto humano?”.
Eu, que sempre sonhei com uma casa vazia, de cômodos brancos, e vazios; uma casa vazia com um grande copo de leite na sala de estar; uma casa na qual eu entraria, emerso da ofuscante luz branca. E caminharia até a sala de estar, e apanharia na sala de estar o copo de leite. Devagar escalaria o copo e submergiria; beberia o leite, uma pausa entre cada gole; então sairia e, ali dentro da minha nova casa vazia, vagaria; de um vão a outro.
Devagar.
Eternamente.
Sim.
Eu. Eu, meu fiel sociólogo soviético positivista. Eu, que sempre sonhei com copos de leite, alheios a estes quantos – oh, tão antiquados – híbridos de réptil e feto humano. Eu, que visito fazendas, pessoalmente, e pessoalmente seleciono as vacas que fornecerão o meu leite. Eu, que as ordenho eu mesmo, as vacas, com estas mãos que deus me deu, ou me valendo de um prático ordenhador automático de bolso – o versátil Milker 3000 –, com o qual premiaram-me pelo primeiro lugar no Campeonato Estadual de Soletração.
Eu, que sou, pessoalmente, uma vaca. Eu que... eu... eu sei... [Silêncio]. E-eu que apenas gostaria de ser uma vaca...
eu que não sou uma vaca realmente. [Silêncio]
[Cruza as pernas. Descruza. A perna treme de ansiedade. Olhos inquietos. Coça o nariz]
Deus, me desculpe, e-eu... Eu sei que não posso...
Eu sei que não posso s-ser uma vaca.
[Encolhe-se. Cruza os braços, como se tolhido por intenso frio]
Mas eu continuarei tentando. [Monta um cavalo, diante de um exército medieval trajando batas cirúrgicas]. Sim, eu continuarei tentando, minha psicopatologia resultante do consumo acidental de resíduos de cádmio extrudido de crateras irrecuperáveis de sedimentos tóxicos de mineração com 2km de diâmetro e 500m de profundidade que não violaram responsabilidades acionistas.
Eu continuarei tentando. [Os soldados apóiam com um urro]. Sim... Sim. Eles podem me ferir. Eles podem me matar. Eles podem até retirar minha pele com um cortador de grama elétrico, costurá-la de volta ao avesso, então me conduzir a uma sessão prolongada de bronzeamento artificial ultravioleta. Mas ninguém pode me impedir de fiscalizar pessoalmente a proveniência – e a adequação da qualidade aos padrões de higiene – do meu leite.
Os soldados neurocirurgiões medievais da cavalaria urraram polidamente, levantando seus fórceps e bisturis, então imergindo em silêncio e em seus afazeres recreativos insatisfatórios envolvendo objetos de escritório. “Eu discordo”, disse um deles, tímido, referindo-se ainda ao discurso, mas ninguém deu-lhe atenção – estavam todos absortos em seus conjuntos de esferas metálicas que transmitem energia mecânica da primeira esfera para a última.
- É tão excitante demonstrar a correção da física newtoniana se aplicada a objetos de tamanho médio – diz um deles, sorrindo.
- O que você está dizendo? – perguntou o cavaleiro medieval neurocirurgião com Pós-Doutorado em Fisioterapia na Oxford University e que estava ao lado, fitando-o sério. - Nós fazemos isso por tédio – informou.
- É, nunca há guerra nenhuma aqui – corroborou outro.
- É tão frustrante...
Os demais concordaram.
- Não tem ninguém aqui a quem nós possamos declarar guerra. Só tem essa merda de grama, para onde se olha.
- Por que não declaramos guerra à grama?
Fizeram silêncio.
- Eles estão em maior número – alguém observou.
Os demais concordaram.
- E os caras da otorrinolaringologia?
- Estão no plantão.
Silêncio.
- E os mórmons?
- Nós já explodimos a Base Mãe Mórmon no Centro da Terra ano passado.
- É, junto com a Grande Mórmon-Rainha. Lembro de ainda ver aquela puta expelindo uma boa centena de ovos mórmons, alguns segundos antes de ser detonada por 5 toneladas de napalm.
- Merda, foi como um momento de iluminação divina. Ver todos aqueles pedacinhos de larvas e ovos mórmon voando pra todo lado. Parecia a porra de um Renoir.
Os demais concordaram.
- Ei, o meu conjunto de esferas metálicas veio com problema. As leis da física não estão funcionando com ele – disse um dos soldados neurocirurgiões medievais da cavalaria, empurrando a primeira esfera repetidamente, e em vão. – Merda, eu vou ter que comprar outro. Já é o terceiro esse mês.
- Por que não declaramos guerra contra aquele pato – sugeriu um deles.
- Mas aquilo é uma pedra.
- Nesse caso será uma vantagem para nós! – observou alguém, entusiástico.
- Não não não, é um pato. Tenho certeza. Olhe – disse o primeiro. - É um pato.
- E-eu não sei... Eu ainda acho que deve ser algum tipo de pedra móvel... – insistiu o segundo.
- Não importa. Vamos declarar guerra àquilo, soldados.
- Hã... sim, sim... ok... sim... vamos... – disseram os outros num burburinho confuso, rumando lentamente em direção ao pato, ou à pedra móvel.
O exército de cavaleiros medievais neurocirurgiões matou o pato e todos retomaram seus afazeres recreativos insatisfatórios envolvendo objetos de escritório.
- Ei, vejam. Era uma pedra disfarçada de pato – observou um deles, alguns minutos depois.
Contudo descobriu-se só em meio à desoladora vastidão montanhosa, e assim decidiu que dali em diante seria um pastor de montanhas, evitando que fugissem em rebanho. À noite, com o olhar perdido na abóbada celeste, compôs para os astros distantes versos idílicos de rara beleza, entoou para a lua doces e bucólicas melodias, e quando já se masturbava para as estrelas, foi subitamente atropelado por uma frota de caminhões. Se eu ao menos tivesse visto o semáforo fechado, disse ele a uma das funcionárias do necrotério, com a qual conversava sobre amenidades enquanto era por ela autopsiado. Sentiram faiscar entre suas almas uma conexão especial, algo mágico na química daquela relação nascente; algo que desabrochava e expandia com o odor de formol. Havia, é certo, um quelque-cheuse de especial na forma como o suco bilial era secretado pelo seu pâncreas quando ela o seccionava cirurgicamente com um bisturi; na forma como ela removia seu pulmão, abria nele alguns buracos e o vestia na cabeça, fingindo ser um ninja, antes de embalar o órgão dentro de um saco plástico para ser conservado no freezer. Foi então que ele tomou a decisão.
“Não”, sussurrou, retendo a mão dela. “Não remova minha próstata ainda, minha doce Estagiária do Setor de Necrópsias. Ela pode ser útil. Sim. Sim, minha amada Estagiária do Setor de Necrópsias, eu quero pedi-la em casamento. Eu quero dar-lhe filhos com essa próstata, dentre outras partes do meu sistema reprodutor. Quero dar-lhe uma bela casa, um belo jardim, um depósito de suplementos alimentares com nova fórmula bioavailable que ofereçam mais proteínas utilizáveis por unidade que os produtos aquém deste padrão-referência, eu quero controlar minhas taxas de colesterol com você, comprar com você revistas trazendo 100 dicas para adicionar variedade à sua rotina (em geral implicando em danos anais) e assim reacender o fogo inicial do nosso relacionamento, quero escolher com você um creme de barbear que produza mais espuma com menos esforço; que seja menos agressivo à pele sensível. Que proporcione um maior frescor pós-barba. Sim, meu pequeno rouxinol necrômano do amor, eu quero aderir com você ao programa de reciclagem e tentar postergar o colapso ecológico global e a completa aniquilação da humanidade, eu quero induzir com você a formação de tumores cerebrais – além de distúrbios nervosos menores – por exposição prolongada a campos eletromagnéticos de eletrodomésticos, e quero planejar com você uma viagem a algum paraíso natural intocado pelo homem, onde possamos descobrir em nós mesmos uma inesperada e profunda compreensão holística da Natureza. Eu quero acumular com você por conseqüência de uma dieta demasiado farta, variada e inadequada aos hábitos alimentares humanos uma placa de resquícios alimentícios em putrefação no duodeno, lentamente liberando toxinas na corrente sangüínea pelo transcurso de nossas vidas. Eu quero que você esteja segurando a minha mão na sala de cirurgia quando meu câncer de testículos decorrente do hábito de deixar o controle remoto próximo às gônadas estiver prestes a ser removido após semanas de quimioterapia inútil, e eu quero ouvir com você os profissionais explicando como instalarão máquinas de glicerina para produzir nuvens etéreas quando nossa filha entrar no palco ao som de “Sail away” de Enya [parte censurada]. Eu quero ver com você na TV a terapeuta explicar que a delinqüência juvenil deve ser encarada como uma patologia, a ser tratada clinicamente. Eu quero esconder de você, dos nossos filhos e dos nossos amigos a minha coleção de DVD’s doentios que constituem um mecanismo de compensação para as baixas mas estáveis taxas de endorfina, dopamina e adrenalina resultantes de doses saturadas de entretenimento insuficiente e de emoções homeopáticas. Eu quero me tornar, com você, dependente de fontes de emoções diluídas e ideais dissolvidos em gotas anestésicas insuficientes para sedar o tédio. Músicas, filmes, livros, tarô, cientologia, cristianismo, Herbalife, frisbee, ginástica aquática, bungee jump, bonsais, iluminação ambiente, pubs, coquetéis, obesidade, documentários, fibras para prevenir hemorróidas, momentos mágicos, divertidos e inesquecíveis, graus moderados de radioatividade - síndrome do túbulo carpal atuações aclamadas dependência toxicológica de barbitúricos, suplementos alimentares - resíduos nocivos à saúde - decorações redundantes doenças cardíacas diabetes e fatores de risco (como colesterol alto e hipertensão), vernissages escritores acadêmicos hashis pequenas epifanias comoções nacionais novas bactérias que adquirem tolerância a antibióticos – um novo espírito empreendedor, um espírito cosmopolita de compreensão mútua – congressos internacionais fichas cadastrais alimentos industrialmente processados formas de combater os radicais livres e previnir o câncer de mama – acepipes; uma preocupação sincera com os problemas globais uma segurança renovada sobre seu valor pessoal, um novo espírito de equipe um novo espírito competitivo novas iniciativas novas amizades inconturbadas – plugs anais home theater rohypnol valium nicotina álcool tryptanol tianeptina, stablon, trazodona, cocaína – sexo casual, perversão, assassinato, suicídio autopromoção novos canais uma vida social ativa problemas domésticos sublimados em vendedores de telemarketing e crianças, programas de recliclagem, consciência política, anti-romantismo mas não pessimismo, efexor, rivotril, olcadil, carbolítio, viagra, anfepramona, desipramina, hormônios tireoidianos, abusos sexuais incestuosos auto-amputação impulsos de violência e vandalismo reprimidos cafés literários galerias de arte museus restaurantes refinados momentos de descontração em ambientes acadêmicos formas de prevenir a menopausa – odorizadores de ambiente – cooper, animal de estimação, bebendo moderadamente – fotos no álbum de família tentativas de se manter atualizado sobre os valores da juventude, pontes de safena, autocompensação sexual, turismo, uma nova e mais sofisticada forma de encarar a vida programas sobre pesca prostitutas os velhos tempos nunca morrem festivais anuais coletâneas sutis momentos de intimidade entre amigos ou amantes mahjong camping praças de alimentação, posturas morais socialmente aceitáveis (não mais os suínos genocidas do passado) ufologia nostalgia xamanismo budismo pacifismo sushi bactericidas, espermicidas, parricidas. Sim, eu quero tudo isso, com você; ao seu lado. Case comigo, Estagiária do Setor de Necrópsias”.
“Mas meu amor você não se está precipitando? Você nem mesmo leu o resultado do meu check up bimestral indicando minhas taxas de colesterol glóbulos brancos cálcio e-”.
“Você tem razão. Assim que você receber os exames, então”. Beijaram-se ardentemente. Com um sorriso cúmplice ele acenou, despedindo-se, enquanto ela fechava o zíper de sua mortalha negra polietilênica e guardava seu cadáver numa gaveta refrigerada do necrotério, a fim de desacelerar o processo de putrefação.
terça-feira, 25 de março de 2008
Relatório resumido da execução orçamentária
Senhores,
de bom grado esqueceria o assunto, entretanto como notei, julgando por esta moda de insinuações que vem sendo freqüentemente associada à tentativa - embora não seja minha intenção aqui a de ser bem ou mal interpretado -, de abreviar, sob pretexto puramente aproximado ou, até mesmo, evidente, e sem (ao menos ao meu ver) uma significância relevante para o âmbito de dicussão proposto neste sentido; ou pelo menos se for aqui ponto pacífico o de que - e escuso seria dizer que não pretendo apelar a circunstância alguma quer mais quer menos consensualmente estabelecida a respeito da presente questão -, ainda sob um ponto de vista imparcial (e reitero minhas sinceras desculpas se não for de fato este o caso) ou pelo menos capaz de não ofuscar por inteiro o sentido que havia inicialmente demonstrado ser, se bem que indispensável, como já antes repetidas vezes se fez notar, uma forma equívoca de associar a este feitio de atitude aquilo que foi anteriormente pormenorizado, mesmo admitindo - e isto pode soar um pouco agressivo, até obsceno para alguns - que, quer o método, quer a maneira ou quer a forma pela qual pretendi (ou ao menos especulei que fosse cabível neste contexto), à parte toda a parafernalha utilizada na quase obsessiva caracterização de algo que não seria exagero apontar como absolutamente rasteiro e exclusivo, sobretudo se tivéssemos que optar entre, por um lado ter a supramencionada qualificação do tópico sob a descrição ou a definição - o que para mim é apenas mais um crime grostesco contra a assunção já pouco cabível de que, despida de sua camada de implicações no meio discursivo referido, não podemos, é claro, determinar o que pode e o que não pode ser assim o critério para a quantificação destas (com o perdão do termo) "partes".
Como está claro, espero, isto em definitivo põe fim à discussão.
Sinceramente,
Daniel.
domingo, 23 de março de 2008
Técnicas de hidroponia
“Sempre me senti mais confortável submerso em líquido amniótico”, disse a Vannini, que vinha comigo no carro pela rua escura. “Realmente foi uma decisão ótima instalar essa piscina com líquido amniótico, Vannini. E eu achei super barato e prático... Você precisa comprar uma. Juro que não consigo viver sem desde que comecei a usar”. Vannini estava comendo um exemplar da Vogue com barbecue, tencionando assimilar a edição por via estomacal e não ocular – decidira transubstanciar-se numa mônada abstrata e infinita de puro fashion. A bebida acabara no banquete de inauguração da nova agência do Itaú Personality, Vannini era o gerente, eu e ele fomos então pegar mais no meu estoque particular, Pink Flag do Wire tocando no LCD – não tendo conseguido abrir a porta da minha casa, atirei a chave no asfalto gelado, por sorte Vannini trouxera uma “bebida chilena” que utilizamos para explodir a porta (basicamente atiramos a garrafa contra ela e voamos alguns metros para trás com a explosão).
“QUE MERDA É ESSA QUE VOCÊ BEBE?”, perquiri, mas Vannini estava obstinado em introduzir o plug dos fones de ouvido do meu Ipod no slot de saída de um cachorro, aparentemente para auscutar suas atividades gastrointestinais com fins clínicos ou – seria possível? – recreacionais. Entrei em casa e um cara saiu de trás do sofá atirando e gritando “saia daqui, seu filho de uma puta”. Balas vindo de todo lado repletas de vibrações severamente macabras – corri até Vannini, que agora estava agachado auscutando o asfalto, e expliquei que um mass murderer psicótico invadira minha casa e não poderíamos pegar portanto as bebidas até que ele fosse embora, a menos que ainda tivéssemos uma garrafa da “bebida chilena” – a qual Vannini atirou pelo buraco da explosão anterior; ótimo, Vannini, você matou uma família – disse-lhe, vendo algumas pessoas mortas na sala. Logo percebi que havia confundido aquela casa com a minha – “por isso a porta não estava abrindo”, comentei, enquanto estávamos no carro indo para a minha verdadeira casa, Vannini no celular orientando um de seus subgerentes a pesquisar tudo o que pudesse sobre técnicas de hidroponia, segundo me disse pretendia aplicá-las ao cultivo de costeletas – o Vannini é mesmo impagável, ha ha, sempre obrigando seus empregados a executar essas tarefas totalmente absurdas e colossais às 3 da madrugada, e tinha agora um outro cara em minha casa, um limpador de telefones hermafrodita que advogava um approach terrorista do ramo. Astrid Stilberg exibiu a lingerie com dinamites sob a blusa da coleção de verão da Huis Clos – ficamos maravilhados ao perceber o toque incomparável de silk organza sintético com franjas indianas e bordados de índios cherokees, com uma pitada irreverente de gabardine – e ameaçou explodir a vizinhança se o(a) impedíssemos de limpar o telefone, então pegamos as bebidas e demos no pé.
“A identidade sexual está morta”, disse Marianne Barradas, esposa de Vaninni, dentista e colunista de uma revista de culinária. A mansão deles tinha um estilo bem minimalista, tudo branco e móveis pretos com um design simples mas sofisticado, meio less is more – um charme fronzoniano, quase poético, que só podia me deixar seriamente apaixonado. Enquanto bebia uma taça de Benedictine e conversava com Marianne sobre aquela gestalt superflat que ela tinha alcançado na decoração, uma bela e elegante senhorita loira sorria para mim o tempo todo. Comentei com Marianne Barradas:
– O padrão crômico dela parece ser o apocematismo – referindo-me ao padrão de cores que alguns animais usam para denotar que são venenosos – Mas acho que não pôde resistir e foi infectada pelo meu retrovírus pandêmico da sensualidade. Uma infecção que... – fitei seriamente seus olhos – pode ser letal.
Na verdade, explicou Barradas, o sorriso constante da supramencionada senhorita decorria das imoderadas doses de botox que consumia, não sem histérica voracidade. Com efeito, determinado momento da fiesta, enquanto conversávamos ao lado da piscina sobre a taxa de testosterona necessária para fazer brotar um pênis na testa, vi minha misteriosa e sedutora loira usando uma enorme seringa para inocular alguns mililitros de botox nas têmporas, e ao longo da noite algumas gotas da substância às vezes esguichavam pelo furo epidérmico que a seringa deixara – e para não desperdiçar nada Lady Botox aparava-as com o cálice de champagne, realizando manobras extremamente ágeis. Então lá para as tantas o irreverente teatrólogo Paulo Hoepker apareceu às escondidas e tentou pregar uma peça em Vannini, seu amigo de infância (agora desmaiado numa jangada que havia comprado recentemente, com o propósito de “encontrar um novo caminho para a outra margem da piscina”, conforme esclarecera naquele seu tom impagável) e a brincadeira consistia basicamente em injetar uma neurotoxina seletiva no complexo B-Bötzinger – uma pequena região do tronco cerebral de ratos, essencial à respiração – do cérebro de Vannini, destruindo neurônios específicos e acelerando o desenvolvimento de problemas respiratórios – primeiro no sono REM, em seguida no sono não-REM e posteriormente na vigília – e é claro que todos rimos um bocado com aquela idéia mirabolante do Paulo; ele é mesmo a alma de qualquer festa – e de fato alguns dias depois o Vannini começou a reclamar de problemas respiratórios, sem entender por que todo mundo ria quando ele mencionava o assunto, ha ha; uma comédia.
Continuamos conversando sobre o último lançamento de Deus, o Novo Testamento, e eu notei que um certo jovem – Luciano Romero, crítico de música alternativa, disseram – passou a noite inteira numa mesma posição, como se estivesse em pause, e o que de início pareceu uma invejável tranqüilidade decorrente de sua extrema confiança em meios sociais foi a posteriori esclarecido como resultado da ingestão acidental da champagne na taça de Lady Botox, minha misteriosa senhorita de sorriso perpétuo. Eu tive essa visão; o fim do universo, galáxias em colapso – mas aquele sorriso sobrevivendo intacto, implacável como uma muralha de titânio. Uma equipe da SWAT invadiu a casa e começou a fuzilar os convidados; eu utilizei o corpo de Luciano Romero como escudo, no qual as balas ricocheteavam zunindo. Após o incidente, entrei numa fase de depressão que durou meses, e meu cabelo não foi mais o mesmo. A fibra e o colágeno estavam lá, mas o brilho, a maciez; o tônus; eram agora para mim como propriedades capilares de um estranho. Certa noite então, peguei o metrô e desci num lugar ermo. Fugia de uma multidão histérica de crianças hidrofóbicas e cachorros hidrofóbicos pelas ruas do bairro de classe média em São Paulo, sob a pupila opressiva de um holofote central – um sol tão desconhecido para mim. Desci a escadaria escura do velho edifício-motel-pousada Jardim do Éden nos arredores da rodoviária; Adão e Eva, parece, eram as duas ratazanas que dividiam o aposento comigo – e as quais não haviam apenas sucumbido à fruta proibida, como também a vários outros gêneros alimentícios proibidos no meu armário (ainda assim não foram banidas). Só posso supor que Deus era a barata que aparecia por lá quando em vez para menear a cabeça em desaprovação à minha existência. Eu tentara repelir o síndico mediante um crucifixo e esguichos de água-benta-gaseificada com Tang silvestre (colhido por camponesas suíças), se bem que não fosse ele um vampiro, como depois constatei decepcionado, e apenas porque disse-mo explicitamente; de todo modo o Tang silvestre com água benta gaseificada estava divino – evacuei assim o dormitório, que era um cubículo sufocante com paredes cinza-esverdeadas constituídas de bolor gelatinoso; havia um edredon petrificado sob uma crosta de esperma, um aquecedor (para intensificar o calor já suficientemente implausível), uma Bíblia mórmon e uma TV 14 polegadas para sintonizar bolhas amorfas de chuvisco e bestas deformadas vagamente humanas, que falavam alguma língua grotesca e supersaturada de ruídos tóxicos cloacal-tartamudeantes, entrecortados, cuspidos pelo que a mim pareciam válvulas supuradas protagonizando algum romance truffautiano. A máquina de caça-níqueis tocou uma musiquinha analógica e eu perdi minha moeda. Comprei uma cerveja – uns bêbados conversando numa mesa. Os bares nas proximidades da rodoviária. Neón de motéis vagabundos telefones públicos, desfigurados por abscessos (sob um poste flácido na esquina) – constatei uma rede de nervos saindo do orelhão pela calçada até um par de sapatos, de onde brotou uma cabeça bêbada que tentava disfarçar angústia [amarelo sintético] com uma gargalhada – um buraco negro na esquina. Digito os números no telefone, fazendo uma musiquinha com os tons de cada tecla. Eu sou o Kraftwerk.
“Só entendo uma língua, meu amigo. E essa língua só tem uma palavra. Começa com 10”, diz o cara da espelunca, “termina com 000”. “Qual o seu problema? Eu só quero esse mini-game, cara. Eu não sei o que você tá falando”. “A nova palavra começa com 0,00 e termina com 1”, “Eu não tenho nenhuma moeda menor que 1 centavo”. Cambaleio por uma ruas de bolor esverdeado, sempre absorto no mini-game. Injeto uma ampola de penicilina num cachorro morto no asfalto – a reação antibiótica em cadeia desfaz as paredes de um motel ao lado. Vejo contaminar algumas estruturas etílicas – risadas anônimas. Coisas dissolvem lentamente ao redor da rodoviária, ouço a buzina distante de um ônibus – um uivo na selva pré-cenozóica –, prossigo desviando de algumas peças de tetris que se empilham à frente num beco pulsando macabras e indecifráveis freqüências extraterrenas subsônicas de até 4.500 c.p.s. Mais tarde àquela noite, de volta ao Jardim do Éden, escrevi no diário: “Suspeito estar numa placa de pétri. Podem as bactérias delirar?”.
Dia seguinte à tarde, caminhando por um rua deserta, à sombra dos edifícios, avistei pelo vão entre dois prédios um focinho gigante de rato pairando sobre a cidade e me ocultei atrás da parede, assombrado. Outra vez olhei, discretamente – o focinho continuava lá, contraposto ao céu vazio. Fungava perversamente.
sábado, 22 de março de 2008
Tacuinum sanitatis
Em lenta procissão marchavam as almas frementes - seus cheese-burgers dietéticos atomicamente instáveis atingem o limiar da fusão - entre ruínas colossais de impérios esquecidos; banhados pela chuva cáustica que, clemente, amenizava distúrbios causados pela menopausa. Eu sonhava com a máxima distensão da região abdominal. Erguera-se assim do Vazio, em esplendor sildefanílico, tonitruante como a disfunção erétil do sexagenário, o Verbo súpero; a revoada antioxidante de floras intestinais indefectivelmente reguladas – havia escuridão; postos de gasolina – as faces em chama, apagadas, viram renascer o Monstro Antediluviano, emerso do oceano de reputações impolutas; de incontinências parcialmente diagnosticadas.
Sua irmã era um Power Ranger vitimado pela esclerose. Seu pai, apicultor. Ambos estrelaram o drama baseado em fatos reais sobre dois escritores neoclássicos que perderam os quatro membros na Primeira Guerra, e que, sem cadeiras de roda, atravessaram o país para entregar ao poeta americano T. S. Eliot duas fichas cadastrais, contendo a data da invasão alienígena codificada numa mancha de barbecue – comovendo assim a nação, que os estriparia casualmente. - Não é tarde demais – disse. – Não é tarde demais para compartilharmos nossas próteses fálicas; nós teríamos uma conexão única. Só assim talvez, penso, haveria entre nós intimidade suficiente para a indução mútua da emesis bulímica – confessou, no programa de auditório, ao grupo de dançarinas bulímicas.
Eu havia encontrado na bulimia uma nova maneira de expressar quem sou por dentro. Um dos pontos mais emocionantes da cerimônia foi quando Iza entrou com o noivo cantando uma versão, escrita por ele, da canção 'No Meu Coração Para Sempre Vai Estar', tema da animação do filme Tarzan. Nesse momento Maurício não se conteve e foi às lágrimas. Falhas no protocolo de comunicação desestruturavam a brisa fria da manhã, quando minha alma foi inundada pela súbita necessidade de otimizar meu ambiente coorporativo; seus olhos distantes escondiam tristeza e indiferença.

(Ah, pois é. Passarei a postar alguns desses meus desenhos, como quasi-ilustrações. Não é *fantástico*?)
quinta-feira, 20 de março de 2008
Port decode error detector
Pintando o apartamento com meus filhos e minha esposa, espalhando pela parede a tinta branca com asbestos que emitiam graus moderados de radioatividade, matando-nos lentamente, eu sentia uma conexão especial e autêntica entre nós. Eu compreendi a importância de uma visita turística à Ilha de Páscoa, onde fomos então passar as férias. Júlia ficou apaixonada pelos monolitos e queria levar um para casa como souvenir, mas eu e as crianças queríamos um aborígine. Acabamos vencendo, e levamos o aborígine de estimação, que comeu sushi junto com todos nós numa praça de alimentação em Montreal – um dos nossos filhos morreu intoxicado pelo peixe, mas por acaso tínhamos dois (e dois filhos, também).
Tivemos momentos divertidos e inesquecíveis. Por exemplo na Disneylândia, quando o aborígine da Ilha de Páscoa comeu uma criança viva e matou o Pateta com uma lança envenenada. Mediante pictogramas rústicos, nos disse que aquele era um demônio milenar enviado pelo Deus Vulcão para modificar permanentemente a playlist do seu iPod – viu-se assim obrigado a matá-lo, contou, mas nós explicamos que era apenas um homem fantasiado, então voltamos para casa e assamos numa fogueira o aborígine da Ilha de Páscoa, realizando um estranho ritual canibalístico para esconjurar os espíritos satânicos do microondas, e isso fez com que compreendêssemos a importância de manter acesos os sonhos e a fantasia em nossas vidas. "Vamos, me mostre as crianças”, disse a minha Orientadora em Diplomacia Solipsista, “Onde estão as minhas crianças? Eu trouxe um produto novo”, disse, batendo no equipamento de dedetização e descendo uma escadaria, que conduzia ao porão da minha casa. “Abandonei o lança-chamas”, confessou, afetando profunda e pungente melancolia nostálgica no olhar. “Onde estão as minhas crianças?”, perguntou, ansiosa.
Seu ramo de especialização: baratas.
Seu método: o terror.
A tortura psicológica.
Ela moía mentes num moedor de carne. Num apontador automático de lápis.
Ela era uma guilhotina de mentes.
Ela as triturava.
Nas horas seguintes, a minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista confinou as baratas da minha casa em celas claustrofóbicas; aprisionou-as em pequenos instrumentos medievais de tortura, enquanto abusava sexualmente de suas esposas e filhas e ao mesmo tempo recitava trechos do Mundo como Vontade e Representação de Schoppenhauer.
Minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista descrevia-lhes o modo como suas existências repulsivas eram grãos de poeira vagando cega e gratuitamente por um tubo endoscópico de tédio e dor, até serem succionadas num vórtex de dejetos autobiográficos para o vácuo, então apagadas. Anuladas. Evacuadas.
Minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista as consolava, às suas crianças, até que começassem a crer que podiam encontrar nela uma verdadeira amiga. Confessavam seus segredos mais íntimos, apenas para ser escarradas em seguida. Após 10 horas, seus egos implodiam num estado de catatonia hebefrênica irreversível. As baratas tornavam-se incapacitadas para qualquer tipo de convivência em sociedade, portanto nem tantas se matavam, percebendo as grandes melhorias em qualidade de vida implicadas; a maioria se tornava assistente social, para quem a morte seria redundante. Eu disse adeus e entrei no meu caça Stealth, estacionado na garagem desde que acidentalmente explodi meu hovercraft quando tentava detonar o cachorro do vizinho com um lança-mísseis que costumo usar para regar as plantas. Decolei verticalmente. Eu havia sido premiado com tickets para o Congresso Internacional de Delirium Tremens por responder corretamente a uma dentre as três seguintes perguntas:
“Quantas adenóides são necessárias para construir uma reprodução exata do Titanic em adenóides?”,
“Quantos átomos tinha o universo quando Bruce Lee atuou em ‘Operação Dragão’?” e “Coisas grandes são maiores que coisas pequenas?”.
Realizando o experimento empiricamente, comprovei que são necessárias tantas adenóides quantos são os casos de morte no Japão por tentativas frustradas de enlarguecimento de pênis, e assim ganhei o ticket. O misterioso agente da Fear Co. que entregou-me os tickets numa rua úmida e escura de Leeds, sob o amarelo opaco do poste de luz, havia feito uma cirurgia plástica que o deixara perfeitamente idêntico a James Stewart, contudo incapaz de movimentos faciais – o que lhe conferia a constante expressão de estar vendo Kim Novak cair da torre em “Um Corpo que Cai”. Um misto de pasmo e terror súbito, mas não excessivo. Um terror educado. Jovial. Um terror carismático.
“Agora eu tenho que partir e seguir com minha vida, meu amigo”, disse-me, pousando a mão em meu ombro. Flagrei em seu rosto uma lágrima – uma lágrima de terror, ao ver Kim Novak cair da torre.
O agente secreto da Fear Co. entregador de tickets saiu andando, calmamente, dissolvendo-se nas sombras da cidade, como uma misteriosa pastilha efervescente para gripe. Lembro que voltou-se uma vez, e talvez eu esteja enganado, mas estimo ter visto em seu rosto uma expressão de terror. Então entrou em combustão espontânea e alguns ursinhos gummie apareceram para chutar seu cadáver carbonizado.
A discordante massa ressoa, num vibrar morno e confuso.
Aterrissei o meu caça Stealth na vaga para portadores de distúrbios mentais caracterizados por depressão em grau variável, sensação de incapacidade, perda de interesse pela vida e possibilidade de evolução para um quadro de ansiedade, insônia, tendência ao suicídio e, eventualmente, delírio de auto-acusação. A cerimônia de abertura do Congresso Internacional de Delirium Tremens iniciou-se com as cheerleaders. Um clima de amizade e profunda satisfação pessoal permeava o auditório enquanto as galinhas trazidas por um imigrante mexicano as devoravam – às cheerleaders – e depois a si próprias.
Todos ficamos apaixonados pelas galinhas assassinas autofágicas do México, apesar de não mais existirem – um preço ínfimo pelo charme irresistível da autofagia. “Yo no supe que ellos eran los pollos carnívoros”, disse o imigrante mexicano, com um sorriso, esquivando-se dos tiros disparados por uma guerrilha de traficantes. “Puxa! Nunca me divirto tanto quanto no Congresso Internacional de Delirium Tremens”, pensei comigo; velhinhos espasmódicos catatônicos sentados ao meu redor na platéia, inebriados no selvagem, excitante, louco afã do Parkinson. Os custos para organizar o Congresso foram extremamente baixos, dado que todos os palestrantes eram alucinações e assim nada cobraram pelas palestras - nem mesmo precisaram ser acomodados no Copacabana Palace com vista para a célebre praia de Copacabana. Logo de início fiz amizade com um grupo de homúnculos delusórios de 10 cm que decidiram não bombear minha medula para fora da coluna vertebral à noite enquanto eu estivesse dormindo, visto que houvessem julgado - ipsissima verba - 'pertinente e deliciosamente descontraída' uma das observações que fiz durante a fala de um palestrante – ele, um distúrbio dissociativo da identidade, personificado num multiprocessador de alimentos que ministrou uma palestra intitulada "O Rationale do Niilismo", consistindo nos seguintes murmúrios randômicos:
Burritos. Burritos. Burritos calientes.
Ocuparam toda uma hora, mas creio ter compreendido a essência. O Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, interrompeu a primeira sessão de palestras e convidou-nos a todos para o coffee break. Saltando em seu pescoço, derrubando-a, abrindo-lhe o ventre com os dentes e arrancando-lhe os intestinos, o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sacrificou a vaca que estava perambulando pelo auditório desde a cerimônia de abertura - quando do trágico incidente envolvendo as cheerleaders. “Você não acha que ela pode acabar se ferindo?”, perguntei. Ele jogou a vaca sobre a mesa dos acepipes. Esquivei-me habilmente do jato de sangue que jorrava do ventre do animal. “Meu lado clássico-romântico. STURM UND DRANG, BITCH! Vamos, sirvam-se, senhores”, disse o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sorrindo de forma amigável. “Nada como um bom e suculento pedaço de entranhas bovinas ensanguentadas com chá... Oh, espero que os senhores perdoem-nos a falta de salgados e cubos de queijo com salame hoje”, acrescentou, mastigando um pedaço de fígado. Era útil ter um lugar como aquele, pensei, que era ao mesmo tempo um auditóro e um pasto, onde se praticava a pecuária extensiva. Um velho senhor mirava assombrado o cadáver do animal sobre a mesa. “Acho que está dormindo”, confidenciou-me, furtivamente. “Acho que sim”, disse-lhe.
“Eu emprestaria o meu despertador, mas o comi”, disse ele. Aquiesci com a cabeça.
“Eu estava com muita fome e tive que fervê-lo”, disse. “De todo modo, ele veio quebrado. Marcava 12 horas, das 24, você me entende? Acredita nisso? Realmente um pedaço de merda inútil...”, desabafou. “Eu levei pro conserto, mas o relojoeiro disse que não tinha jeito. ‘Não tem jeito mesmo’, ele disse. Ele é um jovem direito... Falou pra eu diminuir meus dias pela metade, acredita?, que esse era o único jeito. Ele é um bom menino, apesar de ser homossexual”, disse, recordando os idos de antanho. “Ele é também um molestador foragido. Eu fiz o que o ele me falou, mas minha rotina ficou corrida demais com esses dias mais estreitos – sabe o que eu estou lhe dizendo, não é? Ou eu faço tudo duas vezes mais rápido, ou eu faço tudo pela metade. Você está me acompanhando? Na minha idade isso é muito difícil... não tenho mais o vigor da juventude. Me canso muito rápido agora... Assim é a vida. Realmente uma época difícil... Realmente difícil... Sempre resfolegando como um cachorro ou... como um piolho puxando uma carroça”.
Concordei, terminando de comer meu pedaço de carne bovina ensanguentada com chá, guardando os restos na bolsa.
Aceitei um copo d’água oferecido pelo Sr. Pasolini, numa garrafa térmica vermelha.
“Soube que o senhor tem realizado pesquisas fascinantes na área do delirium tremens, Sr...?”, perguntou-me. “Oh. Não. Por que acha isso?”, “Muito interessante. Realmente. Veja”, disse, atirando um pedaço de carne ensanguentada na parede. “Haha, não é curioso? Não é curioso como fica colado? Você deveria pesquisar isso”, disse-me. “Bem, creio que todos estejamos saciados”, disse aos convidados. “Agora, senhores, vamos explodir essa merda toda aqui”. Riu simpaticamente e atirou uma taça com champagne no rosto de um homem velho e coxo. “Você já conheceu o nosso banheiro?”, perguntou-me. “Sylvia, você não apresentou o banheiro ao nosso convidado? Oh, você vai ficar encantado. Vamos, venha. Permita-me conduzi-lo, senhor”.
O banheiro do meu anfitrião era mesmo deslumbrante. Um verdadeiro luxo. Um lugar tão sui-generis que mal pude disfarçar meu pequeno grito de assombro. “Parece que os ecos de outrora ainda estão no nada imersos”, disse o Sr. Pasolini, olhando para dentro de um vaso sanitário e puxando a descarga, então submergindo no vaso a garrafa térmica vermelha para preenchê-la, tapando-a depois. “Senhores, conheçam o nosso novo banheiro. Não é maravilhoso?”, disse-nos, sorrindo. “Estou apoplético, Sr. Pasolini. É simplesmente uma sensação”, confessei. “Haha, esplêndido, esplêndido. Fiquem à vontade, por favor. Desfrutem as taxas bacterianas quase nulas e o desconsiderável nível de coliformes”, completou – e, com efeito, pude comprovar sua afirmação com o meu Medidor Digital de Bolso de Taxas Bacterianas e Coliformes Fecais, o qual sempre carrego comigo, tendo-o recebido como herança de meu avô em seu leito de morte. “As taxas de bactérias e coliformes fecais são adoráveis, Sr. Pasolini. Como você consegue mantê-las?”, perguntei. “É tudo produto do trabalho árduo dos meus Gnomos Esterilizadores de Ambientes. Os coprolimpas”, disse o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, enquanto vários coprolimpas saíam de suas tocas dançando e cantando ao nosso redor. “Haha. É um mundo cheio de magia”, exclamou o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional, sorrindo e dançando, e acidentalmente esmagando alguns coprolimpas. “Tudo aqui é comestível. As torneiras, as paredes, os vasos...”, disse nosso excêntrico anfitrião. Um velho e fremente senhor mordeu um vaso sanitário por algum tempo, conquanto não tenha sido capaz de degluti-lo. “Oh... então não são comestíveis”, disse o Sr. Pasolini, esmagando acidentalmente um outro coprolimpa. “Não se preocupem, esses pequenos vermes são uma praga fodida”, explicou, pisoteando brutalmente vários desses curiosos gnomos de 15 cm, que em vão corriam, desesperados. “Reproduzem-se como baratas. MORRAM! MORRAM SEUS MALDITOS VERMES! NÃO VAI SOBRAR NENHUM DE VOCÊS, SEUS MERDINHAS, EU VOU ESMAGAR TODOS! EU VOU ESMAGAR TODOS VOCÊS! DESGRAÇADOS! DESGRAÇADOS! MORRAM! MORRAM! MORRAM!”, gritava o Sr. Pasolini, pisoteando-os. “Bem, senhores... retomemos nossos afazeres”, disse, e uma pedra acertou minha cabeça. Conforme observei, a pedra havia sido atirada pela família de exilados de guerra albaneses, que estava apinhada no canto do banheiro desde que entramos. “Oh, é a minha família de exilados albaneses de estimação. Eles estão morando aqui no banheiro”, explicou o Sr. Pasolini, organizador do Congresso Internacional. “FAMÍLIA DE EXILADOS ALBANESES, PARE COM ISSO!”, gritou ele, açoitando-os com um chicote. “O QUE EU DISSE SOBRE JOGAR PEDRAS NAS VISITAS? QUEREM QUE EU MANDE VOCÊS DE VOLTA PARA A ALBÂNIA?”, completou, desferindo ainda outras chicotadas na amedrontada e suplicante família. “Merda, preciso de uma carreira”, declarou, deixando o chicote cair no chão. “Argh! O... o meu coração! Merda...”, gemeu, ofegante, a se contorcer, agarrando o peito e retirando com mãos trêmulas um frasco de pílulas do bolso. Engoliu várias. “OK, já me sinto novo em folha. Alguém conhece algum puteiro próximo daqui? OH DEUS, POR QUE FAÇO ESSAS COISAS?”, lamentou-se, caindo de joelhos no chão, em prantos. “Eu sou um cretino... eu... eu não queria ser assim...”, continuou, chorando. “Mas tenho me sentido tão sozinho... Deus, eu não consigo suportar toda essa solidão...”. O Sr. Pasolini desmoronou em soluços, engasgos e convulsões. “E-eu... eu não era assim. Eu tinha amigos... mas desde que fui acometido pela calvície, me tornei inseguro demais para fazer novas amizades, e... eu...”. Parou. “Não. Isso não importa. Eu posso ser alguém melhor. Eu sei que, no fundo, eu, e todas as almas neste planeta fantasmagórico e insano à deriva no vazio, nada sou senão essa criança triste e solitária, clamando por resgate. E a partir de agora, dedicarei minha vida a resgatar estas crianças sufocadas, asfixiadas; esses tristes fetos sepultados vivos dentro de todos nós. Dedicarei minha vida... a ajudar... pessoas”.
Contudo, quando caminhava pelas ruas sombrias da cidade àquela noite, o Sr. Pasolini foi atacado por uma selvagem horda de crianças que o estriparam e devoraram, num insólito e macabro ritual canibalístico.
(O que, de todo, modo foi tomado como um evento absolutamente irrelevante após a descoberta, divulgada por uma equipe de astrônomos àquela mesma noite, de que somos todos hologramas, e as estrelas são projetores, projetando nossas vidas na face da Terra).
quarta-feira, 19 de março de 2008
Travessuras exóticas com o pequeno Lama
A incrível hospitalidade turca era uma experiência inesquecível; assim que entrei na mansão dos Lama, um dos criados ofereceu-se para transferir o conteúdo digestivo do meu estômago para o seu, de modo que eu não tivesse qualquer esforço desnecessário digerindo minha comida. “Quando eu terminar de digerir, devolvo para que o senhor absorva os nutrientes”, disse, e abriu a boca, como um pequeno e ávido pintassilgo australiano, num documentário do Discovery Channel.
“A Patagônia foi uma experiência traumatizante para mim”, disse o Dalai Lama, superstar do Dharma, rebatendo a bola de ping-pong. “Nunca tive muito saco pra essa bobagem de diferenças culturais”, continuou. Errei a tacada. “Eu não sabia, mas todos os habitantes da Patagônia são peixes terrestres. Você sabia? Eu não sabia. Certo, até aí tudo bem. Mas eles continuavam insistindo que eu os pescasse. ‘Ei, atire uma isca! Haha’, diziam, ‘Cara, isso vai ser o máximo! OK, vai. Pode mandar!’, diziam, e você pode vir aqui e me dizer que isso é uma pequena diferença cultural, querido, mas eu digo que isso é uma completa falta de tato; de senso do ridículo”. Fiz meu décimo ponto. “Espere. Espere um momento, Dalai Lama”, disse-lhe, fechando sua boca com o indicador. “Você sabe que eu o respeito. Não só enquanto instanciação terrena da Unicidade Absoluta... mas também como um parceiro sexual passivo imunizado contra diversas enfermidades venéreas, e com uma estranha compulsão para a lavagem anal. Mas antes de continuar esse jogo, vamos estabelecer uma coisa. A mim cabe o ping. A você cabe o pong”. Embora seu talento para o pompoarismo anal tivesse cativado o mundo e mimado seu ego, Dalai, a contragosto, aceitou minhas condições estritas, e concentrou seus poderes cósmicos para controlar a propagação do som de nossas raquetes, de modo que a minha apenas fizesse ‘ping’ – e a sua, ‘pong’. Suas tentativas malograram lamentavelmente; desde que interrompera seu tratamento com a nova tecnologia da bioestimulação, aderindo à homeopatia, seus poderes vinham minguando a olhos vistos; sua unicidade com o Todo, degenerando. Há três semanas o Todo não dava um telefonema, confidenciou-me ontem aquele mundialmente renomado monge; da última vez que se viram, foi tratado como um trapo. “Quando eu esquecia de fazer o jantar, ele me batia”, confessou, incapaz de conter as lágrimas. “Calma, meu doce e travesso missionário do Dharma”, eu disse, “Não chore. Tome essa solução de botox. Irá atrofiar suas glândulas lacrimais”. Agora, seus poderes sequer bastavam para modificar a propagação sonora produzida pelo impacto da bola em nossas raquetes. Com o tempo, a cadeia de recorrência dessas pequenas desilusões induziu em sua psyché um nivelamento de expectativas a respeito do mundo, implicando uma trivialização da realidade, um ressecamento da derme e banimento em certos clubes de camping. Sua imagem pública fora irreversivelmente danificada; seu ego, completamente anulado – a nova tendência de inverno em Las Vegas.
O que ouvi meses depois foi que ele havia sido raptado pela insigne estrela do mundo simiiforme, King Kong, e levado para o topo de um sky-scraper, onde teria dito ao grande símio: “Eu concordo em iniciarmos esse relacionamento, mas apenas se você usar lubrificante”. A julgar pelo boato, vinham desfrutando uma relação estável, sem solavancos; como a iluminação difusa em um ambiente perfeitamente branco; como musak preenchendo a atmosfera – um ectoplasma distante. Spray odorizador, envenenando lentamente.
"Até que seus cartões coorporativos sejam apreendidos", disse o padre no casamento.
Quando voltei da turquia, meu traseiro internacionalmente premiado estava em todos os outdoors; os sorvetes dietéticos eram ainda melhores que os não-dietéticos; meus filhos correram em câmera lenta para me abraçar, numa nuvem branca sedativa, que fagocitava a Terra.
terça-feira, 18 de março de 2008
Ruído branco
Eu me masturbava para o meu portfólio, no Iraque, quando entendi o significado de compromisso. Eu caminhei sobre cadáveres nas ruas de um subúrbio americano, quando o sol era um holofote; prossegui até a unidade Panzer, abandonada em sua frugalidade outonal. Eu entrei na unidade Panzer. Enquanto detonava o maior Monumento à Cultura Olmeca do mundo, senti nascer outra vez em mim a humanidade há tanto esquecida – e ainda assim, tão acionisticamente regulamentável. Eu era uma consciência dissolvida nas ondas de fantasmagoria satélica.
As garantias explícitas dessas obrigações contratuais me extasiavam. Minha mente foi inundada por ruído branco.
Certo dia de primavera, após levar a cabo meu experimento de ouvir 1000 vezes seguidas toda a discografia de Barbra Streissand, um estranho fenômeno instanciou-se em meu mesencéfalo: um padrão anômalo de ondas cerebrais, registradas pelo encefalograma que ganhei da minha mãe no meu quinto aniversário. O padrão formava uma imagem; a efígie realisticamente exata de Sean Connery com um cachimbo, repousando numa rede. Logo percebi que meu cérebro era agora capaz de sintonizar todas as freqüências satélicas ao mesmo tempo, de modo que minha cabeça foi subitamente inundada por essa brutal avalanche de informações; todos os programas de tv, todas as transmissões terrestres convergiam a um só turno para dentro da minha cabeça, que era agora uma pequena lâmpada sobrecarregada; recebendo, num átimo, toda a descarga de todas as usinas elétricas. Me aproximei do espelho, e um grave déficit de atenção impedia que eu reconhecesse minha imagem refletida. “Quem é você?!”, gritei. “Saia do meu apartamento! Eu vou chamar a polícia!”.
Deambulei esquizoidemente pelas ruas vazias da vizinhança, lambendo vitrines, esbarrando em paredes, fugindo apavorado de agentes secretos em cada esquina, sonhando com estilos de vida; minha mente esgazeada num nevoeiro lúbrico; minha personalidade derretendo como um fuzível sob alta tensão. “Uau. Isso é fantástico”, disse com meus botões. Nos dias seguintes cometi vários homicídios randômicos, e compreendi que se não tomasse uma atitude, seria preso. “Merda, eu terei que extrair o meu cérebro”.
“Pronto”, disse o Dr. Ciência, submergindo meu encéfalo num líquido amarelado dentro de um frasco. “Obrigado, Dr. Ciência. Agora sem o meu cérebro me sinto bem melhor”. “Excelente. Sorvamos na fonte do Lete o olvido das misérias desta vida. O próximo passo é ver o que acontece ao seu cérebro se atirado de um avião – embora, honestamente, eu preferisse utilizá-lo para fins canibalísticos”. “Eu entendo, e quero que saiba que você tem o meu total consentimento; você sabe o quanto-”. “Excelente. Há algo, entretanto, que lhe preciso confessar. Nunca antes confiei isso a alguém. Você sabe que sou um zumbi, não é?”, disse o Dr. Ciência. “Por isso preciso me alimentar de cérebros”. “Mesmo? Oh, isso... Isso é sensacional. Seria indiscrição perguntar como veio a falecer?”. “Não, claro que não. Foi uma infecção urinária. Eu segurei a urina por um período excessivo, durante uma reunião acadêmica”. Na TV, um senhor com suspensórios surgia num jardim vicejante, num clima de terna felicidade doméstica. “Cercado de objetos desintegrados e hostis?”, dizia, “Cansado de agressões verbais da família? De ser molestado pelo seu pai ou irmão? É hora de dar um trato nesses desgraçados. Com o novo Family Crusher 5000, da Fear Co., seus problemas pessoais e familiares estão resolvidos. Muito mais que um machado, o Family Crusher 5000 é a última palavra em terapia familiar”, clic; na outra emissora, um garoto corria com seu cachorro num prado outonal; brincavam alegremente. “Benji, vem! Vem garoto!”, dizia o menino, rindo. Um jump-cut, e estavam sentados sob uma árvore. “Espécime macho do homo sapiens”, disse o cachorro, “você gostaria de saber como a distrofia muscular pode melhorar seu estilo de vida?”. “Sim! Diga-me, por favor, Benji!”, demandou o menino, beijando seu fiel amigo. “Direi. Há um agente infeccioso em minha saliva. Quando eu o lambi, seu sangue foi contaminado; em pouco tempo, a infecção migrará para as suas meninges, iniciando o efeito degenerativo, e metastaseando para a medula. Isso bloqueará a nutrição muscular”. Uma leve brisa moveu as folhas caducas. “Em breve, você estará incapacitado de se mover”. “Yippie! Benji, você sabe o que isso quer dizer? Se não puder me movimentar, terei muito mais tempo para mim mesmo! E... e... Poderei me livrar do trabalho escravo na fazenda do meu pai... e...”. “Sim”. “Rapaz! Eu mal posso esperar!”. “Tem uma outra coisa que não contei. Eu sou uma máquina”, disse Benji, desfazendo-se de sua pele, e revelando um corpo mecatrônico repleto de chips, feixes e painéis digitais. Seus terríveis olhos vermelhos brilharam, no idílio da tarde. Clic. Estou mirando as lâmpadas fluorescentes no teto; parecem vibrar com o ruído grave de fundo – mistifório de motores, vozes, risadas, talvez rádio. Vejo a luz dos postes fragmentando dentro das gotas de chuva no pára-brisas. O semáforo está vermelho. O carro está silencioso, e é possível ouvir com clareza o som das gotas de chuva contra o vidro, e o ruído produzido pela fricção da borracha dos limpadores de pára-brisa, indo e vindo, tediosamente. Em minha alma, o fogo dança contraposto ao sol – que se entrevê, vagamente, através das chamas. Clic – “carbonização: a nova tendência nas boates de Gaza, e uma ótima forma de liberar os líquidos e tensões”, disse o personal trainer do Dalai Lama, enquanto tomava comigo um delicioso banho turco. “Fascinante”, falei. Um eunuco corria e chutava minha coluna vertebral. “Esse é o verdadeiro banho turco”, comentei; “Digno de um sultão”.
A incrível hospitalidade turca era uma experiência inesquecível. [continua...]
segunda-feira, 17 de março de 2008
Ereção fatal Pt. 2
Tudo era apenas mais um dia para mim no paraíso até que fui raptado pelo Lord’s Salvation Army, em um campo de refugiados da Uganda, e então obrigado a fuzilar minha própria família – as garrafas andavam em falta no treinamento de tiro. Em seguida, tive que fuzilar o staff da peça que eu escrevera sobre a minha vida (“Daniel – Um Destino, Três Testículos”) – os patos de madeira também andavam em falta na barraca de tiros, no parque de diversões perto da base. “Isso os ajudará a liberar os líquidos e tensões”, disseram-me; “mais líquidos que tensões”. (Na verdade, líquidos e tensões são grandezas incomparáveis*). De início me senti culpado, mas logo aqueles prestativos rapazes do Lord’s Salvation Army me prepararam um banho com ervas afrodisíacas e incensos canalizadores de energia, ótimos para controlar a ansiedade e o sentimento de culpa, também usados para detectar a presença de caças Stealth – uma nova alternativa dos exércitos às sondas e satélites usuais, incapazes de detectá-los. “Muito obrigado, rapazes. Sabe, estou sentindo uma química aqui. Nunca fui tão bem tratado quanto no seu exército de assassinos estupradores e... ah...?”, “Seqüestradores?”, “É. É, exatamente. Enfin. Toda a equipe está de parabéns. E eu realmente amei esse novo modelo de farda”. “Verão pede conforto”, disse um dos soldados que estavam comigo naquela barraca, e que tinha dificuldades em aceitar uma moralidade utilitarista num universo determinístico. “Exato! E-x-a-tamente, seu pequeno niilista travesso”, concordei. Sorrimos amigavelmente. “Agora, vou pedir licença a vocês, porque eu preciso fazer um pequeno peeling no córtex, ok? Ouviram falar, garotos? É a coqueluche desse verão, e eu jamais me perdoaria se corresse desnecessariamente o risco de ser demodé num campo de refugiados”. Eles aquiesceram, simpáticos, e foram molestar sexualmente algumas crianças recém-seqüestradas lá fora.
O desjejum estava, como poderia dizer?, um luxo, especialmente depois de ter lido na Psicose Hebefrênica Hoje que para manter uma vida saudável, nos dias atuais, o importante é priorizar os grãos – e, adivinha: só tínhamos grãos. Um punhado de arroz para cada pessoa, doado pela ONU. Dá pra acreditar nisso? Exulto em saber que a Uganda prioriza tanto os grãos. Esse é o primeiro passo para ficar de bem consigo mesmo. Toda a equipe da Uganda, aparentemente conhecida como ‘população’, está de parabéns.
Na TV, um paladino do setor micro-empresarial aparece sobre uma espécie de paraíso zen-budista indefectivelmente branco: “Cansado de ouvir vozes à noite instruindo-o a matar seus filhos, pais, esposa, amigos? Sentindo-se sufocado pela infinita aridez e gratuidade da existência? Relaxe. Você acaba de encontrar um novo e fiel companheiro: SocialEnhancer Deluxe, da Fear Co. Com essa nova broca elétrica, que a Fear Co. desenvolveu pensando especialmente no seu conforto, você poderá perfurar e eliminar o centro de identidade do seu cérebro, posicionando o pino giratório dessa forma, dentro do seu nariz”, disse, perfurando o próprio nariz, cada vez mais fundo. “É simples. Como a vida. Fear Co., sempre o melhor em conforto e segurança”, disse, o sangue a jorrar, em jatos profusos.
O Importante é Priorizar os Grãos.
No deserto, assando um escorpião, minha alma enregelou-se em privação disfarçada – o estilo civilizado. Tive delírios de barbárie; de violência primordial. Havia, nesta violência, certo senso estético. Contaminando o sistema, danificando-o, pensei, o bárbaro em mim os corrigia.
As negligências de armazenagem de um homeware desconhecido me apavoravam. Um espião aproximou-se da minha fogueira no deserto. “Acordamos hoje realmente decidos a deflorar todos os hímens do lirismo”, disse o espião. “Eu não acredito em hímen”, obtemperei. A fogueira estalava. “É uma barreira que precisará romper, se quiser seguir adiante”.
Silêncio.
“Hã... Meu pên-” “Agora ouça”, interrompeu. “Você será submetido a uma experiência. Uma experiência que mudará sua visão sobre tudo. Tudo”, disse, “exceto frisbee”.
O espião levou-me assim para observar o fascinante ritual de acasalamento do macaco-de-cauda-longa da Polinésia. Desde então, jamais fui o mesmo. Tal a divergência de valores entre a sociedade e eu, que só conseguia me enturmar com grupos de frisbee, e logo todo o meu círculo social se resumia a jogadores de frisbee – os únicos com os quais ainda compartilhava valores. “Cara, ser um indivíduo é uma merda”, afiancei ao meu parceiro de frisbee daquele dia. Seu nome era Bernardo. “Que fazer para voltar a ser um facsímile coletivo; um produto estandardizado da manipulação neurológica para fins publicitários?”. Eu sabia que apenas assim me reabilitaria socialmente. “Por que não hã... por que não... falamos sobre alguma coisa mais interessante... hã... como... frisbee?”, disse Bernardo.
Por não sei que contingente fortuna, a mágica do SocialEnhancer Deluxe conjurou de volta a minha vida social, e jamais precisei jogar outra vez o frisbee, relegado assim a pouco mais que triste memória; um bote, na correnteza, impelido incessantemente para o passado. Agora eu caminhava sem identidade pelos arredores do zoológico, com a minha nova vida social ajustada, quando parei e matei o macaco-de-cauda-longa da Polinésia. Já passava da meia-noite. O tiro ecoou lentamente, suave. Como uma nuvem. Disparei outras quatro vezes, e ouvi o eco sumir; fitei a lâmpada. A lâmpada apagou e voltou a incandescer, fraca, com um estalo. Zumbiu. Parecia um apêndice impotente, triste e solitário contra a noite, para quem perdia a guerra.
Atirei na lâmpada.
Aquela noite, após o ocorrido, vi um anjo brotar do ânus de um gato. Talvez me enganassem os olhos então, mas este silvestris catus parecia manifestar sinais de desconforto. Atirei no gato. “Você deve investir no setor micro-empresarial”, disse o mensageiro de Deus.
Atirei nele, em vão. Trajava um colete a prova de balas.
§
Quando cheguei em casa, minha alma era o sismógrafo do apuramento técnico; eu podia farejá-lo a um raio de 5 parsecs. Observei a aurora enquanto era taxonomicamente classificado por um paleontologista como o próximo primata; o próximo passo evolutivo da espécie. Eu era o homo mercator.
A transformação ocorrera.
O fravashi/anjo havia dito: “Eu voltarei um dia, e nesse dia, tua mãe pedirá o teu espermicida emprestado, e tu tentarás encontrá-lo, mas descobrirás que a governanta o havia utilizado por engano, para fazer a cobertura do bolo de aniversário que comestes, um dia antes. Assim saberás que é este, e não outro, o dia em que voltarei. Ao alvorecer deste dia, fornecerei os demais detalhes burocráticos concernidos no registro e natureza da micro-empresa que fundarás. Esperai”, disse, desaparecendo em seguida.
Pensava agora no meu avô, quando, 20 anos atrás, após ler-me uma história de ninar, dissera: “A vida é uma sucessão de danos de psicológicos, neurais, interpessoais e anais – portanto, coma fibras”. Quanto ao resto, não há nada a fazer. Desligou o abajur e saiu. Quando ele morreu, comecei a ficar paranóico com a possibilidade de que ele me estivesse observando do além. Eu ia ao banheiro, e quase podia enxergá-lo acima de mim, flutuando e espionando. Deve ser esse o entretenimento dos mortos, pensava; nós somos o seu reality show.
*Na álgebra abstrata, dois elementos, x e y, são ditos incomparáveis para uma relação R se não é o caso que xRy ou yRx. No exemplo acima, R seria a relação usual de ordem (transitiva: se xRy e yRz então xRz; irreflexiva: não-xRx; assimétrica: se xRy então não-yRz).
domingo, 16 de março de 2008
Ereção fatal - Pt. 1
Olhei dentro do vaso sanitário, e percebi que minha faculdade de estabalecer juízos sobre a realidade havia sido eliminada com a diurese matinal. Estava dissolvida na urina, mas podia sentir o seu odor. Eu estava em uma área secreta nos EUA, sendo cobaia para testes envolvendo uma nova qualificação acadêmica 8,21.10³² vezes superior ao Pós-Doutorado. Se os resultados do experimento lograssem êxito, minha capacitação técnica exibiria um jargão com grau de especificidade tão elevado que nenhuma forma de vida no universo poderia jamais compreender uma única frase proferida por mim, e de fato, em contato com meu curriculum, teriam seus egos automaticamente pulverizados, passando a viver num estado de constante insegurança; de constante incerteza. Eu morava em um cubículo exíguo e sufocante, sem janelas, com um homem recém-divorciado, por ter confundido sua esposa com um criptomorfismo diádico para semânticas polivalentes. “Ela disse que se eu a amasse realmente teria facilidade em reconhecer seus traços fisionômicos, e em distingui-los de conceitos matemáticos abstratos. Pf, você acredita nisso?”, dizia-me. “Quer dizer, criptomorfismo diádico era o seu apelido na infância. Tenha dó. Veja”. Disse-lhe que a foto realmente lembrava um criptomorfismo que eu havia visto na graduação. “Rolou algo?”, perquiriu. Nesse instante, uma Bomba A destruiu a base secreta, mas eu fui salvo por manter minha integridade enquanto cidadão. Projetando um escudo de virilidade e retidão de caráter ao meu redor – técnica que aprendi com John Wayne, durante um cruzeiro transatlântico em sua companhia – atravessei o fogo, incólume.
“Nudge nudge, leite fresco natural. Conduz o continente americano ao colapso nuclear. Sua aclamada atuação personagens cativantes retrata em haikus a frágil beleza da síndrome do túbulo carpal, hey goo! what’s new?. Um legado indelével na história do pensamento ocidental ela se casou?! – você precisa vir também etc. morra – eu adoro o ar das montanhas hey guys! apaixonado por uma réplica mecatrônica de Julie Andrews – apronta todo tipo de confusões – ele sabe que odeio estampas verdes e eu disse por que você não vai com ela a filha está na faculdade mau uso abuso ou armazenagem inadequada o mais novo é alcoólatra – o grande compositor morreu ontem ao confundir mostarda com nitroglicerina, não poderão ser responsabilizados por danos diretos ou incidentais, acusado de preconceito contra a relação homossexual entre oceanógrafos subatômicos homicidas, outros sintomas similares, flagrado enquanto falsificava fezes, sutil matiz outonal – exibia um quadro de dependência toxicológica de valium e comida tailandesa, ganhou vida novamente com a chegada do couro sintético hey goo! what’s new?. Desligue as luzes querido. Onde você estacionou o carro? Querida, onde estão as crianças?”, disse a pequena boca no pescoço da minha orientadora de Pós-Doutorado em Diplomacia Solipsista.
Clic – inicialmente, um praticante de cooper sobre a água mantém esperanças minúsculas e delírios de redenção, retro-alimentados numa máquina pessoal de hipertrofia. As quedas seguem, irrevogáveis, a cada novo delírio – ele, irrevogavelmente, submerge. Seus valores aberracionais terminam por condená-lo ao mais completo isolamento; um triste exílio – em toda a História, apenas um homem sucedeu nesse exigente esporte – em meados do século I na atual região do Estado de Israel – o que alavancou a popularidade de seu amigo imaginário, assim promovido a fenômeno internacional. Cidades cenográficas, projetadas para iludir, e espalhadas como iscas; a paranóia recursiva do praticante desse esporte blasfemo inclui, agora, o mundo inteiro; como um embuste cuja revelação é sempre iminente. O hotel próximo a sua casa não é real; não há clientes reais. Aquelas pessoas no átrio iluminado, destacado da noite, são fantasmas que fingem conversar, e que fingem estar prestes a entrar no hotel, onde fingirão passar a noite – são como cascas de cigarras mortas, que se desmancham sobre um tedioso deserto de pedras escuras – sua desconfiança generalizada contempla todas as coisas. A beleza e a vida sobretudo, são filtradas, extraídas e descartadas como resíduo de processamento pela máquina; apenas o sumo indiferenciado, falso, estéril é re-aproveitado, em cadeias reiteradas transfinitas.
Decretamos luto oficial de três dias para nossa raison d’être.
Eu não podia mais recorrer ao cooper aquático como um mecanismo de compensação para meus problemas renais, disse a mim mesmo, e então eu disquei para o exterminador de ciborgues do “Exterminador do Futuro”. Contendo as lágrimas, e com a voz embargada, disse-lhe: “Você pode vir aqui e me devolver esse rim que doei para você, e você vai fazer isso agora, porque você é uma máquina e não precisa de rins, mas eu... eu sou humano, cara”, disse, num apelo, desandando a soluçar, “eu sou um verdadeiro ser humano, está me ouvindo?, e como tal, preciso de órgãos especializados em filtrar o sangue. Você está me entendendo?”. Uma equipe de TV transmitia a cena ao vivo, em rede nacional. Mais tarde, repórteres me entrevistavam; eu estava deitado num leito de hospital: “Como você se sente agora que tem dois rins outra vez?”. “Eu...”, enxugando as lágrimas, “eu me sinto abençoado. Agora, posso filtrar meu próprio sangue”.
Eu me tornara uma paixão nacional.
Pessoas usavam meus resíduos excrementícios como gel para cabelo; ou creme dental. Esfolavam-se como cães, cobiçando a oportunidade de ser sodomizadas pelo imenso e grave órgão copulador no qual me havia transubstanciado; assim quem sabe absorvessem, osmoticamente, uma estilha vestigial de minha deidade cataclísmica que a tudo oprimia. Teriam seu pecado original da impopularidade expurgado pelo meu Santo Suco Gonadal Purificador.
[agora também em latas de 350ml].
Eu me tornara uma ereção devastadora.
Minha glande rompia os ligamentos anais do espaço-tempo continuum.
Tudo era apenas mais um dia para mim no paraíso até que fui raptado pelo Lord’s Salvation Army, em um campo de refugiados da Uganda, e então obrigado a fuzilar minha própria família – as garrafas andavam em falta no treinamento de tiro.
(Continua...)
sábado, 15 de março de 2008
Como adquiri imunidade à varíola - Pt. 2
Pela janela, eu e Júlia vimos o Espírito das Taxas Cambiais Passadas estuprar nosso cachorro e nossos filhos. Quando retirou a máscara, reconheci seu rosto: era, percebo agora, o rosto de Richard Gere. Ele me ofereceu uma promoção. Em pouco tempo, eu era líder no ranking mundial do mercado financeiro, ao lado da General Motors; vendo meu reflexo no espelho, fui tomado por tal êxtase carnal que minhas glândulas espermáticas explodiram, dizimando a vida na Terra. A volúpia infinita por minha carne induzia uma ejaculação contumaz e perene; uma avassaladora torrente de sêmen. Meu falo tornara-se a nova fonte mundial de energia hidrelétrica. Meu pai veio à noite me dizer que podia, enfim, morrer em paz, e se orgulhar do filho que expelira repulsivamente no mundo. “Desde que você era apenas um ovo, eu sabia que o seu futuro estava no ramo das hidrelétricas”, disse, fecundando a si mesmo através de um sistema reprodutor hermafrodita e depositando alguns ovos no sofá. O reestabelecimento do contato familiar há muito perdido transtornou minha psyché e fez de mim o maior mass murderer da História; isto contrapontuou com alguma instabilidade meu perfeito equilíbrio pessoal, encontrado nas pequenas coisas do quotidiano. Por exemplo, quanto à disponibilidade de moradias – de fato, grande parte dos hotéis, albergues e agências imobiliárias se recusava a hospedar mass murderers, então passei a dormir numa espelunca, que ficava no oitavo círculo do Inferno, ao lado de uma montanha de cabeças delusórias sob carcaças e vísceras em putrefação, perto da casa de verão da figura papal. “Quando chegam as férias, adoro relaxar no Inferno”, confessara ele à equipe da revista Danação Eterna e Turismo, enquanto explorava os horizontes erógenos do seu corpo com um dildo bioluminescente. O flat no Inferno não era, decerto, um paraíso; eu passava o dia fora, exercendo minhas responsabilidades de mass murderer, mas à noite, recluso, jejuava no fogo até que este consumisse e purgasse as torpes faltas que cometi no decorrer da vida, o que eu achava um pouco incômodo, haja visto atrapalhasse os afazeres da rotina. Comecei a ter enxaquecas; o Dr. Beiersdorf disse que eram provavelmente causadas por stress, e por um wormhole que se instalara no interior do meu cérebro. “Você comeu alguma fenda interdimensional ultimamente?”. “Não. Mas eu comi cereais, ontem”. “Arram”, anotando, “Você come cereais regularmente?”. “Sim”. “Sei. Veja, você sabe que os cereais, por conta de todo esse processamento industrial, eventualmente contêm alguns resíduos perigosos à saúde. Certamente você deve ter ingerido o wormhole por acidente, junto com o leite no prato”. “De fato, agora que você mencionou, lembro de ter visto meu cachorro ser tragado para dentro do meu prato de cereal ao leite, há uns dois meses mais ou menos. A TV, o armário e minha avó também foram, mas achei que estavam apenas tentando se divertir; mergulhar um pouco etc.”. Outra vez ouvi o terno som de confidências apaixonadas; fibrilavam em cadeias saturadas de informação corrompida. Minha tese de mestrado fora devorada por uma horda de antropólogos famintos, mas seus estômagos não apresentavam a enzima necessária para digerir listas de referências bibliográficas. Algumas horas depois, vasculhando suas fezes, pude recuperar essa parte da tese quase intacta - e, numa explosão interestelar, eu estava de volta para lubrificar o biceps de uma auditora fiscal ameaçada de extinção, ao pôr-do-sol em Bahamas, o que reacendeu em mim a paixão pela vida, trazendo de volta minha auto-estima e meu espírito de equipe. Parti numa missão ao espaço com o objetivo de recuperar meu esfíncter anal, enviado na Voyager 1 em 5 de setembro de 1977, para os alienígenas. Fui bem sucedido. Tive enfim algumas horas de paz, após todos esses anos, mas à noite tive que lutar contra os eletrodomésticos do meu apart-hotel que desenvolveram auto-consciência e tentaram me matar – logo perceberam as implicações éticas de sua atitude, e decidiram dedicar a vida ao gipsy, formando uma banda. Aquela foi uma época difícil para mim, e para toda a minha família. Chamei o Holger – meu melhor amigo –, porque precisava desabafar com alguém, e assim contei pra ele toda a história. “É... eu sei como você se sente, cara...”, pondo a mão no meu ombro. “Bem, vamos manter contato”, disse, disparando em seu carro conversível. Alguns dias depois, comecei a vomitar sangue, então o Holger me ligou e, com aquele seu tom folgazão impagável, explicou como me havia pregado essa peça divertida: “Quando toquei no seu ombro, inoculei em sua corrente sangüínea uma toxina que danifica o nervo isquiático no estômago, fazendo com que seus músculos estomacais contraiam em peristalse reversa 24 horas por dia, haha. Dá pra acreditar? Dessa vez eu te peguei, hein?!”. Haha, uma figura.
Agora me escute, comissão de vítimas da demência senil financiada pelo Ministério da Cultura: eu sou o mascote do Abuso Sexual Paterno. Eu vim do Hades para promover a pesca da truta com finalidade auto-erótica. Eu interrompi a hidromassagem, apenas para liberar do julgo tributário a sua síndrome degenerativa da personalidade. Assistia a um documentário sobre espécies ameaçadas, e senti essa intensa pulsão de aniquilar pessoalmente cada espécime do macaco colobo-vermelho-de-miss-waldron; passei a dedicar minha vida a tal propósito. Em pouco tempo, nenhum sobrara na face da Terra. Vendi minha pele ao nosso terapeuta de casais – ele amava vestir sua esposa com a pele dos pacientes durante a cópula –, e à noite, com minhas artérias e músculos expostos, eu e Júlia fomos ao vernissage, onde comemos merdinhas blasé doces e salgadas até uma morte por aneurisma. Que singelas lembranças guardamos daquela noite; o modo como eu sentava no sofá perfeitamente branco e, ao levantar, deixava estampado em sangue o desenho do meu corpo; o sangue que respingava da carne cruenta e nua, sobre o piso, sobre as pessoas; sobre as demais superfícies indefectivelmente puras.
- Podemos concluir, sem exames mais detalhados, que este indivíduo foi acometido por uma grave enfermidade, conhecida como 'estar partido ao meio'; prescreva um tubo de cola, enfermeira.
Compartilhávamos a desfiguração e o interesse pela manipulação de mecanismos sociais em benefício próprio – alguns chamavam de carisma. Eu disse: “vamos sair com amigos para lugares”. Eles disseram: “Adoramos ir a lugares com amigos”.
Como adquiri imunidade à varíola - Pt. 1
Meu professor de Computabilidade na Unicamp tornara-se uno com o hors-d’œuvre. Ele havia conquistado as paradas de Tóquio com o sucesso “Sushi Man”, baseado em sua experiência traumática com a comida japonesa. “Veja, Daniel. Deixe-me tocá-la para você”, disse, pegando um bandolim:
Sushi man
Sushi man
Does whatever a sushi can
Clic – eu estava levemente entediado com a miséria implacável deste infindo solo. Sob o cáustico sol do deserto, selamos, para sempre, a happy hour; o eternamente fatigante meeting*. Você queria divulgar os prazeres da autofecundação; eu me sentia sexualmente atraído pela sua adgenda. O coordenador do projeto – aquele com a camisa do Megadeath, sua alma contrita em lamento e dor plangente – comera o acepipe. Quando acenou simpaticamente para as almas derrelitas atiradas ao mar revolto em tempestade, tornou-se o acepipe; o cálido quitute uterino. Tornou-se, ele também, uno com a guloseima. Pois aquele era o novo gesto proibido, desde que Orfeu ameaçara processar o rei dos mortos Hades por más condições de trabalho.
Então, adormeço. Tenho sonhos eróticos com um polímero orgânico inexplorado pela indústria bioquímica; acordo e estou na República Tcheca; um cachorro é assassinado por um braço mecânico e, de alguma forma visceral, aquilo faz nascer em mim uma nova compreensão holística da vida. Caminhando pelos becos labirínticos e sombrios da Praça de Praga, encontro um homem terrivelmente trágico, e ele diz que a precisão de sua tragédia pessoal é tal que o Instituto Internacional de Pesos e Medidas cogitou definir o metro, essa fantástica unidade de medida, como o comprimento de sua queda ao tropeçar bêbado diariamente no batente do bar às 3:25 a.m., quando cambaleia de volta para casa. Diz-me que é um ex-cirurgião-destista viúvo; que sua esposa, tragada pelo turbilhão irresistível do sedentarismo e abuso nutricional pós-marital, dilatara até implodir e se tornar um buraco negro, consumindo em seu avassalador vórtex gravitacional a casa e toda a vizinhança; carros, árvores, vacas, crianças, ruas, prédios – dela nada escapara. “Meu amigo, onde você enxerga um fim, eu vejo um recomeço; uma nova oportunidade”, disse-lhe. “Que quer dizer?”. “Você já tentou falar com ela depois do incidente?”. “Não... eu... Eu não sei bem como lidar com corpúsculos de convergência espaço-temporal...”. “Bem, você podia tentar reatar com ela. Só precisa saber falar com jeito. Fale com esse cara, ele sabe tudo sobre buracos negros”. Escrevi o nome ‘Stephen Hawking’ num pedaço de papel. “Obrigado. Como posso agradecer? Deixe-me pagar uma bebida”. “Sim. Tudo bem. Ando precisando de algo melhor que sangue em minhas veias”. Sem conversar seguimos, passo a passo, entre as formigas, vendo as enfermas almas prostradas e incapazes de erguer o corpo lasso. Ouvindo esses ruídos distantes; indiferentes aos chamados suplicantes. O chão trepidava; o ruído e o fluxo distante; as silhuetas fracionadas de fantasmas anônimos acelerando até a colisão, em um sonho indistinto, buzinando espectralmente além da membrana da existência.
Bebemos a noite inteira, numa taverna. Às 3:25 saímos; ele tropeçou. Entoamos velhos cânticos gaélicos, sob o céu nas ruas estreitas, como os sucessos “O que você fez com a minha aspirina?”, “Seus pêlos pubianos danificaram o meu barbeador elétrico”, “Efeitos colaterais da insônia” e “A remoção do meu testículo esquerdo trouxe danos à minha vida conjugal”. Aproximadamente 100 bilhões de estrelas eram o nosso público aquela noite fria e contigencial, naquela instanciação randômica de Praga. Por um momento, compreendi a mania de perseguição de um escritor chamado Franz Kafka. E, quando já fraquejávamos, perdidos numa encruzilhada apenas parcamente iluminada por uma lâmpada fraca que falhava, uma pequena fada madrinha apareceu e, com um passe de mágica, nos imunizou contra a varíola.
Eu me tornei mais e mais consciente dos efeitos nocivos de certas comidas industrializadas. Do excesso de conservantes; do excesso de substâncias cancerígenas. E agora, escolhendo na prateleira do supermercado um produto que ocasione o menor risco à minha vida, sou preenchido por essa sensação de completude; de eternidade. De transcendência. Eu alcancei o nirvana. À noite, recebo uma ligação de Buda. Ele me parabeniza e me convida para a festa de lançamento do seu romance sobre sprays bronzeadores, mas sua mansão é invadida pela máfia siciliana e ele é fuzilado. Sua cabeça, atirada dentro de um vulcão, em rede nacional; seu corpo, doado uma conhecida fábrica de biscoitos. Sua alma, dissolvida em um barril de fezes, suco gástrico, ácido butenodióico, gasolina, escorrência menstrual, ketchup e muco.
Em vão tentara esquecer a convoluta solidão do seu peristaltismo retal. Minha clareza era uma nuvem de ruídos.
* “Oh, eternamente fatigante manto” (Dante).
quinta-feira, 13 de março de 2008
Sanduíche de linfogranuloma
Silhuetado contra o horizonte sinovial, um bodhisatva em um tanque de guerra tentava abrir a tiros de canhão seu caminho para o nirvana, mas seu carma era desintegrado por uma reação adversa ao hormônio bovino que vinha injetando - em lenta procissão marchavam as almas frementes.
Você buscava reencontrar a simplicidade pastoril nos arsenais nucleares soviéticos. Eu freqüentava um bordel oficializado pelo ministério estadual da filosofia como Território Moralmente Neutro (lia-se na placa de entrada). Eu buscava, assim, uma vida de solidão e libertinagem; uma vida completa. Você tinha um piercing no cérebro; eu tinha restaurado o meu espírito competitivo na velhice através do tai chi chuan. E, apesar de tudo, não eram as minhas glândulas mamárias que você invejava?
Clic – o silêncio reticente do seu dachshund me faz regredir à substância primeva da existência; ao primeiro string binário gravado na memória do pool genético humano. Que agradável surpresa não tive quando descobri que esta misteriosa essência universal em que me transformara era, fundamentalmente, um apetitivo nacho. “Nunca antes a autofagia foi tão satisfatória”, disse a mim mesmo; minha consciência, uma bolha de nacho flutuando além do espaço-tempo, numa sopa quântica de entropia quasi-dimensional. “Eu sou o Deus Nacho, e não há nacho que não possa fazer”, pensei; emocionado; na linguagem do nacho.
Extasiado, me consumi até a completa extinção.
Infinitas reencarnações adviriam; infinitas vezes desvaneceria o universo, até que o Eterno Retorno me trouxesse de volta à minha cidade natal; à minha pequena, confortável e querida rotina nanométrica. Foi essa época que adquiri obesidade mórbida e minha pele aderiu ao sofá, de onde tive que ser removido cirurgicamente (após ser rebocado por um guindaste até o hospital). Quando acordei da anestesia - mens insana e meu corpo alquebrado -, o cirurgião responsável presenteou-me com esse estranho chapéu; esse chapéu que, explicou, havia confeccionado a partir da minha epiderme excedente raspada do sofá. “Obrigado, doutor”. “Agora, durma, meu amigo. É a única chance que os bolos têm de sobreviver. Mas, me diga, por que não tenta praticar algum esporte? Além da deglutição, digo. Você realmente precisa de um esporte pesado... algo como, levantamento de si mesmo. Hehe”, tosse. “Deus sabe que Malthus concordaria comigo. Veria em você algum tipo de arqui-inimigo. Que merda de programa é esse?”. Irritado, tentou mudar o canal do cardiograma. “Bem. Divirta-se com essa grande e esfuziante festa que é o pós-cirúrgico; todo um mundo mágico, e me chame se sentir algo errado como conforto. Enfermeira, onde guardei os meus instrumentos? Não esse instrumento, sua cadela impudente. Hmmm... sua selvagenzinha insaciável do ramo hospitalar...”.
Caminhamos cegos com o meu padrasto constituído de metal líquido, sobre o ergométrico mar de icterícia; sobre os corpos eviscerados das cheerleaders. A dor original de existir tinha, sobre nós, inviolável e beatífica ação protetora contra raios ultra-violeta – uma força mística clinicamente testada. E, sob a chuva de fogo, fomos parcialmente desnatados até a morte.
O dia amanhece, diluído em serena reiteração recursiva. O calor residual é apagado pelo fluxo branco; folhas secas de outono, o ar frio da manhã. Matrizes de memória vestigial – mostram crianças, em jardins, filmadas por satélites – alimentadas em frames, então sedadas. Induzem sentimento de conforto familiar. Sorriso acalentador – em outdoors –; corrompidos pela inundação de sódio pentotal – a informação é agora inacessível, ou a informação é adulterada. O terno som de amantes fibrilado em cadeias saturadas de inconsistência.
[Lembra quando voltávamos juntos da escola? Não temíamos então a vida.]
Clic – a cerimônia fúnebre da minha adenóide (1982-†2007 - r.i.p.) acelerou ao transfinito incomputável nosso processo de autopromoção. Julguei descortês sua avó ter instalado uma bomba termobárica no meu carro, quando saíamos; apenas por isso a atropelei, e apenas por isso devorei suas entranhas espalhadas pelo asfalto. Por favor, me desculpe. Lembre dos bons momentos. Quantos cardinais não-enumeráveis não criamos, usando o método da diagonalização de Cantor, à luz da lua em Copacabana? Um grupo de vítimas da peste bubônica (a peste negra) nadava no mar, em nossa direção, vindos da África. “Se incomodam se nós salivarmos sobre vocês?”, perguntou um deles (lembra?) “Oh. Não, claro que não”, disse eu, sorrindo. “Tudo bem, Tereza?”. Você concordou, simpaticamente. Àquela noite, minha banda de industrial folk – “Morse Warriors” – abriria o show do Can. Nossa canção de trabalho, “Você é meu alfa-adrenoreceptor favorito", composta para o meu filho, era cantada em código morse - como as demais do nosso repertório – com oboés e violão folk ao fundo, culminando numa dodecafonia industrial e guinchos estridentes impostados por um porco que queimamos vivo no palco, com um maçarico. A letra era uma analogia entre o nosso amor filial-paternal e o bloqueio dos efeitos atinociceptivos do N2O quando alfa-adrenoreceptores antagonistas são injetados na medula espinhal, mas não diretamente no cérebro. Foi quando conheci Júlia; ela é a jovem espécime fêmea do homo sapiens que está copulando comigo no palco enquanto o porco ainda guincha histérico em carne viva – e então, nos casamos. De qualquer modo, isso foi depois; aquela noite voltei sozinho para casa.
Eu gostava de voltar para casa no banco de trás, meu cérebro confortavelmente dementificado, anulado pelas partituras atonais de semáforos e postes e vitrines; um gosto que compartilhava com Tereza. O asilar-se de si mesmo; toda a minha pose boa-praça de dissociação auto-induzida; de lobotomia recreativa. Essas quantas estranhas guaridas que o mundo ora não ora sim nos oferece para conservar, tão criogenicamente, nossa identidade, esse fardo de repelência não turing-computável. Nossos pequenos qualia; nossos simpáticos memes. Um mapeamento um-a-um conectando o catodismo incoerente da cidade à estupidez transfinita de nossas cabecilhas gloriosamente entaladas em saliva genocida hidrofóbica. Qualium por qualium, a cidade deleta sua mente estrogonófica; fuzível por fuzível, você é desligado. Tereza se babava nisso.
De qualquer forma, aquela noite voltei a pé. Hordas de pequenos consultores empresariais e acessoristas de imprensa – não mais que 15cm – me perseguiam, sorrateiramente, pelas esquinas escuras e frias; sob a asma brônquica dos postes de luz.
Eu pensava sobre a vulnerabilidade das áreas cinza; eu pensava sobre o confuso território da razoabilidade. “O que distingue a analiticidade da fraqueza?”, pensava; meus passos no asfalto gelado eram o único som na rua deserta. “Qual o limite entre as duas coisas? Era Hamlet razoável? Ou apenas fraco?. Era Popeye forte, ou apenas irrazoável, contrapositivamente?”.
“Qual o propósito da incerteza num mundo sem verdades?”.
“A vida não é sobre verdade. A vida”, pensei, “é sobre sobrevivência. E a incerteza é, em sua covardia, uma estratégia anti-sobrevivência. Sim, agora percebo que John Wayne estava certo. Como John Wayne, devemos ver em preto e branco. Preto sendo aquilo que você espanca, e branco, aquilo que você permite sobreviver - conotações raciais à parte, e referindo-me aqui, strictu sensu, ao âmbito moral/epistemológico. Kant argumenta que a razão nos obriga à responsabilidade. Ora, eliminando como John Wayne a razão, cortamos o mal pela raiz. Eliminando como John Wayne a razão – a inútil e debilitante busca por um delírio de verdade – em favor da sobrevivência; da força e da liberdade; da identidade, nos tornamos bestas onipotentes, correndo como leões na savana. Fornicando e abatendo. Devorando e sendo devorados à margem da incerteza e da confusão”, pensei, entrando num beco para despistar os pequenos consultores empresariais e os pequenos acessoristas de imprensa.





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